Na avenida Paulista, térreos ociosos e bancos viram cafés, livraria e novas atrações turísticas

Térreos da avenida Paulista viram cafés e atrações turísticas

Brasil

Antigas agências bancárias, saguões corporativos e áreas que antes passavam despercebidas por quem caminha pela avenida Paulista estão ganhando uma nova destinação. Reconhecida historicamente como o grande polo financeiro da capital paulista e, posteriormente, como eixo cultural, a via agora volta os olhos para o rés do chão. Os pavimentos térreos dos edifícios se transformaram em destinos turísticos, gastronômicos e de convivência, atraindo filas, registros para redes sociais e mantendo o fluxo ativo inclusive durante as noites e os fins de semana.

Entre as novidades mais recentes está a Tartarugas Ninja Pizzaria (Teenage Mutant Ninja Turtles Pizzeria), inaugurada em agosto. O estabelecimento ocupa o imóvel de uma antiga agência bancária e teve sua entrada ambientada com a temática da famosa animação dos anos 1980, fruto de uma parceria entre uma companhia nacional e a Paramount.

A poucos passos dali, um empreendimento erguido pela J.Safra Properties onde antes funcionava uma unidade bancária deu lugar a uma ampla praça de convivência que integra as mesas do Le Jazz Café e o fluxo de leitores da Livraria da Vila. Desde a inauguração do espaço, em dezembro, foram promovidas mais de 140 atividades culturais no local.

A ocupação criativa também alcança pontos sem histórico prévio de acesso ao público geral, a exemplo do Mug, cafeteria instalada de forma reservada atrás da recepção de uma torre corporativa. A tendência ainda devolve uso a endereços vazios há anos: o imóvel do antigo banco Panamericano passou por retrofit há dois anos e abriga hoje um hotel e o restaurante Jardan, cuja marquise reformulada oferece uma varanda voltada para a avenida. Já o edifício do Citibank, que nos anos 1980 abrigava o restaurante Pennsylvania antes de convertê-lo em dependências bancárias, reativou a convivência externa em 2023 com a instalação da cafeteria We Coffee.

Contraste com outras regiões da capital

A intensa procura pelos térreos da Paulista destoa do desempenho das fachadas ativas em outros pontos da cidade, modelo incentivado pelas diretrizes do Plano Diretor de 2014. Conforme levantamento elaborado pelo escritório Campagner para a Associação Comercial de São Paulo, a vacância desses espaços atingiu patamares elevados em 2025, chegando a 63% na avenida Rebouças e a 80% em trechos selecionados da Vila Mariana.

De acordo com Ricardo Palmaka, CEO da Lidra — empresa focada em fachadas ativas — e docente na Fundação Instituto de Administração (FIA), a via funciona como uma exceção mercadológica e opera quase como um “showroom”. “Todo mundo quer estar na Paulista”, pontua o especialista, justificando que a grande circulação diária de pedestres em variados turnos estimula o interesse comercial.

A pesquisadora de comércio urbano e professora aposentada da FAU-USP, Heliana Comin Vargas, pondera que o sucesso desses pontos depende diretamente do volume de demanda e da adaptabilidade arquitetônica, como a infraestrutura necessária para cozinhas. Além disso, a digitalização dos serviços financeiros nos últimos anos — com retração de 37% nas agências físicas no país em uma década — acelerou a reorganização predial. “As agências vão perdendo o sentido. O banco pode ficar em cima e abrir o térreo”, destaca a urbanista.

A integração pioneira desse modelo ocorreu em 2021, quando o Banco do Brasil e a Casa Bauducco passaram a dividir o mesmo piso térreo no cruzamento com a rua Augusta. Em manifestação sobre a iniciativa, a instituição financeira classificou a reformulação como uma “evolução” no acolhimento ao público e na convivência com a cidade: “Mais do que ocupar um endereço de referência, o banco busca participar ativamente da dinâmica de uma avenida que se reinventou ao longo do tempo”.

Destino de lazer e convivência

A vocação para reunir múltiplos perfis de visitantes tem orientado novos investimentos. O fundador e CEO da Fan&Food, Fernando Saad, ressalta que a escolha da avenida foi pensada desde o princípio para a pizzaria temática e servirá de sede para uma nova operação licenciada em 2027, também em um imóvel de origem bancária. “É um público muito maior, que está ali pra passear, comer, ver arte, ir no parque, todo esse ecossistema.”

Essa dinâmica de permanência é confirmada pela diretora-executiva da Livraria da Vila, Eliana Menegucci, ao avaliar o uso do pátio para descanso, leituras ou atrações como batalhas de rima. “Funciona como uma pausa, um lugar para as pessoas aproveitarem sem pressa. Complementa a experiência.”

Na mesma linha, Ricardo Avancini, head de gestão de serviços imobiliários do Citi, destaca a adequação do edifício com a We Coffee. “A avenida Paulista e seu entorno vêm se transformando de forma veloz, trazendo modernização e ainda mais cultura para a região, reforçando que a nossa decisão em permanecer foi assertiva”, complementa.

Guia de funcionamento

Casa Bauducco Endereço: Av. Paulista, 2.163 Horário: Segunda a sexta-feira, das 8h às 20h; sábado e domingo, das 8h às 19h

Jardan Endereço: Av. Paulista, 2.240 Horário: Segunda-feira a sábado, das 6h às 3h; domingo, das 6h à 0h

Le Jazz Café Endereço: Av. Paulista, 1.063 Horário: Segunda a sexta-feira, das 8h às 22h; sábado, das 9h às 22h; domingo, das 9h às 20h

Livraria da Vila Endereço: Av. Paulista, 1.063 Horário: Segunda-feira a sábado, das 9h às 22h; domingo, das 10h às 20h

Mug Endereço: Av. Paulista, 1.079 Horário: Diariamente, das 8h às 20h

Tartarugas Ninja Pizzaria Endereço: Av. Paulista, 967 Horário: Domingo a quinta-feira, das 12h às 22h; sexta-feira e sábado, das 12h à 0h

We Coffee Endereço: Av. Paulista, 1.111 Horário: Diariamente, das 7h às 22h

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