Contariando as previsões de parte do empresariado, a fase de testes da jornada de trabalho 5×2 já entrega resultados animadores em grandes companhias do país. A varejista C&A reportou queda no índice de ausências após aplicar o formato em 60 unidades. Paralelamente, o grupo supermercadista Savegnago observou ganhos de eficiência, maior contentamento entre os colaboradores e impacto neutro nas despesas, enquanto a busca por postos de trabalho disparou 120%, conforme dados da União Geral dos Trabalhadores (UGT).
No sistema 5×2, o colaborador labora cinco dias na semana e assegura dois dias de descanso, substituindo o tradicional modelo 6×1, que concede apenas uma folga semanal. Os reflexos positivos na C&A foram anunciados recentemente pelo presidente da corporação, Paulo Correa, durante a divulgação do balanço financeiro referente ao terceiro trimestre de 2026.
Além dessas companhias, gigantes dos setores farmacêutico e varejista — como Raia, Drogasil, Drogaria São Paulo e Drogaria Pacheco — já abandonaram a escala 6×1, cuja obrigatoriedade passa a valer oficialmente no país em dezembro. Outros conglomerados comerciais também expandiram os testes, gerando dados úteis para a reorganização de equipes e aprimoramento laboral.
Cronograma e regras oficiais
A escala 5×2, chancelada em outubro, entra em vigor em 15 de dezembro de 2026 em todo o território nacional. A transição foi assegurada por meio da Emenda Constitucional 141, promulgada pelo Congresso Nacional em 16 de outubro, com a participação do presidente Lula.
A partir dessa data, os empregados adquirem o direito a dois dias de descanso remunerado semanais. O teto da jornada também recua de 44 para 42 horas semanais, preservando os salários atuais. Uma segunda fase está programada para dezembro de 2027, quando o limite máximo de trabalho semanal cairá para 40 horas, igualmente sem supressão salarial.
A legislação estabelece diretrizes específicas para determinadas categorias e autoriza acordos coletivos com arranjos distintos para as folgas, desde que o descanso constitucional seja preservado. Terceirizados do setor público contarão com prazos diferenciados de adaptação.
C&A registra menos faltas dos funcionários
A C&A implementou o modelo 5×2 em aproximadamente 60 lojas, cerca de 18% das unidades da rede no país. “Estamos testando em 60 lojas e já vimos o absenteísmo cair”, afirmou Paulo Correa, presidente da empresa, em entrevista à revista Exame, publicada na sexta-feira (6). Absenteísmo é o nome dado às ausências dos funcionários no trabalho. A corporação ainda não quantificou o percentual exato da retração, mas avalia o cenário de forma otimizada.
A empresa também investe em ferramentas para distribuir melhor as tarefas e melhorar a produtividade. O principal desafio está nos domingos, quando os shopping centers recebem muitos consumidores e as equipes precisam manter o atendimento. A rede informou que a mudança pressiona os custos operacionais e ainda não estabeleceu uma data para expandir o modelo a todas as lojas.
Supermercado registra aumento de 120% na procura por empregos
A experiência do Grupo Savegnago, do interior paulista, teve início em novembro de 2025, quando a companhia precisava preencher 200 postos para a abertura de um supermercado em Indaiatuba. A empresa havia preenchido apenas metade das vagas e enfrentava dificuldades para atrair candidatos.
A saída encontrada foi testar a escala 5×2. A resposta foi imediata: a organização contratou 40 pessoas que já haviam participado das entrevistas e, na sequência, fechou as outras 60 vagas. O sucesso foi tão expressivo que a diretoria expandiu a iniciativa. Hoje, os 77 estabelecimentos das bandeiras Savegnago e Paulistão operam sob essa dinâmica.
Segundo levantamento divulgado pela União Geral dos Trabalhadores, a procura por vagas no grupo aumentou 120% após a adoção do modelo.
Funcionários mais satisfeitos e custos sem aumento
O presidente do grupo, Sebastião Edson Savegnago, conhecido como Chalim Savegnago, afirmou que os trabalhadores ficaram mais satisfeitos e a empresa conseguiu economizar em despesas como vale-transporte e alimentação. “O impacto no custo foi zero”, declarou ao UOL em entrevista publicada em 22 de outubro.
Em outra entrevista, à Folha de S.Paulo, Chalim também relatou aumento da produtividade sem prejuízo à lucratividade. Mas nem todos os indicadores melhoraram na mesma proporção. A rotatividade dos funcionários permaneceu em 4,8% ao mês, e a queda nas faltas foi de apenas um ponto percentual. A rede manteve, nesta primeira etapa, as 44 horas semanais de trabalho, mas passou a distribuí-las em cinco dias, com dois dias de descanso.
Outras grandes empresas também adotam a escala 5×2
A transformação já atinge múltiplos segmentos da economia brasileira:
* Raia e Drogasil (RD Saúde): eliminaram a escala 6×1 das lojas. * Drogaria São Paulo e Drogaria Pacheco (Grupo DPSP): também deixaram de utilizar a escala 6×1 nas unidades. * Grupo Plurix: mais de 50% dos funcionários já trabalham na escala 5×2 (dono de marcas como Amigão, Superpão e Avenida). * Sapore: cerca de 70% dos trabalhadores cumprem a escala 5×2 ou outras jornadas alternativas. * Burger King, Pague Menos e Magalu: informaram que planejam mudanças na organização das jornadas.
A adoção da escala 5×2 não pressupõe, por si só, corte na carga horária total. No caso do Savegnago, por exemplo, os empregados mantiveram a base de 44 horas semanais, reorganizadas em cinco dias de labor. O Brasil aprovou em outubro de 2026 a mudança constitucional que prevê o fim da escala 6×1 e a redução gradual da jornada semanal, sem diminuição dos salários. A implementação começa em dezembro, com uma etapa inicial de 42 horas por semana e previsão de redução posterior para 40 horas.
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