Dois anos após transplante com HIV, paciente enfrenta câncer e família busca reparação no Rio

Paciente que recebeu órgão com HIV enfrenta câncer e busca reparação

Saúde

Dois anos após receber um transplante de fígado e ser infectado pelo HIV, um aposentado de 78 anos enfrenta um câncer de boca e voltou a ser internado após complicações de uma cirurgia para retirada do tumor. O paciente foi uma das seis vítimas do escândalo de contaminação por HIV em transplantes de órgãos no Rio, em 2024, após exames realizados pelo laboratório PCS Lab Saleme, em Nova Iguaçu.

Antes da falha no procedimento que marcou a saúde pública fluminense, o funcionário público aposentado do Ministério da Saúde era ativo, administrava as próprias contas, caminhava na praia e costumava conversar sobre política e futebol. Agora, ele diz aos familiares que tem medo de transmitir o vírus aos próprios filhos, que hoje se revezam nos cuidados com ele, e relata se sentir punido por algo que não provocou.

O impacto na rotina da família Em maio de 2024, Paulo recebeu um transplante de fígado, cujos nomes e de sua filha Marina Martins são fictícios, utilizados a pedido da família para preservar a identidade diante da exposição de informações médicas sensíveis. A recuperação inicial transcorreu sem complicações aparentes, mas, nas semanas seguintes, ele passou a apresentar infecções recorrentes, fraqueza muscular e alterações neurológicas.

Feridas na boca e na garganta dificultavam a alimentação. Segundo Marina, o pai, que pesava 75 kg, chegou a aproximadamente 42 kg. Deixou de acompanhar o noticiário e já não conseguia concluir frases. Também precisava de ajuda para atividades básicas como comer, se locomover e tomar banho. Após a descoberta da infecção por exames de sangue em outubro de 2024, o paciente foi encaminhado à Fiocruz e apresentou melhora gradual com o tratamento.

Os quatro filhos passaram a organizar escalas para acompanhá-lo em consultas, exames e internações. O estresse e a sobrecarga também afetaram a saúde emocional e profissional dos irmãos e da própria Marina, que desenvolveu problemas de pele nas mãos durante o período mais crítico.

Novo diagnóstico e ação judicial A família ainda tentava reorganizar a rotina quando surgiu outro problema de saúde. Uma ferida persistente na boca levou à realização de uma biópsia, que identificou um câncer. Em 14 de outubro, Paulo passou por uma cirurgia no Hospital Universitário Pedro Ernesto, na zona norte do Rio, com retirada de dentes e parte da mandíbula. Após complicações e abertura de pontos, ele foi internado novamente e permanece hospitalizado, com quadro estável e sem previsão de alta.

A defesa busca esclarecer se o câncer tem relação com a infecção e a imunossupressão. Segundo o advogado Eduardo Cruz, do escritório João Tancredo, um documento médico emitido durante atendimento pelo SUS em São João de Meriti aponta que a infecção pelo HIV e o uso de imunossupressores são fatores que predispõem ao desenvolvimento de câncer oral. O diagnóstico de carcinoma de células escamosas foi confirmado por exame da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Decidida a buscar reparação, a família recusou um acordo de indenização e ajuizou, em setembro de 2025, uma ação contra o Estado do Rio de Janeiro, a Fundação Saúde e o laboratório PCS Lab Saleme. O processo tramita sob segredo de Justiça. Na esfera criminal, seis sócios e funcionários do laboratório respondem por acusações como associação criminosa, lesão corporal e falsidade ideológica, com alegações finais em andamento.

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