Rota 66, 'estrada-mãe' dos EUA, completa cem anos entre a rebeldia e o kitsch

Rota 66 celebra centenário entre marcos culturais e espírito kitsch

Turismo

A famosa Rota 66 completa cem anos na próxima quarta-feira (11), consolidando-se ao longo de sua trajetória na literatura, no cinema e na música, além de ajudar a cristalizar o imaginário sobre os Estados Unidos. A estrada ajudou a moldar a imagem de um país que marchou bravamente para o oeste, como mostram os filmes de caubói — embora a história revele que a marcha não foi tão gloriosa, como bem sabem os indígenas.

No romance “As Vinhas da Ira”, publicado em 1939 por John Steinbeck, a família Joad utiliza a rodovia para escapar da seca em Oklahoma e buscar uma nova vida na Califórnia. Menos de 20 anos depois, a via volta a aparecer no seminal “Pé na Estrada”, de Jack Kerouac. Nessas páginas, o jovem Sal Paradise observa com certo deslumbramento os “andarilhos de cabelos compridos e aspecto arruinado” que tomavam aquele caminho.

As obras mostram retratos muito diferentes da via que cruza oito estados americanos, funcionando quase como representações complementares. Tábua da salvação, escolha existencial, ode ao automóvel e túmulo do kitsch são definições possíveis para o trajeto.

Para celebrar o centenário, o Brand USA, órgão de promoção do turismo americano, mapeou cerca de 250 locais — entre museus, bares e lanchonetes — que contam a história daquela que chamam de “rodovia-mãe” dos americanos. O mapeamento interativo, com textos em português, está disponível na internet.

De Chicago a Santa Mônica

Com início oficial em Chicago, a terceira maior metrópole do país — atrás apenas de Nova York e Los Angeles —, a rodovia percorre 4.000 quilômetros até terminar no píer de Santa Mônica, reduto hippie situado à beira do oceano Pacífico. O ponto final abriga lanchonetes com aspecto vintage, um parque de diversões antigo e lojas de souvenir que vendem lembrancinhas a quem completou todo o percurso.

Deixando Chicago e seus subúrbios industriais para trás, a paisagem passa a ser dominada pelas planícies do meio-oeste, repletas de plantações infinitas de milho e silos de grãos. Nos quilômetros iniciais da rodovia, em Pontiac, no estado de Illinois, funciona o Route 66 Hall of Fame, um museu com entrada gratuita que expõe fotos, cartazes, placas e antigas bombas de gasolina.

Mais adiante, as montanhas e florestas da região dos Ozarks anunciam a chegada ao Missouri, onde a estética kitsch ganha força. A cidade de Cuba exibe com orgulho um monumento de quase 13 metros de altura — a maior cadeira de balanço do mundo, segundo o Guinness —, embora não seja permitido sentar nela. O título de segundo maior garfo do planeta pertence aos habitantes de Springfield, no mesmo estado. O talher de 10 metros e 11 toneladas também está fincado na rota, apesar de terem perdido o pódio para a cidade de Fairview, no Oregon, que fica bem longe da rota 66.

Paradas históricas e deserto

No Kansas, o trajeto compreende apenas 21 quilômetros de estrada, com destaque para a Rainbow Bridge, uma ponte de ferro ainda mais antiga do que a própria rodovia. Já em Oklahoma e Texas, diners, motéis antigos e postos abandonados adicionam uma camada histórica extra, remetendo ao período em que famílias miseráveis migraram durante a Grande Depressão dos anos 1930 e fugiram do Dust Bowl, conjunto de tempestades de poeira que devastou as colheitas.

O Novo México e o Arizona são dominados pela paisagem desértica e por fortes influências indígenas e hispânicas, remetendo aos cenários de filmes de faroeste e às andanças dos motociclistas de “Sem Destino”, síntese da rebeldia dos anos 1960 mais conhecida pelo título original, “Easy Rider”.

A Califórnia libertária e ensolarada, terra da fama e das promessas, marca o ponto final. No entanto, antes de alcançar o mar, o motorista precisa enfrentar o tráfego intenso da maior cidade daquele estado, Los Angeles, e suas extensas rodovias.

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