Anvisa aprova Wegovy em comprimido: o que falta para versão oral da caneta emagrecedora chegar às farmácias do Brasil?

Anvisa aprova Wegovy em comprimido: veja quando chega ao Brasil

Saúde

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a versão em comprimido do Wegovy, medicamento voltado para o tratamento da obesidade desenvolvido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Trata-se do primeiro fármaco oral pertencente à classe dos agonistas de GLP-1 liberado no país para combater o excesso de peso, utilizando o mesmo princípio ativo das populares canetas emagrecedoras, a semaglutida, mas com administração diária em vez de semanal.

“A chegada de um GLP-1 em comprimido representa uma nova ferramenta que vai cada vez mais ampliar as possibilidades de medicações que podem ser utilizadas em diferentes perfis de pacientes”, diz a endocrinologista Cynthia Valério, presidente eleita da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

Atualmente, não há uma data oficial de lançamento ou preço estipulado para o mercado brasileiro. Em comunicado oficial, a fabricante informou apenas que o produto deve desembarcar nas farmácias nacionais “nos próximos trimestres”. No cenário internacional, o produto já é comercializado nos Estados Unidos desde janeiro, além de estar presente nos Emirados Árabes Unidos, no Reino Unido e na Alemanha.

O que falta para o lançamento no Brasil

O aval da Anvisa marca apenas a etapa inicial do processo regulatório. Antes de estrear nas prateleiras, o laboratório precisa submeter o produto à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão governamental responsável por estabelecer o teto de preço para todos os fármacos comercializados no território nacional. O pedido de registro à Anvisa foi protocolado em 30 de janeiro deste ano e oficializado no Diário Oficial da União através da Resolução 4.249/2026.

O uso da pílula é recomendado para adultos que apresentam obesidade, caracterizada por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30. A indicação também abrange indivíduos com sobrepeso — IMC entre 27 e 30 — que possuam pelo menos uma comorbidade ligada ao peso excessivo, a exemplo de hipertensão ou diabetes tipo 2. Em todas as situações, o consumo deve ser combinado com reeducação alimentar e prática de exercícios físicos.

Presença internacional e custos

Os Estados Unidos foram pioneiros na liberação da pílula em dezembro de 2025, por meio da FDA (Food and Drug Administration). As vendas iniciaram em 5 de janeiro, com valores variando de US$ 149 (R$ 816) mensais na dosagem inicial até US$ 299 (R$ 1,6 mil) nas concentrações mais elevadas para consumidores particulares. Desde a estreia, mais de 7 milhões de prescrições foram dispensadas no mercado norte-americano.

A expansão seguiu em junho para os Emirados Árabes Unidos, seguido pelo Reino Unido em julho, onde o medicamento é comercializado exclusivamente em redes privadas, ficando de fora da cobertura do sistema público britânico (NHS). A União Europeia aprovou o item no mesmo período, com a Alemanha inaugurando as vendas em 1º de setembro, além de uma autorização no Bahrein.

Mecanismo de ação e dosagem

A semaglutida atua mimetizando o GLP-1, um hormônio liberado pelo intestino após as refeições que envia sinais de saciedade ao cérebro e retarda o esvaziamento gástrico. Como grande parte da substância se perde no trato digestivo durante a ingestão oral, a dosagem diária precisa ser consideravelmente maior: 25 mg por dia na fase de manutenção, comparados aos 2,4 mg semanais da versão injetável.

O protocolo terapêutico inicia com 1,5 mg, avançando gradativamente por 4 mg e 9 mg até atingir o patamar de 25 mg. A administração exige jejum e o uso de pouca água, sendo obrigatório aguardar pelo menos 30 minutos antes de ingerir alimentos, líquidos ou outros medicamentos. Conforme diretrizes da agência reguladora, pacientes poderão alternar entre a caneta e o comprimido conforme avaliação médica.

Resultados clínicos e efeitos colaterais

A autorização regulatória baseou-se majoritariamente no estudo OASIS 4, divulgado no periódico científico The New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou 307 adultos sem diabetes, diagnosticados com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, avaliando os impactos após 64 semanas.

O grupo tratado com a pílula registrou uma redução média de 13,6% no peso corporal, enquanto os participantes que receberam placebo alcançaram 2,2%. Quase um terço dos indivíduos sob uso do medicamento eliminou 20% ou mais do peso total. Os efeitos colaterais mais frequentes foram de natureza gastrointestinal, como diarreia e náuseas, atingindo 74% dos usuários da fórmula — contra 42% no grupo placebo —, embora fossem predominantemente leves ou moderados. A taxa de interrupção devido a reações adversas ficou em 7% para o grupo tratado e 6% para o placebo.

Diferenças para o Rybelsus e o mercado de genéricos

O país já contava com o Rybelsus, outro comprimido de semaglutida da mesma farmacêutica, voltado exclusivamente para o manejo do diabetes tipo 2 em concentrações menores. A novidade chega a um cenário modificado pela perda da patente da semaglutida no Brasil em 20 de março de 2026, abrindo espaço para versões genéricas da injeção aprovadas desde agosto, que por lei devem custar ao menos 35% a menos que o produto de referência.

O principal concorrente da novidade é o Foundayo (orforglipron), um comprimido diário desenvolvido pela Eli Lilly — fabricante do Mounjaro — que obteve aval nos Estados Unidos em abril, mas ainda carece de registro nacional.

A especialista aponta que a via oral favorece quem rejeita injeções, prefere a rotina diária ou enfrenta dificuldades de armazenamento refrigerado devido a viagens constantes. “O nosso maior desafio hoje é a adesão de longo prazo e a perda de peso sustentada”, pontua a médica, reforçando que a interrupção do protocolo anula as conquistas obtidas.

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