A crescente desconfiança em torno da sustentabilidade financeira da inteligência artificial provocou uma fuga global de capitais rumo à segurança dos títulos soberanos nesta quinta-feira (15). O movimento beneficiou diretamente as dívidas governamentais, com destaque para os papéis do Tesouro dos Estados Unidos, procurados por investidores que buscam proteção frente à volatilidade recente no setor de tecnologia.
Diante do apetite por portos seguros, o rendimento das notas do Tesouro norte-americano de dez anos recuou até 0,15 ponto percentual, alcançando a marca de 5,04%, o piso mais baixo em três semanas. Ao longo do dia, as taxas recuperaram parte das perdas e foram a 5,10%. Essa dinâmica de valorização dos papéis ocorreu a despeito da divulgação, na quarta-feira (14), de números de inflação nos EUA mais elevados do que o previsto — estatística que habitualmente forçaria a queda nos preços e o aumento nas taxas.
“Tivemos números de inflação significativamente acima das expectativas, mas o movimento de aversão ao risco se sobrepôs a tudo isso”, disse Ales Koutny, chefe de juros internacionais da Vanguard.
Reflexos nos mercados globais de dívida
A queda acentuada nos rendimentos também encontrou terreno fértil no desmonte de posições vendidas acumuladas contra as dívidas soberanas, movimento que vinha ocorrendo desde a eclosão do conflito no Irã, no encerramento de fevereiro. Na Europa, os bônus alemães de dez anos igualmente registraram valorização, apresentando uma retração de 0,06 ponto percentual nos rendimentos no término da tarde, para 3,41%.
“Bastaram alguns movimentos violentos em certos ativos de risco, e a consequente procura por portos seguros provocou oscilações desproporcionais, à medida que as pessoas zeravam suas posições vendidas”, disse Mike Riddell, gestor de fundos da Fidelity International.
O foco da apreensão dos agentes financeiros recai sobre o alto endividamento empregado na construção e na expansão de centros de dados. Há um receio generalizado de que os instrumentos de crédito que financiam essa infraestrutura estejam sinalizando um esgotamento para o ciclo de expansão econômica e corporativa em Wall Street.
Queda em cadeia nas gigantes de tecnologia
O pessimismo atingiu em cheio os principais índices acionários. No final da manhã em Nova York, o índice Nasdaq 100 recuava 0,5%, acumulando perdas após o tombo de 2% verificado na sessão anterior.
Entre as empresas do segmento, os fabricantes de chips de memória foram castigados: a Western Digital caiu 5%, enquanto a Sandisk registrou desvalorização de 3%. Outras companhias de peso também amargaram perdas expressivas, com a Nvidia recuando 2,1% e a Intel despencando 4,5%.
Para agravar o cenário, dados divulgados na quarta-feira apontaram que o faturamento da Anthropic, laboratório de IA, subiu próximo a 50% no terceiro trimestre, atingindo US$ 16,8 bilhões. Apesar do crescimento, o resultado indicou uma desaceleração no ritmo observado no começo do ano, desapontando parcelas do mercado.
“Os investidores estão apreensivos diante de qualquer notícia negativa que possa desencadear uma liquidação”, porque “o mercado está muito, muito concentrado em ações de tecnologia”, disse Marija Veitmane, chefe de estratégia de ações da State Street.
Veitmane acrescentou que “as preocupações com o crédito foram o estopim”. “No minuto em que surge alguma notícia negativa, a reação é: ‘vamos vender tudo’”, disse ela.
A fraqueza não se restringiu aos Estados Unidos. Na Ásia, as sul-coreanas SK Hynix e Samsung Electronics sofreram fortes perdas de 11,1% e 9,5%, respectivamente. No Japão, o índice Topix caiu 2,4%, acompanhado pela queda de 9,3% do SoftBank e pelo tombo de 12,3% da Kioxia. No continente europeu, as ações de tecnologia cederam 1,4%, impactadas pela fabricante holandesa ASML, que caiu mais de 4%.
Sinais de alerta no financiamento de infraestrutura
A viabilidade financeira do ecossistema de inteligência artificial já começa a acender alertas externos. O caso da CoreWeave, que atua no aluguel de infraestrutura de processamento para grandes corporações, ilustra esse cenário: o custo dos swaps de risco de crédito (CDS) de cinco anos da empresa ultrapassou 11 pontos percentuais esta semana. O dado evidencia que proteger US$ 100 em dívida da companhia já custa mais de US$ 11 ao ano.
As ações da CoreWeave fecharam em baixa de 2% nesta quinta-feira, elevando o declínio acumulado na semana para praticamente 20%, diante de dúvidas sobre a capacidade de sustentação de seus investimentos em capacidade computacional.
Hank Calenti, estrategista de mercados globais do SMBC, pontuou que o pessimismo decorre do modelo de negócio e da incerteza sobre a demanda por aluguel de acesso a semicondutores: “Esta é uma liquidação motivada pelo modelo de negócios”, disse Calenti. “Há temor sobre onde está a fragilidade no ecossistema.”
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