A lentidão na análise e liberação de medicamentos importados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem gerado desespero e colocado em risco o tratamento de pacientes brasileiros em estado crítico. Casos que demandam intervenção médica urgente, como o preparo para transplantes de medula e o controle de tumores metastáticos, estão paralisados em razão de procedimentos alfandegários e sanitários que se arrastam há semanas.
O problema atinge diretamente o pequeno Lucas*, de 6 anos, diagnosticado com uma enfermidade autoimune rara. Ele aguarda a autorização sanitária para receber um composto importado, essencial no início da quimioterapia preparatória para um transplante de medula óssea. O produto desembarcou em território nacional em 18 de setembro, mas continua sob avaliação. Segundo a mãe do garoto, Kiara Ferreira, as solicitações de prioridade não surtiram efeito: “Não temos como pedir urgência em uma situação que já é urgente e envolve a vida de uma criança”.
O gargalo também compromete o tratamento da corretora de imóveis Andréa Baier, de 60 anos, que luta contra um melanoma avançado com metástases pulmonares e em linfonodos. Ela obteve na Justiça o direito à imunoterapia, e o fármaco chegou ao Brasil em agosto, mas ainda não foi liberado pelo órgão regulador. “Minha vida está em jogo”, relata a paciente.
Em situação semelhante, o aposentado Genauro Bastos, de 72 anos, está há mais de 40 dias desprovido do remédio que controla as manifestações de um tumor neuroendócrino com metástases hepáticas. Sua filha, Juliana, detalha que o pai sofre com náuseas, vômitos constantes e inanição. “O câncer não mata só meu pai, mas toda a família”, desabafa.
Fila de espera e resposta da agência
Os três relatos refletem uma crise mais ampla enfrentada por pacientes e especialistas da área de saúde. Desde setembro, o prazo de tramitação desses processos, que costumava ser concluído em até cinco dias úteis, saltou para semanas ou até mais de um mês.
Ao ser questionada, a Anvisa justificou que o crescimento no número de requerimentos nos últimos seis meses sobrecarregou a capacidade de processamento. O órgão informou que demandas de caráter emergencial recebem prioridade, embora destaque que “é preciso considerar a alta demanda”. Detalhes e justificativas específicas sobre os casos de Lucas, Baier e Bastos não foram enviados até a conclusão deste texto.
Risco iminente para o transplante de Lucas
Lucas é portador da síndrome Ipex, enfermidade autoimune rara que desencadeia fortes inflamações intestinais e sangramentos. Sem terapia imediata, o quadro pode progredir com severa desnutrição, desidratação crônica e falência de múltiplos órgãos. Diagnosticado aos 3 anos, o garoto não respondeu aos tratamentos convencionais.
Diante do agravamento, a transplantação de medula óssea passou a ser a única perspectiva de cura. Para viabilizar o procedimento, a família saiu do Espírito Santo e se instalou na capital paulista em julho. Mesmo com um doador internacional já localizado, a realização da cirurgia exige nove dias prévios de quimioterapia.
Essa etapa depende do fármaco Trecondi (treossulfano), não comercializado no país. O medicamento foi custeado pelo convênio médico e aterrissou no aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), no dia 18 de setembro, onde segue travado.
Kiara Ferreira já recorreu ao atendimento telefônico, chat e ouvidoria da Anvisa, sem sucesso. O medo da família é perder o agendamento do procedimento cirúrgico, atrelado à disponibilidade da pessoa doadora, sobretudo porque Lucas já enfrentou cerca de cinco internações desde julho. “Não podemos ficar escolhendo datas”, enfatiza a mãe.
Decisão judicial não impede retenção de imunoterapia
Residente em Pouso Alegre (MG), Andréa Baier soube do melanoma em dezembro de 2025, após notar a evolução de uma pinta que já havia invadido camadas profundas da pele. Devido às metástases nos pulmões e gânglios linfáticos, a cirurgia foi descartada.
A equipe médica prescreveu o Keytruda (pembrolizumabe), obtido por meio de uma ação contra o Estado de Minas Gerais. O produto aterrissou no Brasil em 13 de agosto e seguiu para a vigilância sanitária no dia 14, sem liberação até o momento. A defesa da paciente impetrou um mandado de segurança para tentar destravar o envio.
Para conter o avanço da doença, Baier realiza quimioterapia a cada 20 dias, tratamento que causa fraqueza e enjoos, sem garantia médica de estabilização. A imunoterapia segue como o padrão ideal. “Tudo que era para eu fazer, eu fiz”, diz a corretora, que custeou assistência jurídica e apresentou toda a papelada exigida. Ela ainda sustenta a neta de 6 anos e a mãe de 84 anos, que reside sozinha em São Paulo. “Se eu não tomar essa medicação, eu não vou muito em frente”, alerta.
Quatro meses de desabastecimento no interior de Alagoas
Em Boca da Mata (AL), Genauro Bastos lida com o diagnóstico de tumor neuroendócrino desde 2015, quando retirou uma lesão pancreática. Em 2017, a enfermidade retornou e atingiu o fígado. Desde aquela época, o controle da patologia depende do Sandostatin LAR (octreotida).
Diante de falhas no fornecimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a família recorreu à Defensoria Pública para assegurar o custeio estadual. Mesmo com a renovação da solicitação feita com antecedência pela filha, o idoso já soma quatro meses sem o tratamento.
O governo de Alagoas liberou a verba e a importadora FarmaAurora comprou o produto no exterior em 19 de agosto, desembarcando a carga no Brasil em 2 de setembro. A liberação, contudo, foi barrada por uma exigência da Anvisa quanto ao registro comercial da empresa no mercado interno.
Paulo Morais, gestor farmacêutico da FarmaAurora, contesta a cobrança e explica que a empresa realiza apenas intermediação e assessoria de importação direta para tratamentos de alto custo. A companhia recorreu à via judicial por meio de mandado de segurança.
Enquanto isso, Bastos perdeu cerca de cinco quilos, não consegue se alimentar adequadamente e sofre com náuseas e vômitos diários. “A cada dia que passa, a nossa esperança de melhorar a qualidade de vida e de segurá-lo por mais tempo aqui com a gente se dissipa”, lamenta Juliana.
*Nome fictício usado para preservar a identidade da criança.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
