Burnham considera desculpas pela escravidão e propõe aliviar dívidas na Commonwealth

Reino Unido avalia pedido de desculpas histórico e alívio de dívidas

Economia

Pela primeira vez, o governo do Reino Unido considerará emitir um pedido formal de desculpas por sua participação no tráfico transatlântico de escravizados, em uma estratégia para estreitar laços diplomáticos com nações da África e do Caribe.

Em um artigo divulgado no jornal The Guardian no sábado, 31, o primeiro-ministro Andy Burnham pontuou que a nação precisa encarar sua “história complexa” com franqueza para salvaguardar a Commonwealth, associação que agrupa 56 países independentes nascidos do antigo Império Britânico. Nos próximos dias, o premié embarcará rumo a Antígua e Barbuda para participar de uma cúpula com líderes do bloco.

“Há anos, os membros da Commonwealth afetados pelo tráfico de escravizados pedem uma conversa honesta sobre os legados da escravidão”, disse Burnham. “Ao ignorarmos o problema, prejudicamos a capacidade de funcionamento da Commonwealth.”

Diálogo aberto e resistência a reparações

Burnham detalhou que a gestão britânica pretende abrir um “diálogo estruturado” com as populações atingidas pela escravidão, ouvindo os pleitos por um pedido oficial de desculpas do Estado. Por outro lado, o premié frisou que Londres continuará rechaçando exigências voltadas ao pagamento de reparações financeiras pelo período colonial.

“Não creio que os britânicos de hoje possam ser responsabilizados por erros históricos – por mais hediondos que sejam – ocorridos em uma época diferente, sob leis distintas, e nos quais não tiveram qualquer participação pessoal”, afirmou Burnham.

Foco no endividamento internacional

Como alternativa ao pagamento de reparações, o primeiro-ministro destacou que o foco recai sobre os obstáculos econômicos atuais enfrentados por nações em desenvolvimento da Commonwealth, com destaque para o elevado endividamento externo.

A proposta consiste em colaborar com investidores e outras potências globais para viabilizar prazos estendidos de quitação e taxas de juros reduzidas aos países vulneráveis. Para fortalecer o plano, o ex-primeiro-ministro Gordon Brown, reconhecido defensor da causa, integrará a comitiva na reunião.

A movimentação ocorre em meio à pressão enfrentada pelo rei Charles III, que durante passagem pelo Caribe ouviu apelos por retratações e reparações. Em Nassau, capital das Bahamas, o monarca reconheceu “o grande sofrimento e as injustiças do passado”, embora tenha evitado um pedido formal de desculpas — seguindo a diretriz do governo constitucional, que dita as falas da coroa.

Memória e reavaliação do passado colonial

A guinada na postura oficial também conversa com as demandas de eleitores jovens e progressistas no território britânico, que cobram uma releitura do legado imperial. O debate ganha tração desde episódios como a derrubada da estátua do comerciante e escravizador Edward Colston em Bristol, no ano de 2020.

Enquanto herdeiros de antigos magnatas britânicos da escravidão já entoaram pedidos públicos de desculpas, os políticos do país tradicionalmente priorizavam a narrativa da proibição do tráfico em 1807 e da abolição imperial em 1833. Agora, Burnham pondera que o país deve encarar as duas faces de sua trajetória.

“Somos um país onde pessoas corajosas abriram caminho para a abolicão da escravidão, mas somos também um país que participou do comércio de vidas humanas”, disse ele. “O tráfico transatlântico de escravizados foi uma violação brutal e bárbara contra essas pessoas. (…) Quero expressar meu pesar e arrependimento pela dor e pelo sofrimento de milhões de seres humanos, e reconhecer a forma como esse passado ainda molda o nosso mundo hoje.”

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *