A fama de Curitiba como um modelo de limpeza e planejamento urbano não surgiu de maneira espontânea. Essa identidade consolidada começou a ser construída há décadas, quando o poder público decidiu enxergar as novas gerações como as verdadeiras protagonistas da transformação coletiva.
O arquiteto Jaime Lerner, reconhecido mundialmente no urbanismo, governou o Paraná por duas vezes e foi prefeito da capital paranaense em três mandatos. Seu legado, revisitado em encontros mensais abertos ao público no Instituto Jaime Lerner, comprova que a infância desempenhou papel decisivo na concretização de seus projetos mais audaciosos.
Protagonismo infantil no espaço público
Em maio de 1972, Lerner determinou o bloqueio da Rua XV de Novembro para criar o primeiro calçadão exclusivo para pedestres do país. Diante da resistência e dos protestos iminentes dos comerciantes, as obras foram executadas em um único final de semana. Assim que a intervenção foi concluída, crianças — filhas de funcionários e conhecidos — foram chamadas para ocupar a via com brincadeiras. A presença infantil desarmou qualquer tentativa de confronto, consolidando o espaço que hoje serve de inspiração para várias cidades e permanece ocupado pelos pequenos aos domingos.
Anos mais tarde, em 1989, surgiu o programa Lixo que Não é Lixo. Com o aterro sanitário prestes a esgotar sua capacidade em um período em que reciclagem quase não era discutida, a prefeitura evitou focar apenas na repressão aos adultos. A saída foi investir no ambiente escolar: surgiram os personagens da Família Folhas, criados pelo cartunista Ziraldo, acompanhados de uma canção marcante cujo refrão ensinava a soletrar SE-PA-RE. A estratégia transformou os estudantes em multiplicadores da causa ecológica e fiscais do descarte doméstico, fixando o hábito na rotina curitibana por mais de três décadas.
O papel das novas gerações no urbanismo moderno
Essa experiência histórica levanta um debate essencial para o desenvolvimento urbano contemporâneo: qual é o espaço dedicado aos mais jovens nos empreendimentos atuais? O princípio difundido por Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, resume bem essa dinâmica ao apontar que um ambiente urbano adequado para os pequenos é positivo para a sociedade inteira.
No setor da construção civil, isso exige ir além de simplesmente reservar uma área para brinquedoteca. É necessário avaliar a conectividade do térreo com a calçada, a segurança nos trajetos a pé e a interação do morador mirim com o entorno, evitando que ele cresça isolado atrás de muros altos.
Para as empresas de intermediação imobiliária, a reflexão atinge a construção de marca a longo prazo. Embora a busca por potenciais compradores imediatos seja a prioridade comercial da maioria, raras empresas constroem valor para quem fechará negócios daqui a 15 ou 20 anos. Um exemplo pontual dessa abordagem é visto na Imobiliária Pantera, de Santo André, que criou a mascote Terinha para gerar identificação com as famílias.
O peso da família nas decisões de compra
O impacto do público jovem também é imediato e palpável nas negociações de imóveis. Levantamentos do DataZAP revelam que 65% das pessoas que procuram uma nova moradia possuem filhos. Além disso, transições no núcleo familiar — como matrimônio, nascimento de bebês ou separações — impulsionam mais de 50% dos contatos comerciais qualificados. Critérios como proximidade de colégios, itens de lazer, quantidade de dormitórios e segurança pesam diretamente no fechamento dos contratos.
A estrutura desses lares também passou por mudanças expressivas nos últimos anos. Dados do IBGE apontam que, em 2024, a guarda compartilhada em divórcios judiciais chegou a 44,6%, superando pela primeira vez a guarda atribuída unicamente à mãe, que registrou 42,6% — um contraste expressivo frente aos 7,5% apurados em 2014.
Essa nova configuração demanda residências preparadas para receber os jovens em ambientes alternados, acomodando inclusive os filhos de novos relacionamentos em arranjos mais dinâmicos. Até mesmo a Família Folhas de Curitiba se adaptou a essa realidade em sua reformulação de 2022, incorporando uma mãe solo ao grupo.
A mensagem ecológica iniciada nos anos 1980 continua viva na memória de diferentes gerações. Em tempos de celebração da infância, o setor corporativo e os planejadores de cidades enfrentam o desafio de projetar legados duradouros que ainda façam sentido daqui a 30 anos.
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