O mistério de como a fadiga mental se origina no cérebro pode estar perto de ser desvendado. Uma equipe de pesquisadores identificou um provável culpado molecular para a exaustão cognitiva: o glutamato, um neurotransmissor comum que se acumula em áreas específicas do cérebro durante a realização de tarefas mentais desafiadoras e parece derrubar a nossa motivação.
A questão era pessoal para Hongmei Xia, estudante de doutorado em neurociência cognitiva na Universidade Ludwig Maximilian de Munique, na Alemanha, que frequentemente se sentia esgotada após longas jornadas de pesquisa. O trabalho atual se baseia em investigações anteriores que já haviam sugerido o papel do glutamato na fadiga mental, como um estudo de 2022 feito em Paris que apontou o acúmulo da substância no córtex pré-frontal lateral. No entanto, especialistas avaliam que a nova pesquisa traz a evidência mais forte até o momento dessa ligação, sendo publicada na segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Para testar a teoria, os cientistas utilizaram eletrodos para estimular o córtex pré-frontal dorsolateral dos participantes enquanto eles memorizavam letras em telas. Os impulsos melhoraram o desempenho, mas deixaram os voluntários menos dispostos a realizar outras tarefas exigentes na sequência. Xia explica que, em concentrações altas o suficiente, o glutamato pode danificar as células cerebrais, indicando que a sensação de esforço para manter o foco é, na verdade, “a safety signal to tell you, ‘Okay, you should take a break.’”
Debate entre biologia e psicologia O estudo também ajuda a esclarecer o debate de longa data sobre a natureza da fadiga mental. Enquanto alguns pesquisadores defendiam uma origem puramente psicológica — como um alerta para abandonar tarefas sem retorno e buscar atividades mais recompensadoras —, o novo trabalho afasta essa hipótese exclusiva ao demonstrar que alterações neurobiológicas sozinhas podem induzir o cansaço. Contudo, cientistas como Mathias Pessiglione apontam que fatores psicológicos, como motivações e crenças, também desempenham um papel fundamental.
Outras substâncias e perspectivas futuras O glutamato pode não ser o único elemento envolvido no processo. Outros laboratórios já investigam tanto o glutamato quanto o lactato, além da contribuição de regiões como o córtex cingulado anterior. O objetivo futuro é que essas descobertas ajudem no tratamento de pessoas propensas à exaustão mental severa, como indivíduos com depressão e esquizofrenia. Por enquanto, a recomendação prática para uma mente sobrecarregada é direta: mudar para tarefas mais fáceis e dar tempo para o cérebro se recuperar, como resume Xia: “Give some time to your brain.”
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