No debate público brasileiro, ressurge com frequência a tese simplista de que o vasto potencial do turismo nacional estaria travado apenas por deficiências de gestão e que a escolha de um líder vindo “do mercado”, munido de metas e indicadores empresariais, bastaria para multiplicar vagas de emprego e inflar o Produto Interno Bruto (PIB). Trata-se de um diagnóstico equivocado, pois enxerga o setor de forma isolada da realidade do país. O turismo é uma demanda derivada: as pessoas não decidem viajar pelo bom funcionamento de uma pasta ministerial, mas sim quando contam com renda, acesso a crédito, preços de passagens viáveis, câmbio favorável e a garantia de estarem em um destino seguro e receptivo — variáveis que fogem ao controle direto do Ministério do Turismo (MTur).
O equívoco das métricas e os gargalos reais
Um dos argumentos mais comuns sustenta que a participação do setor no PIB nacional é baixa quando comparada à média global. No entanto, fatias relativas no PIB não revelam eficiência gerencial. Países de dimensões continentais e economias diversificadas, que contam com forte presença do agronegócio, da indústria e de múltiplos serviços, naturalmente apresentam porcentagens menores dedicadas às viagens. Não por acaso, as nações onde o turismo mais pesa no PIB são pequenas ilhas, a exemplo de Maldivas, Vanuatu e Cabo Verde, que lideram tais levantamentos não por excelência administrativa, mas por falta de alternativas econômicas relevantes.
Da mesma forma, as carências estruturais mais cobradas nos destinos turísticos extrapolam as atribuições do ministério. A segurança pública é prerrogativa dos estados. A conservação da malha rodoviária, por onde transita a expressiva maioria das viagens domésticas, está sob a responsabilidade do Ministério dos Transportes e dos governos estaduais. Já os portos e aeroportos respondem a outra pasta específica.
Na aviação comercial, o encolhimento de rotas decorre de custos conhecidos: querosene de aviação precificado em dólar, elevado índice de judicialização sem equivalente internacional, carga tributária pesada e companhias que recentemente enfrentaram processos de recuperação judicial. Confrontar a média de voos por habitante do Brasil com a de nações como a Colômbia sem ponderar essas despesas estruturais é ignorar os verdadeiros fatores que limitam a expansão dos voos.
Dependência macroeconômica e apoio estatal
Também há inconsistência ao associar eventuais recordes no fluxo de visitantes externos unicamente às flutuações cambiais. Se a desvalorização da moeda é o que atrai viajantes, o turismo mostra-se subordinado aos rumos macroeconômicos, enfraquecendo a teoria de que o sucesso depende centralmente do gestor de plantão. No mercado doméstico, a classe média depende das taxas de juros para parcelar suas viagens e do nível de emprego muito mais do que de qualquer plano governamental do setor.
O caso da Argentina reforça esse cenário. Com os argentinos representando historicamente mais de um terço dos turistas internacionais no Brasil, oscilações no país vizinho causam impactos severos imediatos. Reduzir essa vulnerabilidade exige voos de longa distância, promoção externa ininterrupta e bases de dados consistentes sobre o perfil e os gastos dos visitantes — atribuições hoje geridas pela Embratur.
Além disso, contrariando o discurso de que a atividade se sustenta sem o poder público, o setor privado recebeu socorro bilionário e incentivos tributários expressivos em períodos recentes, por meio de iniciativas como o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) e o Fungetur (Fundo Geral de Turismo). Trata-se de uma relação de mútua dependência, e não de isolamento empresarial.
Política, governabilidade e projeção internacional
As constantes trocas no comando do MTur refletem o funcionamento do presidencialismo de coalizão, no qual a pasta atua como peça de articulação política partidária, com emendas do Congresso direcionadas a bases regionais sob a roupagem de iniciativas “inteligentes”. Esse cenário exige articulação parlamentar experiente, e não apenas modelos de gestão corporativa. Historicamente, a estruturação inicial da pasta foi consolidada pelo político Walfrido dos Mares Guia, e não por executivos corporativos. Soma-se a isso a fragmentação da classe empresarial, com dezenas de associações concorrendo por espaço, apesar da existência de entidades como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Por fim, a reputação internacional desempenha papel determinante. Fatores geopolíticos e de imagem pesam diretamente nas decisões de viagem: em 2025, os Estados Unidos registraram queda de 5,4% na chegada de visitantes estrangeiros em meio a tensões geopolíticas, gerando perdas estimadas em ao menos US$ 10 bilhões em receitas.
No caso brasileiro, episódios anteriores comprometeram severamente a divulgação do país no exterior. Em 2019, declarações contrárias ao turismo LGBTQIA+ somadas ao incentivo tácito ao turismo sexual geraram forte repercussão negativa, fechando portas para um segmento de alto poder aquisitivo. A crise ambiental provocada pelas queimadas amazônicas naquele mesmo ano e as respostas à pandemia arranharam a visibilidade nacional lá fora, prejuízos que publicidade alguma consegue reverter de imediato.
O Brasil reúne cultura, biodiversidade e escala para desenhar um turismo sustentável próprio, que evite problemas globais como superlotação e gentrificação. O desenvolvimento da atividade necessita, sim, de suporte estatal, mas ancorado em macroeconomia estável, malha logística funcional, segurança jurídica e preservação ambiental. O progresso do turismo é a consequência dessas bases, e não o ponto de partida.
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