Mouton Rothschild: um século de arte, vinhos históricos e milhões em jogo

Leilão em Londres celebra cem anos de rótulos de arte no vinho

Gastronomia

Imagine abrir uma garrafa de vinho e descobrir que o rótulo foi criado por Pablo Picasso. Ou Andy Warhol. Quem sabe Joan Miró, Salvador Dalí ou Francis Bacon. Parece coisa de museu, e de certa forma é. Há mais de um século, o Château Mouton Rothschild, um dos grandes nomes de Bordeaux, resolveu aproximar dois universos que costumam disputar cifras milionárias: o vinho e a arte. A ideia deu tão certo que suas garrafas se transformaram em objetos de coleção, muitas vezes cobiçados tanto pelo conteúdo quanto pela assinatura estampada no papel.

Agora, parte dessa história vai trocar as caves de Pauillac pelas salas da Sotheby’s, em Londres. No dia 4 de fevereiro de 2027, a casa promoverá um leilão dedicado aos cem anos da primeira colaboração artística do château. A estimativa de arrecadação está entre 1,9 milhão e 3,1 milhões de libras esterlinas. No catálogo, garrafas que atravessaram guerras, mudanças de gerações e movimentos artísticos, além de raridades que nunca chegaram ao mercado.

A tradição centenária e o início dos rótulos artísticos A história começou em 1924, quando o barão Philippe de Rothschild, então um jovem de 22 anos, resolveu mexer em algumas tradições de Bordeaux. Uma delas era o costume de entregar os vinhos aos negociantes para que fossem engarrafados fora da propriedade. Philippe decidiu assumir essa tarefa dentro do château e, para marcar a mudança, convidou o artista gráfico Jean Carlu a desenhar um rótulo. Era uma novidade e tanto para uma região conhecida por levar suas tradições muito a sério.

A experiência ficou guardada por duas décadas. Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, Philippe retomou a ideia e encomendou ao artista Philippe Jullian um rótulo com o famoso “V” da vitória. A safra se tornaria uma das mais celebradas da história de Bordeaux. A partir do ano seguinte, a arte passou a frequentar as garrafas do Mouton Rothschild regularmente. E nunca mais saiu.

Uma galeria de arte com cheiro de vinho A lista de artistas que aceitaram o convite da família Rothschild impressiona. Jean Cocteau, Georges Braque, Marc Chagall, Joan Miró, Pablo Picasso, Andy Warhol, Keith Haring, Francis Bacon, Lucian Freud e David Hockney são apenas alguns dos nomes que deixaram sua marca nas garrafas.

O curioso é que a coleção permite acompanhar boa parte da história da arte moderna sem sair do universo do vinho. O surrealismo aparece nas safras de 1952, com Leonor Fini, 1962, com Roberto Matta, 1969, com Miró, e 1985, com Paul Delvaux. Já a pop art ganha um capítulo especial com quatro magnums ilustrados por Warhol, Saul Steinberg, Keith Haring e Hockney.

Alguns rótulos também acabaram se tornando retratos de seu tempo. Em 1989, ano da queda do Muro de Berlim, o escolhido foi o alemão Georg Baselitz. Em 2004, para comemorar o centenário da Entente Cordiale, acordo que aproximou França e Reino Unido, a vinícola convidou o então príncipe Charles, hoje rei Charles III, a contribuir com uma aquarela. Nem a realeza britânica escapou da tentação de assinar um Mouton.

As obras originais, aliás, não desapareceram depois de impressas. Muitas estão expostas no próprio château, que mantém salas dedicadas à coleção Paintings for the Labels. A iniciativa ganhou ainda mais força com a baronesa Philippine de Rothschild, filha de Philippe, que em 1981 criou uma exposição itinerante para apresentar esses trabalhos ao público de diferentes países.

Safras históricas e preços milionários No leilão, os interessados poderão disputar algumas das safras mais desejadas do château. A de 1945, com seu histórico “V” da vitória, aparece com estimativa entre 18 mil e 24 mil libras por uma única garrafa. Quem preferir um magnum, com 1,5 litro, deverá estar preparado para desembolsar entre 38 mil e 50 mil libras, caso os lances fiquem dentro das previsões.

Outras safras históricas, como 1953, 1959, 1961, 1982 e 1986, também estarão no catálogo. Mas um dos lotes mais interessantes é uma vertical com 77 garrafas e um magnum, reunindo anos selecionados entre 1924 e 2024. Em outras palavras, uma viagem por um século de Mouton Rothschild, com direito a observar como mudaram os vinhos, os artistas e até o gosto de cada época. A estimativa? De 150 mil a 300 mil libras.

Para quem prefere algo mais contemporâneo, haverá garrafas de safras recentes, incluindo 2009, com rótulo de Anish Kapoor, 2010, de Jeff Koons, 2016, de William Kentridge, 2019, de Olafur Eliasson, e 2020, de Peter Doig. Alguns formatos especiais nunca foram comercializados. Outros terão a assinatura dos próprios artistas, detalhe capaz de fazer uma diferença considerável quando o martelo bater.

Oportunidades exclusivas e causas beneficentes Entre tantas garrafas antigas, uma das curiosidades do leilão é justamente um vinho que ainda nem terminou sua trajetória na adega. Trata-se de uma barrica inteira do Mouton Rothschild 2025, equivalente a 300 garrafas convencionais. O comprador poderá escolher os formatos em que deseja receber o vinho, além de personalizar as faixas de identificação. A entrega começará em 2028, diretamente da propriedade. O lote está estimado entre 75 mil e 150 mil libras. É uma maneira bastante exclusiva de comprar vinho antes de ele chegar às lojas. E, convenhamos, não é todo dia que alguém pode dizer que tem uma barrica de Mouton Rothschild reservada em Bordeaux.

Outra atração será a safra 2024, que completa o ciclo iniciado por Jean Carlu cem anos antes. O artista responsável pelo novo rótulo ainda é um segredo que a família pretende revelar em 1º de dezembro de 2026. A garrafa dividirá espaço com exemplares da própria safra 1924, colocando frente a frente o início da história e sua comemoração centenária.

Nem todo o dinheiro movimentado pelo leilão terá como destino as caves dos colecionadores. Metade da receita de determinados lotes com grandes formatos autografados será destinada à organização Médicos Sem Fronteiras. Outros conjuntos beneficiarão instituições como o Museu Picasso, em Paris, o Museu Soulages, em Rodez, o MoMA, em Nova York, e o Palácio de Versalhes.

Há, inclusive, uma seleção de sete garrafas com rótulos assinados por artistas que já expuseram em Versalhes, entre eles Jeff Koons, Anish Kapoor, Olafur Eliasson e Joana Vasconcelos. A estimativa fica entre 10 mil e 20 mil libras. E como nem tudo se resume a comprar garrafas, alguns lotes especiais darão direito a participar de um jantar de gala no próprio Château Mouton Rothschild, marcado para 12 de junho de 2027. Uma oportunidade de conhecer a propriedade, celebrar a história da família e, naturalmente, beber alguns bons vinhos. Os detalhes da experiência permanecem reservados aos futuros compradores.

Hoje, o château é conduzido pela terceira geração de descendentes do barão Philippe: Camille Sereys de Rothschild, Philippe Sereys de Rothschild e Julien de Beaumarchais de Rothschild. A escolha dos artistas continua sendo assunto de família, com Julien à frente desse relacionamento. Em Pauillac, os 82 hectares de vinhedos seguem produzindo um dos tintos mais famosos do mundo, elaborado principalmente com Cabernet Sauvignon. O vinho continua sendo o protagonista, mas há muito tempo deixou de ser o único motivo para desejar uma dessas garrafas.

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