Espelho da memória

Conceição Evaristo discute memória e literatura em podcast

Cultura

O 220º episódio do podcast 451 MHz traz uma conversa profunda com a renomada escritora mineira Conceição Evaristo, que celebra seus oitenta anos em 29 de novembro. Em entrevista à jornalista Adriana Ferreira Silva, a autora aborda a circulação de seus livros e a profunda conexão entre literatura, memória e as vivências da diáspora negra. A realização do episódio conta com o apoio da Lei Rouanet.

Reconhecida como uma das principais vozes da literatura nacional, a também professora e pesquisadora criou o conceito de escrevivência, que une escrita, memória e a vivência coletiva de mulheres negras. Recentemente, ela lançou o Box Conceição Evaristo pelas editoras Malê e Pallas, reunindo seus principais romances, contos, poemas e uma coletânea de entrevistas organizada por Henrique Marques Samyn e Vagner Amaro.

Homenagens e tradição literária

Prestes a atingir a oitenta primaveras, a autora tem sido alvo de diversas honrarias, incluindo a coletânea A gente combinamos de escrever (Malê), que traz dez contos inspirados em seu universo literário. Na conversa, ela destaca que os autores convidados — como Calila das Mercês, Cuti, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz e Estevão Ribeiro — são antigos conhecidos.

Para Evaristo, a produção de outros escritores negros fomenta “uma vertente ou uma tradição dentro da literatura brasileira”, formando uma literatura coletiva. Ao falar sobre as releituras de sua obra, ela reforça que a literatura precisa abrir caminhos para novas ficções: “O texto literário, para mim, faz sentido se o final for aberto.”

A autora também foi homenageada pelo Império Serrano para o Carnaval de 2026, destacando a liberdade encontrada nas manifestações das classes populares. “É um local muito característico das classes populares, onde as classes populares podem exercer uma liberdade — uma liberdade da festa, uma liberdade do poder dizer, uma liberdade de construção do discurso”, analisa. Ela conclui: “a minha literatura é um louvor à liberdade, é a luta pela liberdade”.

Conexões diaspóricas e escrevivência

Questionada sobre rótulos da literatura negra contemporânea, como afrofuturismo e feminismo negro, Evaristo aponta que nenhum termo isolado abrange tanta diversidade. No entanto, ela enxerga pontes entre autores de diferentes países devido à memória da escravização, aproximando-se de nomes como a americana Toni Morrison, a cubana Teresa Cárdenas e o martinicano Édouard Glissant.

“Gosto muito de pensar que a África foi a nossa Pasárgada”, declara, recordando uma viagem marcante a São Tomé e Príncipe. “Passaram-se séculos, mas África e diáspora têm alguma coisa, um liame ainda, cujo nome eu não saberia dizer.”

Sobre a escrevivência e o tempo espiralar — conceito de Leda Maria Martins —, a mineira pontua que, enquanto a escrevivência foca na ficcionalização de experiências compartilhadas evitando “escritas narcísicas”, o tempo espiralar evoca um “tempo contínuo” onde “nosso futuro já foi sonhado por nossos ancestrais”. Sobre a própria escrita, ela afirma: “não escolhi ser escritora; eu escolhi escrever”, deixando o título a cargo do público.

Próximos passos e projetos futuros

Olhando para o futuro, Evaristo prepara o livro de poemas O gozo e seus movimentos, tratando de sexo e desejo de forma sutil. Para 2027, planeja finalizar o romance Flores de mulungu e dedicar-se às obras O silencioso pranto dos homens e Em nome di mãe, este último baseado em registros de sua mãe, morta aos 99 anos vítima da Covid-19. “Minha mãe só fez a passagem quando perdeu o tesão pela vida. Como eu gosto de viver, quero seguir o exemplo”, confessa.

O programa ainda traz o escritor Alberto Mussa no quadro Livro Marcador, compartilhando memórias sobre as leituras clássicas do pai e o primeiro contato com a literatura policial por meio de Agatha Christie.

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