A promessa de alívio para transtornos mentais por meio de terapias psicodélicas enfrenta uma barreira cada vez mais concreta: a mercantilização e os altos custos decorrentes de patentes farmacêuticas. Em um cenário global marcado pelo aumento de casos de adoecimento psíquico, a perspectiva de tratamentos monopolizados pelo setor privado ameaça afastar os pacientes do acesso regulamentado, empurrando pessoas vulneráveis para a automedicação e práticas informais de risco.
O modelo corporativo da psilocibina
Nos Estados Unidos, o avanço biomédico mais iminente nessa área é o COMP360, desenvolvido pela Compass Pathways. A empresa planeja submeter o pedido de registro sanitário ainda neste ano, com a expectativa de iniciar as vendas no primeiro semestre de 2027.
O medicamento consiste em uma formulação patenteada da psilocibina, o composto ativo presente nos cogumelos do gênero Psilocybe. Apresentada à medicina ocidental há sete décadas a partir de saberes tradicionais do povo Mazateco, no México, a substância de ocorrência natural e uso ancestral agora é alvo de direitos de propriedade intelectual voltados à maximização de lucros por aplicação.
Estimativas do setor apontam que a empresa pretende precificar a terapia em patamares equivalentes aos do Spravato (escetamina inalável, da Janssen). No mercado norte-americano, isso representa entre US$ 17 mil e US$ 22 mil ao ano (aproximadamente R$ 85 mil a R$ 110 mil) — quantia distante do alcance de grande parte da população, inclusive dos 27 milhões de cidadãos (8,2% dos norte-americanos) que não dispõem de cobertura médica privada.
A viabilidade do COMP360 ainda depende da aprovação pela Food and Drug Administration (FDA) e de subsequentes acordos de reembolso com seguradoras. Outro entrave reside na exclusão da psicoterapia do protocolo pretendido pela farmacêutica, contrariando o consenso de especialistas médicos que recomendam o acompanhamento profissional durante a administração.
Custos astronômicos no cenário brasileiro
Caso o mesmo modelo seja replicado no Brasil, as terapias psicodélicas podem atingir cifras ainda mais impeditivas. Atualmente, o spray de escetamina — substância derivada de um anestésico comum e de baixo custo de produção — é comercializado no país entre R$ 6.000 e R$ 10 mil por dose, montante que desconsidera as taxas das clínicas e honorários da equipe médica.
Pacientes com depressão severa e ideação suicida costumam iniciar o tratamento com duas aplicações semanais, passando posteriormente para regimes semanais ou quinzenais. A conta anual pode facilmente variar de R$ 180 mil a R$ 280 mil. Esse volume de recursos equivale a um período entre 9 e 13 anos inteiros de trabalho para quem recebe um salário mínimo, sem incluir o monitoramento clínico durante a experiência nem o suporte psicoterapêutico contínuo.
O abismo da depressão resistente no Brasil
O impacto dessa barreira financeira atinge diretamente um contingente enorme de indivíduos. O Brasil contabiliza entre 12 milhões e 16 milhões de pessoas diagnosticadas com depressão. Estima-se que ao menos um terço desse total sofra da forma resistente a tratamento, quadro no qual o paciente não responde a pelo menos dois antidepressivos convencionais distintos. São de 4 a 5 milhões de pessoas sem perspectiva eficaz de melhora sob as opções terapêuticas tradicionais.
A lentidão regulatória e a falta de investimentos públicos no setor contrastam com o patrimônio etnobotânico brasileiro. O país possui tradição centenária no uso de substâncias como a N,N-dimetiltriptamina (DMT), presente na ayahuasca e na jurema-preta, cujos estudos preliminares apontam resultados promissores no combate a quadros depressivos graves. Apesar das evidências científicas e da urgência em saúde pública, o tema ainda carece da prioridade necessária por parte de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde para viabilizar alternativas acessíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
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