Contadoras de histórias

Tradição oral do Marajó vira obra infantil de Isabella Miranda

Cultura

A prática de repassar causos e memórias de geração em geração ganha novas páginas com o lançamento de Anete e o peixinho Bambo (Companhia das Letrinhas), estreia da escritora paraense Isabella Miranda no universo infantojuvenil. Muito além de lendas ou folclore tradicional, as narrativas preservadas por sua família na ilha do Marajó assumem o centro do enredo como uma rica herança ancestral que agora se abre para aproximar jovens leitores da cultura amazônica.

Das redes marajoaras para as páginas impressas

A faísca inicial para transformar a tradição oral em publicação surgiu durante um momento cotidiano de férias no Pará, quando Isabella escutava relatos contados por sua mãe enquanto descansavam em uma rede. Ao perceber que os causos ganhavam uma roupagem diferente sempre que pedia registros formais em áudio, a autora decidiu agir por impulso: “vou gravar escondido e guardar o áudio; quando estiver com saudade, escuto”.

Ao retornar a São Paulo, onde vive há cinco anos, ela compartilhou a gravação com um amigo após assistirem a uma peça teatral. A resposta foi direta: “acho que você tem que publicar isso”. Diante dos preconceitos e visões distorcidas que costumam cercar o Marajó fora do Norte, Isabella hesitou, mas encontrou estímulo adicional na escritora Amara Moira, sua ex-companheira na época, para dar forma aos primeiros rascunhos.

Seguindo orientações de colegas do meio literário, a autora definiu a estrutura da narrativa. Amara sugeriu: “acho que você tem que colocar a sua avó como a narradora do livro”. A partir daí, a história familiar ganhou forma com a figura materna, ainda menina, dividindo o protagonismo com o próprio Lago Arari.

Identidade e representatividade amazônica

A construção da personagem principal carrega uma dimensão de reparação histórica. Durante o evento de lançamento, a mãe de Isabella relatou que, na infância, seu único contato com livros vinha de doações das filhas da patroa, nos quais garotas negras nunca tinham espaço de destaque. A obra nasce, assim, para que meninas de Cachoeira do Arari e de todo o país encontrem um espelho positivo de suas próprias existências.

Essa valorização das raízes locais também orientou a parte visual do projeto. As ilustrações foram confiadas a Michelle Cunha, artista e muralista radicada em Soure, que reproduziu elementos autênticos do cotidiano marajoara, como tiaras de fuxico e vestidos de retalhos. Para a autora, a conquista do livro também celebra referências culturais como a tia Dedé, mestra de artesanato e culinária, além de mestres do carimbó e da dança local.

O desafio da voz e da imaginação

Em elaboração desde 2024, a transposição da oralidade para o texto exigiu atenção minuciosa para conservar o ritmo cênico e a expressividade dos contadores da família. A firmeza das narrativas originais também foi preservada: mesmo quando os netos se emocionavam com desfechos difíceis, a avó sustentava a realidade do enredo afirmando que “não, isso aconteceu sim”. A autenticidade levantou dúvidas sobre o enquadramento do livro, prontamente sanadas pela editora com o veredito de que “é um livro infantil”.

Para Isabella, a circulação de narrativas nortistas cumpre o mesmo papel transformador que a literatura exerceu em sua própria vida. Quando criança, ao visitar a biblioteca pública de Cachoeira do Arari, ela conheceu a escultura Hermafrodita adormecido, exposta no Museu do Louvre, por meio de uma publicação ilustrada. Anos depois, ao visitar Paris e ver a obra de perto, a sensação foi de reencontro imediato: “não sei francês, mas sei o que está escrito nesta placa porque lembro desde quando tinha doze anos”.

A expectativa da escritora é permitir que crianças de outras regiões vivenciem sensação semelhante ao entrarem em contato com a Amazônia, reconhecendo as paisagens, os igarapés, as casas e as lendas através dos olhos de quem nasceu e viveu essa realidade.

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