Diz uma velha provocação carioca que a melhor vista em Niterói é a do Rio de Janeiro, do outro lado da Baía de Guanabara. Quem repete a piada provavelmente nunca leu Marcello Quintanilha.
Poucos artistas desenharam Niterói tantas vezes — e de tantas maneiras — quanto o quadrinista nascido na cidade. Estão em seus livros as praias, as ruas, os bairros, a arquitetura e, sobretudo, o mar. Há a Niterói de hoje e aquela que já não existe; a cidade observada da calçada e a que se vê de dentro da barca, atravessando a baía. Algumas das melhores vistas de Niterói talvez estejam, justamente, nas páginas que Quintanilha desenhou.
Radicado em Barcelona, o artista fluminense atravessou recentemente o Atlântico para divulgar dois lançamentos pela Veneta: uma nova edição de Luzes de Niterói (lançado em 2018) e o inédito Eldorado. Os livros compartilham a geografia, personagens e uma história familiar. No centro de ambos está o pai do autor, Hélcio Quintanilha, jogador de futebol cuja carreira foi interrompida precocemente.
Se em Luzes de Niterói Quintanilha já havia transformado episódios da vida do pai em ficção, Eldorado volta ao mesmo universo, recua no tempo e avança para além dos acontecimentos do livro anterior. Em conversa com a Quatro Cinco Um, o quadrinista diz que não foi uma decisão consciente retornar à história do pai, morto em 2021. Para ele, talvez a premissa esteja errada: a história nunca foi embora. “Essa história sempre esteve presente”, diz. “Às vezes você tem que encontrar o momento em que vai ser capaz de realizar determinada história.”
Cronologicamente, Eldorado começa antes de Luzes de Niterói, enquanto parte dos acontecimentos do livro anterior fica no meio dessa linha temporal. Quintanilha gosta da disposição embaralhada, mas faz questão de que os dois possam existir separadamente. Para ilustrar esse recurso, cita François Truffaut e o personagem Antoine Doinel, que protagoniza diferentes filmes do diretor francês sem transformá-los em capítulos de uma única narrativa. Há a mesma peculiaridade nos livros: o personagem recorrente é seu pai.
Hélcio gostava de se ver desenhado, conta o filho, e os livros chegaram a ajudá-lo a se reconectar com um universo do qual havia se afastado. A relação da família com o futebol tinha sido marcada pelo trauma. A carreira de Hélcio terminou cedo e deixou, além da frustração, sequelas físicas de uma época em que a prática profissional do esporte estava longe do grau de acompanhamento que existe hoje.
O desenhista não suaviza essas marcas ao transpor o pai às páginas. Também não elimina momentos em que Hélcio pode parecer agressivo, irritadiço ou pouco generoso. “Eu não julgo os personagens. Eu não julgo as atitudes do meu pai. Nunca estive na pele dele. Não senti a quantidade de dor que ele sentiu.” É dessa recusa ao julgamento que Quintanilha extrai a liberdade para trabalhar com a história de pessoas próximas.
Mesmo quando parte de acontecimentos reais, ele não considera que esteja simplesmente reproduzindo uma biografia. Luzes de Niterói e Eldorado mesclam fatos e ficção. A coerência que interessa ao autor é outra: a psicologia dos personagens. “Os personagens são quem decide os rumos que a história vai tomar.”
As chanchadas e a oralidade
Essa preocupação talvez ajude a explicar outra marca reconhecível dos quadrinhos de Quintanilha: a fala. Mais do que reproduzir gírias ou registrar uma época, ele procura construir, para cada personagem, uma maneira própria de existir através da língua.
Em Eldorado, isso significa escrever personagens de um Brasil anterior ao seu nascimento. Quintanilha não precisou realizar uma pesquisa linguística específica para o livro. O interesse pelas transformações do português vem de antes. Uma de suas fontes são as antigas chanchadas brasileiras. “As chanchadas são um documento histórico ao qual nunca deveríamos ter dado as costas”, afirma. Para ele, os filmes registram não só uma maneira de falar, mas comportamentos, relações interpessoais e tensões políticas de uma época.
Outro interesse é Artur Azevedo e o teatro de revista. O contato com textos antigos permite reconhecer sobrevivências inesperadas: expressões que continuam circulando mais de um século depois. Enquanto tecnologias, modismos e novas gírias modificam continuamente o português, construções antigas permanecem escondidas na conversa cotidiana. “Você só é capaz de ter essa percepção se está familiarizado com os registros da oralidade escritos naquela época.”
A fidelidade que procura, no entanto, não é documental. Seus personagens criam palavras, sons e expressões que jamais existiram fora da página. “Deixo que os personagens inventem sua própria forma de falar — inventem sons, inventem palavras, se for necessário, expressões, a maneira como vão se colocar no mundo.” O problema se coloca depois, aos tradutores.
Publicada em diferentes línguas, a obra de Quintanilha exige negociação constante com os responsáveis pelas versões estrangeiras. Ele explica circunstâncias históricas, o percurso dos personagens e por que determinada palavra aparece, oferecendo subsídios para que o tradutor encontre uma solução dentro de outro universo linguístico.
Para o quadrinista, esse processo está mais próximo da reescritura do que da tradução. Muitas vezes, não há correspondência. Traduzir exige compreender não apenas uma palavra, mas “a dinâmica que levou essa palavra a ser inserida naquela frase”, para depois reconstruí-la em outra língua.
Se a oralidade cria uma continuidade entre os livros, a maioria publicada pela Veneta, o desenho gera o efeito inverso. A aparência deles muda radicalmente — não por fases ou experimentos estilísticos escolhidos de antemão, diz Quintanilha, mas por imposição da própria narrativa. “A história determina a maneira como vai ser contada.”
Talco de vidro (2015) não poderia ser desenhado como Tungstênio (2014). Já Escuta, formosa Márcia (2021) exigiu que aprendesse uma nova maneira de trabalhar e construísse uma paleta de cores que não correspondesse necessariamente às dos objetos no mundo real. Começar um livro assim significa ainda não saber fazê-lo. “Faz parte do processo de investigação. Muitas vezes não tenho controle sobre uma técnica específica. Tenho que aprender a trabalhar com ela.”
A escolha dos materiais segue a mesma lógica. Luzes de Niterói e Eldorado têm colorização digital, enquanto outros livros recorrem ao grafite e ao guache. Quintanilha diz gostar de materiais “muito prosaicos”. O grafite, por exemplo, como em Alimenta estes olhos (2022), pode servir para recuperar a aparência litográfica da ilustração de imprensa do século 19.
Fotografias e filmes alimentam o repertório, mas o autor insiste que não se trata de uma pesquisa iniciada especialmente para cada livro. É uma atenção cultivada ao longo do tempo. Mesmo em bairros profundamente transformados, diz, ainda é possível encontrar fragmentos da arquitetura do século 19, “resquícios desse outro mundo que permanecem ao nosso redor”.
A ligação com a Bahia e o futebol
A identificação de Quintanilha com Niterói nem sempre é imediata para quem o encontra. Seu sotaque já não entrega com tanta facilidade de onde ele vem, e há quem suponha que seja baiano. Não é o primeiro niteroiense a ganhar essa fama: Baby do Brasil nasceu do outro lado da Baía de Guanabara e passou boa parte da carreira cantando a Bahia. Com o quadrinista, a confusão encontra explicação na obra: a Bahia é uma geografia importante em seus quadrinhos. Quintanilha cresceu perto das praias de Niterói e, mais tarde, atravessava diariamente a Baía de Guanabara para trabalhar. Talvez por isso a água reapareça nos quadrinhos de tantas maneiras: menos como cenário do que como paisagem que conhece corporalmente. Essa familiaridade ressurgiu longe de Niterói. Quando visitou a Ilha de Itaparica, na Bahia, o quadrinista teve uma sensação imediata de reconhecimento. Cruzar aquelas águas não era o mesmo que atravessar o mar em direção ao Rio, mas havia algo de familiar na experiência.
A aproximação com a Bahia se deu de maneira mais sistemática quando ele foi convidado a produzir um livro sobre Salvador. Passou uma semana na região, caminhando, entrevistando moradores e ampliando a pesquisa para além da capital. Percebeu que seria difícil falar de Salvador sem conhecer também o Recôncavo. “Foi uma das experiências mais poderosas que já vivi. É como você se encontrar com você mesmo.”
A viagem continuou reverberando. Itaparica e o Recôncavo retornaram em outras histórias. Para Quintanilha, Salvador ocupa uma posição particularmente reveladora na formação cultural do país, comparável à do Rio de Janeiro: lugares onde diferentes elementos da experiência brasileira parecem ter se condensado com especial visibilidade.
Já o futebol não era exatamente uma herança celebrada na casa de Quintanilha. Após a experiência do pai, ele nunca se interessou em jogar. “O futebol nunca quis ser jogado por mim”, brinca. Houve, porém, um clube. Ele torcia para o Manufatora, time de Niterói no qual o pai foi zagueiro e que encerrou suas atividades em 1983. Depois disso, diz nunca ter se deixado seduzir.
Mais do que a paixão de torcedor, é a história social do futebol que ganha foco em Eldorado. O esporte chegou ao Brasil associado às elites e acabou apropriado pelas classes populares. Quintanilha faz, no entanto, uma ressalva a como essa história costuma ser contada. Durante boa parte do século 20, jogar futebol estava longe de oferecer a promessa de enriquecimento que hoje acompanha a carreira profissional. Mesmo os jogadores da seleção campeã mundial em 1958, lembra ele, não formaram uma geração enriquecida pelo esporte. Fora dos grandes clubes, a distância era ainda maior.
Por isso, o autor rejeita a leitura de que, em Eldorado, o futebol aparece simplesmente como uma alternativa de ascensão social, enquanto a criminalidade ofereceria outra saída para a falta de perspectiva. “O futebol não promovia ascensão social nessa época”, argumenta. “Ele promovia a reivindicação de uma condição de existência, de se colocar no mundo como alguém. Isso não é desprezível e é indissociável da construção da cultura de países.”
A preocupação com aquilo que permanece — no futebol, na língua, na arquitetura, nas paisagens — torna curiosa uma pergunta que Quintanilha escuta com frequência desde que passou a viver em Barcelona: como continuar escrevendo sobre o Brasil depois de tantos anos fora? “Eu nunca me senti desconectado do Brasil”, responde. “O Brasil que está nas minhas histórias é o que está comigo. É mais profundo que isso.”
Depois de retornar duas vezes ao pai, será que encerrou aquilo que desejava contar sobre a família? Quintanilha diz não fazer ideia. Tampouco considera as HQs recentes mais próximas de sua vida do que as outras. “Todas são próximas a mim, próximas ao meu entorno, à minha realidade, à vida que eu conheci.” A diferença talvez seja apenas o grau de reconhecimento.
Em Eldorado e Luzes de Niterói, o pai recebeu o próprio nome. Nas outras, pode estar espalhado entre personagens, ambientes, maneiras de falar e de olhar o mundo. Como a Niterói, a Bahia ou o Brasil que continua desenhando de Barcelona, algumas coisas não precisam ser nomeadas para permanecer na paisagem.
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