Um investidor conservador deveria ter ações na carteira?

Ter 40% em ações pode ser considerado conservador para investidores?

Mercados

Uma carteira com 40% do patrimônio investido em ações pode ser considerada conservadora? Para a American Association of Individual Investors (AAII), instituição americana fundada em 1978, sim. Essa é a alocação de sua carteira-modelo conservadora, destinada a investidores com horizonte de pelo menos dez anos.

No Brasil, entretanto, muitos investidores considerariam essa mesma carteira bastante agressiva. Quem está certo? A resposta depende não apenas do conhecido perfil do investidor, mas também das alternativas disponíveis, da capacidade e habilidade do investidor de suportar oscilações, de suas restrições de risco e dos objetivos que se pretende alcançar.

O peso dos juros e da renda fixa

Nos Estados Unidos, os juros reais, ou seja, acima da inflação, permaneceram relativamente baixos, ou seja, abaixo de 2% ao ano durante boa parte das últimas décadas, embora tenham subido recentemente. Enquanto o ganho real do principal índice de ações americano, o S&P500, esteve em 5,7% nas últimas três décadas.

No Brasil, títulos públicos indexados à inflação frequentemente oferecem taxas reais elevadas. Se um investidor conseguiu contratar IPCA + 6,1% ao ano nas últimas duas décadas, por exemplo, por que aceitaria os riscos da Bolsa? Para isso, precisaria avaliar se o retorno esperado das ações, seus riscos e os benefícios da diversificação justificam destinar parte do patrimônio à renda variável.

A função das ações na formação de patrimônio

Mas ações cumprem uma função diferente na formação de patrimônio. Quem compra uma ação se torna sócio de uma empresa e participa de seus resultados e de seu potencial de crescimento. Enquanto um título de renda fixa estabelece condições de remuneração limitadas a sua taxa de retorno, uma ação permite participar da expansão dos lucros e da criação de valor ao longo do tempo, sem que haja retorno contratado.

Essa possibilidade vem acompanhada de incertezas. Os lucros podem decepcionar, a concorrência pode aumentar, o endividamento pode comprometer a empresa e o preço das ações pode cair muito, mesmo quando o negócio continua saudável. É para assumir essas incertezas que o investidor exige o chamado prêmio de risco: um retorno adicional esperado em relação a aplicações consideradas mais seguras. O problema é que esse prêmio não é garantido. Uma coisa é o retorno que esperamos receber; outra é aquele que efetivamente conseguimos.

Estimar qual deveria ser esse prêmio de risco é uma das tarefas mais difíceis do mercado financeiro. Ele depende das expectativas de crescimento das empresas, dos preços das ações, das taxas de juros e da disposição dos investidores para assumir riscos. E o fato de existir um prêmio esperado não significa que ele será efetivamente recebido.

A experiência brasileira ilustra bem essa diferença. Nos últimos 20 anos, o Ibovespa rendeu 8,7% ao ano, contra 10,1% do CDI. Ou seja, quem investiu no índice recebeu um retorno excedente, ou seja, acima do CDI de 1,4 ponto percentual a menos por ano, apesar de assumir riscos maiores. O índice de pequenas empresas ficou ainda mais distante, com 6,8% ao ano. Já o índice de ações pagadoras de dividendos apresentou resultado melhor, de 13,1% ao ano, resultando em um retorno excedente de 3% ao ano.

Esses números mostram que não basta investir em ações para receber uma compensação pelo risco: o resultado depende também das empresas escolhidas e do período analisado.

Diversificação e perfil de risco

Esse histórico ajuda a entender por que brasileiros podem optar por manter menos ações na carteira do que americanos. Entretanto, antes de decidir quanto investir, é importante lembrar que o mercado acionário não se limita ao Brasil.

Entretanto, a Bolsa brasileira representa uma pequena parcela do mercado acionário mundial. Restringir-se a ela significa deixar de acessar uma parcela expressiva das oportunidades globais, inclusive setores pouco representados entre as empresas listadas no país. Por meio de ações, fundos e ETFs, é possível investir em companhias americanas, europeias e asiáticas. Diversificar internacionalmente reduz a dependência de uma única economia, mas não elimina perdas e pode acrescentar risco cambial.

Também não basta decidir investir em ações. É preciso escolher o que comprar e quanto pagar. Uma excelente empresa pode ser um mau investimento se adquirida por um preço excessivo. E concentrar o patrimônio em poucas ações pode ampliar riscos que seriam reduzidos com uma carteira diversificada.

Além disso, disposição para correr riscos não é o mesmo que capacidade de suportá-los. Um jovem que precisará do dinheiro em dois anos para comprar um imóvel pode ter menos condições de enfrentar uma queda da Bolsa do que um aposentado com patrimônio elevado, renda suficiente e horizonte de investimento de mais de 20 anos.

O risco de ficar de fora

Também existe o risco de não investir. Ao manter todo o patrimônio em renda fixa tradicional, o investidor reduz determinadas incertezas, mas abre mão da participação direta na valorização das empresas. Evitar a volatilidade das ações não significa eliminar todos os riscos para o patrimônio futuro. Isso não torna as ações obrigatórias: torna a decisão de ficar fora delas uma escolha que merece ser examinada.

Ao longo desta série de duas semanas, vamos discutir como investir em ações, compreender riscos, diversificar investimentos e escolher entre ações brasileiras e internacionais. Também examinaremos estratégias baseadas em crescimento, qualidade, dividendos e momento de mercado, além de decisões sobre quanto investir, quando comprar e quando vender.

Portanto, nem todo investidor brasileiro precisa ter ações na carteira. Mas todo investidor deveria compreender o que abre mão por não ter, e o que pode perder se decidir investir.

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