Riscos invisíveis podem prejudicar recuperação e aumentar tempo na UTI

Riscos invisíveis em UTIs ameaçam recuperação de pacientes

Saúde

As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) são criadas para combater situações que colocam a vida em risco, mas o ambiente também abriga ameaças menos visíveis que podem surgir durante a internação hospitalar. Entre os problemas recorrentes estão a perda de força e a diminuição da massa muscular. Esses efeitos iniciam-se por múltiplos fatores, que vão desde o processo inflamatório gerado por infecções e outras patologias graves até o repouso prolongado e o uso de fármacos necessários para o tratamento, mas que acabam enfraquecendo o corpo humano.

A união entre o uso de certos medicamentos e a restrição de mobilidade também favorece o aparecimento de lesões por pressão, capazes de evoluir para úlceras e áreas necrosadas. Além disso, é comum que os pacientes enfrentem alterações no trânsito intestinal ou fiquem em jejum temporário, o que prejudica a oferta adequada de calorias e proteínas durante o período crítico.

O impacto cognitivo e as superbactérias Outro motivo de alerta são as alterações cognitivas provocadas pela gravidade do quadro inflamatório, pelas medicações, pelo histórico psicológico e pelo afastamento do ambiente familiar. O problema atinge principalmente idosos com doenças neurológicas prévias, que podem sofrer desequilíbrios no sono, agitação noturna, confusão e desorientação.

“Essas questões podem prolongar a recuperação, aumentar o tempo de internação na UTI e o tempo de ventilação mecânica, além de impactar a mortalidade dos pacientes e comprometer seu retorno às atividades da vida diária após a alta hospitalar”, explica a médica intensivista Amanda Pascoal Valle, coordenadora da UTI adulto do Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques de Carvalho – Vila Santa Catarina, em São Paulo, unidade pública gerida pelo Einstein Hospital Israelita.

As infecções hospitalares figuram entre as maiores ameaças na UTI, com destaque para as bactérias multirresistentes, conhecidas como superbactérias. Ao dar entrada no hospital, o paciente é exposto a germes, tornando-se altamente vulnerável devido a condições como o uso de cateteres ou tubos que rompem barreiras protetoras, além da imunossupressão causada por remédios ou pela própria gravidade da doença.

“É um paradoxo: o hospital, que é um lugar de cura, acaba sendo também um ambiente que pode perpetuar a doença, por reunir diferentes microrganismos, inclusive, alguns únicos, que não existem fora dele”, afirma o médico intensivista Adriano José Pereira, coordenador médico de Tele-UTI do Einstein. “Essas bactérias estão nas grades da cama, nos botões dos monitores, nas mãos da equipe e nos equipamentos de internação. Tudo pode servir de meio para que elas cheguem ao organismo humano, rompam nossas barreiras naturais e se propaguem em uma infecção.”

A resistência antimicrobiana Os antibióticos tradicionais não conseguem eliminar totalmente esses perigos. Ao atuarem, os medicamentos destroem microrganismos benéficos e, quando usados de maneira indiscriminada, estimulam a pressão de seleção: bactérias mais resistentes sobrevivem e se reproduzem, enquanto as vulneráveis morrem. Com o tempo, esse processo gera tratamentos menos eficazes.

“As bactérias têm uma capacidade impressionante e bastante sofisticada de resistir aos antibióticos. Elas conseguem produzir mecanismos de resistência com muito mais eficiência do que nós, seres humanos, conseguimos sintetizar novas moléculas”, avalia Pereira. “Por isso, esse problema não deve ser enfrentado olhando apenas para o antibiótico. Precisamos seguir medidas de segurança rígidas nas UTIs para controlar esses riscos.”

A resistência antimicrobiana (RAM) é uma realidade global. Dados publicados na Nature Communications em julho apontam que cerca de 27% dos pacientes internados em UTIs na Índia apresentaram infecções por Enterobacterales resistentes a carbapenêmicos, antibióticos de última linha. A genômica revelou alta presença de Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae. Já um estudo do consórcio Global Burden of Disease (GBD), divulgado em 2024 na revista The Lancet, indicou que cerca de 4,71 milhões de mortes entre 1990 e 2021 estiveram associadas à RAM, sendo 1,14 milhão diretamente atribuídas ao problema. As projeções apontam até 1,91 milhão de óbitos atribuíveis e 8,22 milhões associados para o ano de 2050, concentrados especialmente no sul da Ásia, na América Latina e no Caribe.

Protocolos de combate e prevenção Apesar da complexidade, hospitais que adotam ações coordenadas conseguem barrar essas ameaças. O Hospital Municipal Vila Santa Catarina, sem registrar infecções na UTI adulto há cerca de um ano, segue rigorosamente as diretrizes da Anvisa, do Ministério da Saúde e do Einstein.

Entre as práticas adotadas, o controle dos dispositivos médicos é fundamental. “No caso do cateter venoso central, avaliamos todos os dias se ele ainda é necessário e se as medicações administradas por ele poderiam ser infundidas por um acesso periférico menos invasivo”, observa Amanda Valle. “Também avaliamos regularmente a sedação do paciente, buscando deixá-la em um valor mínimo para tentar despertar a pessoa e retirá-la da ventilação mecânica o quanto antes, a fim de reduzir o tempo de exposição a esse risco.”

A higiene das mãos e o uso de máscaras por equipes de saúde e acompanhantes também impedem que microrganismos externos entrem no ambiente da UTI. Nesse cenário atua o projeto IMPACTO-MR, desenvolvido por seis hospitais brasileiros, incluindo o Einstein, por meio do Proadi-SUS, reunindo dados clínicos, epidemiológicos e ambientais.

Entre 2019 e 2022, análises do microbioma de superfícies nas UTIs revelaram contaminação em 25% das amostras de desinfetante coletadas. “Analisando as diferentes superfícies, encontramos contaminação em 25% das amostras de desinfetante coletadas. Ou seja, verificamos que o microrganismo consegue sobreviver mesmo em contato com o desinfetante, seja porque o produto estava muito diluído e/ou porque foi contaminado na manipulação (por exemplo, durante a utilização de baldes ou panos maciçamente contaminados)”, relata Adriano Pereira.

A partir desses dados, a iniciativa passou a testar novas tecnologias de desinfecção sem contato direto, como luz ultravioleta e peróxido de hidrogênio em aerossol, avaliando custos e impactos para viabilizar a incorporação dessas estratégias na rotina da saúde brasileira.

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