Pressionado pelo encarecimento do custo de vida e de olho nas eleições legislativas de meio de mandato, Donald Trump recorreu à diplomacia externa para tentar baratear a energia nos Estados Unidos. A estratégia de aproximação com o presidente russo, Vladimir Putin, contudo, abriu uma crise política em Washington e expôs a fragilidade dos planos da Casa Branca diante da instabilidade internacional.
Acordo com a Rússia e atritos com a Ucrânia
O estopim da recente controvérsia ocorreu após o anúncio de um pacto comercial para que a Rússia forneça centenas de milhares de toneladas de diesel aos norte-americanos. Por meio da rede Truth Social, o presidente republicano declarou que a iniciativa geraria “preços mais baixos para os americanos” e ordenou a retirada das sanções do Departamento do Tesouro que barravam o combustível russo no mercado internacional.
Logo em seguida, o republicano também anunciou uma suposta trégua energética entre Moscou e Kiev. A afirmação, porém, ruiu rapidamente. O governo russo não confirmou o entendimento e realizou novos bombardeios contra a malha elétrica ucraniana. Em tom crítico, o presidente Volodimir Zelenski afirmou que não havia sido consultado com antecedência e rebateu: “É evidente que Putin não lê o Truth Social”. O mandatário completou: “Neste inverno, se a Rússia não concordar com um cessar-fogo energético, nós responderemos.”
O desencontro aprofundou o desgaste entre Trump e Zelenski. Incomodado com as incursões ucranianas contra refinarias russas, que afetam o suprimento internacional de óleo, Trump declarou que a Ucrânia deveria mudar de liderança e exigiu que Zelenski viesse a “parar imediatamente” com as ofensivas, sob risco de cortes de armamentos e inteligência. Avaliando o comportamento do líder americano, Terry Haines, fundador do think tank independente Pangaea Policy, pontuou: “Acho que o presidente [dos EUA] tem um histórico público de uma década de ataques pessoais contra aqueles que não fazem o que ele quer, quando e como ele quer”.
Repercussão negativa e resistência no Congresso
A iniciativa de negociar com Moscou provocou reações imediatas dentro e fora dos Estados Unidos. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, expressou “forte apoio” a uma pausa nas hostilidades contra estruturas energéticas, mas reprovou frontalmente o comércio de diesel, afirmando que a medida financia a “guerra ilegal e injustificável contra a Ucrânia”.
No parlamento norte-americano, a oposição ao plano reuniu democratas e integrantes da própria base republicana. Um grupo de quatro senadores governistas subscreveu uma solicitação para que o Executivo “revertesse imediatamente sua decisão”. Em nota conjunta, os parlamentares destacaram: “O Congresso proibiu explicitamente as importações de energia russa em 2022 para impedir que dólares americanos financiem a guerra brutal de Putin contra a Ucrânia”. O texto reforça ainda que “A decisão do presidente Trump de permitir a importação de diesel russo para os EUA contraria diretamente essa lei.”
Impacto eleitoral e turbulência no Oriente Médio
Apesar das promessas de alívio econômico, o diesel permanece cotado em patamares elevados nos postos, superando a marca de US$ 6 por galão. A situação penaliza diretamente os produtores rurais de estados agrícolas decisivos para a renovação das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e de 35 vagas do Senado no pleito de 3 de novembro.
Para agravar o cenário, as tensões no Oriente Médio adicionam volatilidade às cotações globais. Ofensivas recentes do grupo houthi contra instalações de energia e aeroportos na Arábia Saudita deixaram ao menos 13 mortos, desestabilizando ainda mais o contexto gerado pelo confronto direto entre Washington e Teerã. Ex-embaixador dos EUA no território saudita, Michael Ratney alertou: “Os houthis estão enviando uma mensagem de que não se trata apenas de alvos militares, não se trata apenas de infraestrutura energética. Eles também vão atacar aeroportos civis, o que pode matar muita gente”. Segundo o diplomata, “Acho que a situação vai piorar antes de realmente se acalmar”.
Diante de um eleitorado descontente que associa a inflação energética à guerra com os iranianos, o governo americano vê sua popularidade despencar. Com o histórico padrão do eleitor de penalizar os ocupantes do poder pelas dificuldades econômicas, o acúmulo de crises externas se consolida como o maior teste político de Trump antes do veredito das urnas.
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