Reação da população contra a IA ameaça boom trilionário de data centers, dizem líderes de tecnologia

Reação pública contra inteligência artificial ameaça data centers

Tecnologia

A crescente revolta da população contra o desenvolvimento da inteligência artificial tem potencial para paralisar a expansão de infraestrutura mais custosa de toda a história, conforme alertaram importantes lideranças do setor de tecnologia nesta quinta-feira (5), durante a conferência Future of AI.

Representantes de companhias da área presentes no evento apontaram que o próprio ecossistema tecnológico fomentou a resistência popular erguida contra a instalação de data centers voltados à IA. Essa situação tem estimulado legisladores e autoridades governamentais a avaliarem mecanismos para conter o ritmo acelerado dessas obras.

O impacto político da resistência

O sinal de alerta para o mercado veio com as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. No pleito, eleitores escolheram governadores contrários a esses empreendimentos em estados como Texas, Geórgia e Ohio, além de ratificarem 38 propostas locais para limitar a expansão das estruturas. O cenário forçou o setor a reconhecer sua falha histórica em dialogar com a sociedade.

“A razão não é que as pessoas sejam luditas… É muito parecido com os protestos contra as máscaras durante a Covid-19. Isso se tornou um símbolo político”, afirmou Vik Bajaj, codiretor executivo da Prometheus, startup de inteligência artificial amparada por Jeff Bezos.

“Como categoria profissional, passamos dois anos dizendo às pessoas, de maneira bastante irresponsável, que a IA mudaria o futuro do trabalho para pior —que elas perderiam o emprego, que seus filhos perderiam o emprego, que seus netos viveriam em um mundo irreconhecível. E, no último ano, mais ou menos, também estivemos flertando com a ideia de que se trata de uma crise existencial.”

Para John Hanke, fundador da Niantic Spatial e criador do jogo “Pokémon Go”, o resultado das urnas funcionou como um aviso definitivo. “Acho que esta eleição foi um grande alerta… para fazermos uma pausa, pensarmos no que está acontecendo e abordarmos isso de forma talvez um pouco mais ponderada”, avaliou, acrescentando que a postura adotada foi de “avançar, avançar, avançar; construir, construir, construir —e parte disso foi feito… com a cabeça enterrada na areia.”

Custos de energia e reações comunitárias

Gigantes da tecnologia e laboratórios especializados assumiram o compromisso de injetar trilhões de dólares nos próximos anos para ampliar a capacidade computacional, sob a premissa de suprir a demanda contínua por ferramentas de IA.

Apesar disso, o volume colossal de investimentos enfrenta críticas severas. O motivo envolve a intensa disputa por água e energia elétrica gerada pelos data centers, além da poluição e de transtornos atribuídos por moradores das regiões afetadas.

Em resposta ao descontentamento, corporações do setor tentam melhorar sua imagem pública. No decorrer do ano, empresas como OpenAI, Amazon e Microsoft anunciaram o fim de acordos sigilosos com governos para viabilizar novas instalações.

Ademais, mais de 200 companhias —incluindo gigantes como Google, Amazon e Microsoft— assinaram o “Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia”, iniciativa promovida pelo presidente Donald Trump. O pacto não possui efeito vinculante e tem como finalidade impedir que os custos elétricos decorrentes dos data centers sejam transferidos aos cidadãos comuns.

Especialistas e executivos do setor energético concordam que o sucesso ou fracasso desses empreendimentos dependerá diretamente da harmonia com as comunidades locais.

“Se você não consegue administrar esse relacionamento, se as comunidades não se beneficiam desses investimentos —se não se beneficiam de verdade—, você enfrentará oposição”, pontuou Jeff Gustavson, líder da divisão de novas energias da Chevron.

Visibilidade e o futuro da tecnologia

Historicamente mantidos em segredo, os complexos ganharam uma exposição inédita com a chegada da inteligência artificial.

“Em 2009… ninguém sabia o que era um data center”, declarou Adam Eaton, diretor-executivo da britânica Virtus Data Centres. “Os clientes queriam que fôssemos discretos, então fomos. Nossos prédios não tinham números nem logotipos… A IA realmente aumentou a visibilidade dos data centers no mercado. Cabe a nós, como setor, trabalhar mais para informar as comunidades.”

Alguns especialistas avaliam que a oposição aos prédios pode ser, na verdade, uma forma tangível de protesto contra os riscos mais amplos associados à IA, como o desemprego em massa e ameaças existenciais à humanidade.

“De certa forma, só podemos culpar a nós mesmos”, pontuou Verity Harding, diretora do Projeto de IA e Geopolítica da Universidade Cambridge e ex-chefe de políticas globais da DeepMind, do Google.

“Quanto aos data centers… sei que as pessoas têm preocupações reais com eles, mas será que é isso mesmo ou será que eles são apenas… a coisa concreta contra a qual se pode votar e que se pode impedir?”

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