Familiar em muitos armários de remédios para combater o jet lag ou ajudar a dormir, a melatonina agora desperta o interesse de laboratórios ao redor do planeta como um possível adjuvante da quimioterapia contra o glioblastoma, um dos tipos de câncer mais temidos da atualidade.
O glioblastoma se destaca como o tumor cerebral maligno primário mais frequente em adultos e um dos mais desafiadores de tratar. Diferente de uma bolinha de gude que pode ser removida facilmente, ele se assemelha às raízes de uma erva daninha. Ao crescer, infiltra-se entre os neurônios e espalha ramificações microscópicas pelo tecido saudável, fazendo com que restem células escondidas mesmo após a cirurgia realizada pelo neurocirurgião.
Para combatê-las, o protocolo pós-cirúrgico inclui radioterapia e o uso da temozolomida em cápsulas, medicamento que se tornou o pilar do tratamento após um grande estudo clínico demonstrar sua eficácia em 2005. Contudo, a recidiva — o retorno do tumor — costuma acontecer mais cedo ou mais tarde.
Como atua a temozolomida e a defesa do tumor
O DNA funciona como um manual de instruções consultado pelas células para se dividirem. A temozolomida age borrando palavras-chave desse manual com tinta, impedindo a cópia e levando a célula à morte caso os borrões sejam muitos.
Apesar disso, muitas células tumorais contam com a proteína O6-metilguanina-ADN metiltransferase (MGMT), um corretor próprio capaz de apagar as manchas mais nocivas. O benefício da quimioterapia costuma ser maior quando o gene dessa proteína está silenciado, mas se perde em boa parte quando ele está ativo.
Além disso, o tumor não forma um exército uniforme. Ele abriga células com propriedades de células-tronco, capazes de se autorrenovar e gerar novas ramificações resistentes ao tratamento, regenerando o câncer como uma brasa que reacende um fogo. Essa diversidade justifica a busca por combinações terapêuticas que dificultem as respostas de sobrevivência das células tumorais e tornem a quimioterapia mais eficaz, abrindo espaço para a melatonina.
A atuação da melatonina no organismo e nas células cancerígenas
Produzida pelo cérebro ao anoitecer para indicar a hora de descansar, a melatonina atua simultaneamente na inflamação, nas defesas do organismo e na gestão de energia celular. Seu comportamento varia: enquanto age como um escudo contra o dano oxidativo em células saudáveis, em algumas células tumorais ela perturba a produção de energia.
Um estudo com células de glioblastoma de pacientes demonstrou que a substância alterou a regulação metabólica e a produção energética, levando-as à morte. Outros trabalhos apontam que ela também modifica a comunicação do tumor com o sistema imune. As células cancerígenas vivem no limite, consumindo muita energia rapidamente e dependendo de equilíbrios frágeis, de modo que um impulso tolerado por uma célula saudável pode desestabilizar um tumor.
Testes em laboratório e o desafio da dosagem
Combinar ambas as moléculas baseia-se em uma lógica simples: enquanto a temozolomida danifica o “manual de instruções” reprodutivo do tumor, a melatonina dificulta sua defesa e recuperação, atacando simultaneamente o prédio e a equipe de manutenção.
Em 2005, um estudo comprovou em culturas de células de glioblastoma que o efeito conjunto superava a simples soma isolada de cada substância, suprimindo sinais de sobrevivência e inflamação e ativando a autodestruição. A melatonina também conteve o crescimento tumoral em camundongos, embora esses tumores estivessem implantados sob a pele dos animais, e não no cérebro, que conta com uma barreira protetora contra várias substâncias. Um estudo de 2018 ainda apontou que ela tornou resquícios com propriedades de células-tronco mais sensíveis à temozolomida, embora com variação entre modelos experimentais.
Tratar um tumor cerebral exige preservar a memória, o ânimo e a vida plena, áreas afetadas pela quimioterapia. Nesse cenário, camundongos sem tumor tratados com temozolomida e melatonina apresentaram prevenção de comportamentos depressivos e atenuação de alterações na formação de neurônios, sem evitar a ansiedade. No entanto, proteger o tecido saudável não assegura a proteção do tumor, sendo necessário comprovar o efeito em humanos.
A tentação de consumir a melatonina de farmácia esbarra em três razões fundamentais: 1. A dose: os experimentos utilizam concentrações centenas de milhares de vezes maiores do que o corpo produz naturalmente à noite, e desconhece-se a segurança ou eficácia de um comprimido dentro de um tumor cerebral. 2. A falta de dados humanos: o principal estudo clínico ocorreu em 1996 com apenas 30 pacientes, mostrando maior sobrevida após um ano em quem recebeu melatonina com radioterapia, mas trata-se de um grupo pequeno, anterior à temozolomida e que não responde às dúvidas atuais. 3. Efeitos colaterais: adicionar substâncias a tratamentos oncológicos pode gerar efeitos inesperados; portanto, pacientes não devem consumir o hormônio sem consultar a equipe médica nem substituir as terapias prescritas.
Do laboratório ao consultório
A melatonina não representa uma falsa esperança, mas sim uma excelente ideia que enfrenta seu teste mais rigoroso. O próximo passo envolve ensaios clínicos para determinar doses seguras, verificar a chegada da substância ao tumor e comparar o tratamento padrão com e sem o hormônio, avaliando também a qualidade de vida, o estado de ânimo e a memória dos pacientes.
Contudo, o financiamento enfrenta um obstáculo comercial: por ser uma molécula barata e sem patente, faltam incentivos financeiros corporativos, tornando a pesquisa independente e financiada por recursos públicos imprescindível. Talvez no futuro o hormônio do sono também ajude a quimioterapia a ser mais eficiente, algo que exigirá pacientes, rigor, tempo e validação além das placas de cultura celular.
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