Quando as urnas foram fechadas no Brasil no primeiro turno das eleições, apostadores pareciam convencidos de que Flávio Bolsonaro (PL) se tornaria presidente, atribuindo a ele cerca de 80% de chance de vitória. Eles estavam errados.
À medida que os votos do segundo turno eram apurados, ficou claro que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria. As probabilidades mudaram rapidamente, enquanto os operadores corriam para fazer novas apostas sobre o vencedor.
Neste ano, o poder dos mercados de previsão está sendo testado como nunca antes. Embora plataformas como Polymarket e Kalshi existam há várias anos, elas ganharam popularidade mais recentemente ao permitir apostas sobre uma ampla variedade de acontecimentos, desde quem vencerá a World Series até quanto os consumidores gastarão na Cyber Monday —data de promoções no comércio eletrônico dos Estados Unidos, realizada na segunda-feira após o feriado de Ação de Graças, em novembro—.
As plataformas esperam que as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos —as midterms— sejam sua oportunidade de ganhar destaque e impulsionar os negócios com uma série de previsões precisas, capazes de superar pesquisas de intenção de voto e projeções eleitorais na antecipação dos resultados.
Para atrair novos usuários e aumentar a receita com as taxas cobradas sobre as apostas, as empresas lançaram uma ampla campanha de marketing. A Kalshi alugou um enorme painel publicitário na Times Square, em Nova York, para divulgar as probabilidades de qual partido controlará o Senado. A Polymarket produziu um comercial de televisão que retrata uma campanha política fracassada, com o slogan: “Veja as eleições de meio de mandato em movimento”.
Acertar as previsões neste ano seria um impulso para um setor que enfrenta crescente escrutínio de parlamentares, inclusive por preocupações relacionadas à manipulação de mercados e ao uso de informações privilegiadas.
“Acho que, daqui a uma semana, este será um assunto de grande repercussão”, disse Brett Goldstein, professor pesquisador da Universidade Vanderbilt e um dos coordenadores de uma equipe que estuda mercados de previsão. “E veremos para que lado a história vai.”
Estudos mostram que mercados de previsão como Polymarket e Kalshi podem ser bastante precisos. Isso não significa, porém, que o favorito nas apostas sempre vença.
Os mercados de previsão permitem que usuários apostem no resultado de um acontecimento. Grande parte das apostas está concentrada em eventos esportivos, mais as eleições se tornaram uma categoria popular porque as campanhas levam meses até serem definidas e podem acumular milhões de dólares em apostas, feitas tanto por amadores quanto por profissionais.
À medida que os usuários apostam, o preço de cada opção oscila, criando um conjunto de probabilidades em constante mudança que reflete a chance de determinado acontecimento ocorrer.
Uma análise de mais de 1 milhão de mercados, publicada neste ano na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, concluiu que essas probabilidades eram “bem calibradas”. Os favoritos com ampla vantagem geralmente venciam, mas nem sempre.
Pesquisadores acreditam, no entanto, que estão prestes a desenvolver uma compreensão ainda mais aprofundada do poder preditivo desses mercados depois que todos os votos forem contabilizados neste ano. Os resultados de estudos anteriores não necessariamente refletem as plataformas como elas são hoje, com um número muito maior de usuários e mais dinheiro movimentado nos sites.
Dani Lever, executivo da Kalshi, comparou os mercados de apostas ao mercado de ações e afirmou que investidores sempre negociaram ativos em torno de eleições. Ao deslocar o foco daquilo que as pessoas querem que aconteça para aquilo que acreditam que acontecerá, disse ela em uma declaração enviada por e-mail, os mercados de previsão podem “filtrar o ruído das redes sociais e o viés dos comentaristas”. A Polymarket não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Mais de US$ 221 milhões (R$ 1,21 bilhão) foram movimentados em mercados relacionados às eleições de meio de mandato, ante US$ 92 milhões (R$ 504,9 milhões) na disputa presidencial de 2024, segundo relatório intitulado Gambling on Democracy (Apostando na democracia, em tradução livre), do Anti-Corruption Data Collective, grupo de pesquisa sediado em Washington que busca identificar e reduzir a corrupção em investimentos privados.
A crescente popularidade dos mercados de previsão tem sido acompanhada de críticas sobre a existência de algum poder preditivo especial nessas plataformas.
Na eleição presidencial de 2024, os mercados de previsão indicaram muito antes das pesquisas que Donald Trump venceria Kamala Harris, segundo estudo de pesquisadores da Universidade Vanderbilt. As pesquisas, por sua vez, apontavam uma vantagem pequena, mas consistente, de Harris, concluíram os pesquisadores.
“Precisamos acompanhar esses mercados muito de perto”, disse Goldstein, que participou do estudo. “Eles podem estar nos dizendo algo mais próximo da verdade.”
As plataformas também registraram erros expressivos neste ano. Durante as eleições primárias, os mercados de previsão atribuíram a Spencer Pratt, candidato conservador à Prefeitura de Los Angeles, 75% de chance de aparecer na cédula eleitoral de 3 de novembro. Ele terminou em terceiro lugar nas primárias, com quase 30 mil votos a menos que o segundo colocado, e não avançou para a eleição geral.
Pesquisas de alta qualidade divulgadas antes da votação estavam divididas: metade indicava que Pratt terminaria em segundo lugar; a outra metade apontava Nithya Raman, que acabou ficando com a segunda posição.
Institutos de pesquisa e responsáveis por modelos de projeção eleitoral têm criticado especialmente os mercados de previsão. Eles argumentam que essas plataformas refletem principalmente as crenças de apostadores on-line e, em grande medida, dependem de pesquisas de intenção de voto já existentes.
“Não acho que devamos acompanhar os mercados de previsão de forma alguma”, disse G. Elliott Morris, analista eleitoral que dirige o FiftyPlusOne, site de pesquisas e projeções eleitorais. “Acho que temos medições diretas excelentes da opinião pública por meio das pesquisas.”
Morris afirmou que algumas disputas nos mercados de previsão indicavam que os apostadores acreditavam que as pesquisas subestimariam o apoio aos republicanos. Esse tipo de erro já ocorreu no passado, especialmente em relação ao apoio ao presidente Trump. Mas as pesquisas foram mais precisas nas eleições de meio de mandato da última década.
Isso pode ajudar a explicar uma divergência entre os modelos de projeção, as pesquisas e os mercados de previsão na disputa pelo Senado em Iowa. As pesquisas apontam uma corrida equilibrada. Analistas que elaboram modelos de projeção, como Morris, dão vantagem ao democrata Josh Turek. Já os mercados de previsão, incluindo Polymarket, Kalshi e PredictIt, favorecem a republicana Ashley Hinson.
Na maioria das outras disputas acirradas pelo Senado, os mercados de previsão favorecem os democratas. É o caso do Maine, onde a republicana Susan Collins, que ocupa o cargo desde 1997, aparece atrás do democrata Troy Jackson. Collins ficou atrás em todas as pesquisas de alta qualidade realizadas em outubro, com exceção de uma, na qual apareceu empatada com Jackson.
Em 2020, Collins também estava atrás em todas as pesquisas divulgadas nos quatro meses finais de sua campanha pela reeleição. No dia da votação, porém, venceu o adversário democrata por mais de oito pontos percentuais. O resultado refletiu um erro generalizado das pesquisas naquele ano, que subestimaram o apoio aos republicanos.
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