Apesar de ser amplamente reconhecida pela sociedade brasileira por abastecer a mesa da população e combater a penúria, a agricultura familiar ainda enfrenta barreiras severas para acessar ferramentas fundamentais que poderiam impulsionar sua produtividade e ganhos financeiros. Esse abismo entre o discurso de valorização e a realidade do campo se reflete na escassez de suporte efetivo aos produtores rurais.
Um reflexo claro dessa carência é o serviço de Ater (Assistência Técnica e Extensão Rural), que atualmente atinge somente uma fração reduzida das unidades produtivas familiares com menor faturamento. Mas o que explica essa lacuna persistente entre a importância do setor e o amparo real entregue a quem trabalha na terra?
Radiografia do setor produtivo O perfil da agricultura familiar brasileira é predominantemente de baixa renda. Dados levantados a partir do Censo Agropecuário de 2017 mostram que 7 em cada 10 desses estabelecimentos se encaixavam na faixa do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) voltada a núcleos familiares com faturamento bruto anual de até R$ 20 mil. Trata-se de brasileiros que cultivam tanto para a subsistência quanto para comercializar e alimentar o país.
Propiciar novas oportunidades produtivas para esse grupo é um caminho estratégico para elevar a qualidade de vida e assegurar uma oferta robusta de alimentos de boa qualidade.
O papel transformador da extensão rural A Ater funciona como uma ponte que leva conhecimento especializado diretamente para o campo, monitorando sua execução no dia a dia da propriedade. O técnico auxilia na identificação de deficiências no solo, na seleção de culturas adaptadas às condições climáticas, no manejo nutricional de criações e na gestão de custos e vendas. Essa vertente une o saber científico à sabedoria prática da família para otimizar os resultados locais.
O impacto desse suporte fica evidente quando analisados dados práticos. Uma avaliação do Projeto Dom Hélder Câmara II, direcionado a agricultores de baixa renda na região semiárida, apontou um crescimento estimado de cerca de 16% na receita agropecuária geral dos participantes em contraponto a núcleos parecidos que ficaram sem o benefício. Nos casos em que o suporte técnico veio acompanhado de verbas de fomento produtivo, o salto estimado chegou a 30%. Os dados comprovam a eficácia de unir orientação e capital de investimento.
Desafios de cobertura e eficiência Mesmo com tais benefícios comprovados, a assistência técnica ainda é um privilégio para poucos. Conforme o levantamento do Censo Agropecuário de 2017, menos de 10% das unidades familiares de menor renda do Pronaf contavam com esse tipo de suporte. A cobertura se mostra mais expressiva nas regiões Sul e Sudeste, ao passo que o Nordeste ainda sofre com índices bastante restritos de atendimento.
Além da expansão do serviço, é preciso avaliar a metodologia de entrega. Uma pesquisa conduzida por Josimar Gonçalves de Jesus e Carlos José Caetano Bacha, utilizando informações da Pnad de 2014, apontou impactos estimados superiores na assistência privada em relação à pública entre profissionais autônomos do campo. Na parcela de menor renda, o diferencial estimado frente à falta de suporte foi de perto de 56% para o modelo privado e de 17% para o estatal. Embora a comparação não isole unicamente o fator prestador como causa única, os dados oferecem bases valiosas para reformular e expandir a Ater.
O avanço da política pública Defender o setor agrícola familiar demanda ações práticas que ultrapassem os discursos formais, garantindo ferramentas para que os produtores cultivem melhor e elevem seus ganhos. Cabe aos programas governamentais financiar o suporte aos mais vulneráveis e escolher operadores com base na excelência e na entrega de resultados. Assegurar que essa orientação chegue a quem mais necessita é o caminho para transformar a realidade dessas famílias e conferir uma valorização concreta à categoria.
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