Como o Mounjaro está mudando o mundo

Como as canetas de GLP-1 revolucionam a saúde e a economia

Curiosidades

A ascensão de medicamentos como Ozempic e Mounjaro instaurou uma transformação médica e socioeconômica de proporções globais. Criada originalmente para controlar o diabetes tipo 2 — condição crônica que acomete mais de 800 milhões de indivíduos no planeta —, a classe de drogas conhecida como agonistas ou análogos de GLP-1 tornou-se a ferramenta mais eficaz já desenvolvida pela medicina contra a obesidade, desencadeando um fenômeno que reverbera muito além dos consultórios.

Nos Estados Unidos, estima-se que 15% dos adultos (mais de 40 milhões de cidadãos) já tenham feito uso desses fármacos. Esse avanço coincidiu com a inédita redução na taxa de obesidade adulta no país em décadas, caindo de 42% para 40%. No Brasil, embora os registros oficiais do Ministério da Saúde apontem 750 mil usuários, a realidade reflete números mais expressivos: um levantamento do Instituto Locomotiva revelou que 62% dos brasileiros conhecem quem utiliza ou utilizou as chamadas canetas emagrecedoras, e um terço dos entrevistados convive com um usuário no próprio domicílio.

O acesso tende a se expandir com o fim da patente da semaglutida, o surgimento de cópias nacionais mais acessíveis e a promessa política do governo federal de avaliar sua inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS). Por outro lado, a alta procura alimenta um mercado paralelo arriscado de fórmulas manipuladas e remédios contrabandeados do Paraguai sem a chancela da Anvisa, além do uso sem acompanhamento profissional para fins estéticos.

Da peçonha do lagarto ao topo da indústria

A trajetória dessa revolução farmacológica começou nos desertos da América do Norte. Em 1992, pesquisadores identificaram na saliva do monstro-de-gila — réptil vagaroso que pode atingir 50 centímetros e possui mordida altamente tóxica — a molécula exendina-4. O peptídeo se assemelhava ao GLP-1 humano, hormônio intestinal regulador da glicose. Ao constatarem que a substância reduzia o açúcar no sangue de roedores, cientistas se uniram às farmacêuticas Amylin e Eli Lilly para conceber a exenatida, lançada em 2005.

O organismo humano preserva características de nossos ancestrais caçadores-coletores, programado para estocar gordura em períodos de fartura para resistir à escassez. Hoje, 2,6 bilhões de adultos convivem com sobrepeso e 940 milhões enfrentam a obesidade (uma em cada sete pessoas). Os números dobraram desde 1990 e quadruplicaram entre adolescentes. Até recentemente, intervenções com dinitrofenol, hormônios tireoidianos ou anfetamínicos mostravam-se perigosas ou pouco eficazes, restando à cirurgia bariátrica e à sibutramina os papéis centrais.

As canetas trouxeram uma virada biológica. O GLP-1 natural, liberado pelas células L do intestino após a alimentação, estimula a insulina, retarda o esvaziamento do estômago e avisa o cérebro que o corpo está satisfeito. No entanto, ele é neutralizado pela enzima DPP4 em menos de 30 minutos. As versões sintéticas superaram essa barreira estrutural e, com o acréscimo de ácidos graxos que se unem à albumina no sangue, passaram a durar dias.

A semaglutida (presente no Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Ozivy), desenvolvida pela Novo Nordisk, tem ação semanal e promoveu perdas ponderais de cerca de 15% em estudos. A Eli Lilly elevou o patamar com a tirzepatida (Mounjaro), um agonista duplo que atua nos receptores de GLP-1 e GIP, alcançando até 20% de perda de peso. Já a retatrutida, agonista triplo que mira também o glucagon e aguarda aprovação, registrou perda superior a 25% do peso corporal em 68 semanas.

Sobre a rápida assimilação da tecnologia, Bruno Geloneze, endocrinologista e professor da Unicamp, pontua: “Eles são disruptivos justamente porque imitam o caminho que a natureza já inventou”.

Além da balança: investigações clínicas e benefícios múltiplos

Conforme o uso se proliferou, a comunidade médica notou repercussões favoráveis que vão além do emagrecimento puro. Atualmente, a semaglutida já possui respaldo e indicação clínica para atenuar o risco de infartos e AVCs em cardiopatas com sobrepeso, tratar doença renal crônica em pacientes com diabetes e conter a esteato-hepatite. A tirzepatida, por sua vez, demonstrou eficiência contra a apneia obstrutiva do sono em pessoas com obesidade.

“Começou com a endocrinologia e com a metabologia. Agora, parece que todas as especialidades médicas estão estudando isso”, diz Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

Pesquisas apontam que os efeitos anti-inflamatórios das moléculas ocorrem de maneira precoce, por vezes antes de haver redução substancial de medidas. A National Psoriasis Foundation divulgou uma revisão demonstrando quedas de 40% a 80% na severidade da psoríase entre usuários, embora ressalte a necessidade de ensaios mais amplos. Também surgem avanços na contenção de dores articulares decorrentes da osteoartrite no joelho, bem como investigações preliminares para enxaqueca e endometriose.

No campo comportamental, o abrandamento do “ruído mental” por comida parece se estender a outras compulsões. Um levantamento com mais de 600 mil diabéticos em uso de agonistas de GLP-1, frente a pacientes tratados com inibidores de SGLT-2, constatou índices menores de consumo problemático de álcool, tabaco, maconha e cocaína, representando sete dependentes a menos por mil indivíduos e uma redução de 12 incidentes críticos (como overdoses) ao longo de três anos.

Em contrapartida, a ciência impõe cautela. Embora análises populacionais associem as drogas a menores taxas de tumores, metástases e demência, ensaios clínicos rigorosos podem desmentir hipóteses. Foi o que ocorreu no teste da Novo Nordisk com a semaglutida oral contra o Alzheimer, que não demonstrou capacidade de frear a degeneração cognitiva.

Desafios clínicos e abalos no mercado

Apesar do entusiasmo, os medicamentos não estão isentos de contraindicações e efeitos adversos, como náuseas, vômitos, diarreia e desconforto abdominal. Há também a perda involuntária de massa muscular e óssea decorrente do déficit nutricional, o que pode causar queda capilar e exige suporte alimentar adequado.

Outro dilema central é a manutenção dos resultados. Evidências científicas atestam que a maior parte dos pacientes volta a recuperar peso após suspender as injeções. Como a obesidade é uma enfermidade crônica, discute-se se a aplicação deverá ser vitalícia ou se protocolos graduais de desmame poderão ser viabilizados.

Para Bruno Geloneze, a solução dos problemas de peso não virá apenas de ampolas: “Privação do sono, vício em tela, alimentos ultraprocessados, automação, menos atividade física. Tudo isso causa obesidade”.

Enquanto novas opções de dosagens mensais e moléculas quádruplas são formuladas, os desdobramentos atingem a economia em cheio. A Eli Lilly superou o valor de US$ 1 trilhão de mercado, tornando-se a 15ª companhia mais valiosa do planeta e ultrapassando instituições financeiras como o JPMorgan Chase e conglomerados industriais como a Intel. Ao mesmo tempo, o setor alimentício e de restaurantes começa a sentir reflexos no consumo de ultraprocessados e porções convencionais, desenhando um novo paradigma para a saúde e os hábitos globais.

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