O ‘manual de segurança’ para encontros por aplicativos de relacionamento

Apps de namoro: como se proteger de golpes e da violência

Tecnologia

O que deveria ser apenas a busca por um novo amor ou uma conversa agradável tem se tornado um processo exaustivo e cercado de precauções para milhares de brasileiros. Diante do aumento de casos de violência física, estelionato sentimental e extorsão, usuários de plataformas de paquera vêm adotando rotinas minuciosas de checagem prévia antes de aceitar qualquer convite presencial.

A comunicadora catarinense Iara Rodrigues*, de 26 anos, reflete bem esse cenário. Embora use as ferramentas para ampliar o círculo social, ela impõe barreiras estritas aos pretendentes: “Quando percebo que a conversa no aplicativo está indo para a sugestão de um encontro presencial, levo a pessoa para outra rede social, normalmente o Instagram. Acho o WhatsApp muito íntimo. É como se fossem etapas”, relata.

O ritual de Iara inclui pesquisas no Google e no LinkedIn, escolha de roupas discretas, locomoção que não permita identificar a placa de seu veículo e a preferência por locais movimentados, como food halls conhecidos. “Falando dessa forma, penso que até que pode parecer paranoia. Porém, todo cuidado ainda é pouco. Escolho até a roupa no sentido de não ser algo muito ‘uau’. É horrível, mas é como se todos os passos até chegar ali fossem para dar o mínimo de brecha possível para algo ruim acontecer. É cansativo”, confidencia.

Tensão contínua e realidade alarmante

A psicanalista Lívia Boaretto, que estuda a violência contra a mulher, aponta que o primeiro encontro virou uma fonte sistemática de estresse. “Como uma mulher pode ir para um relacionamento amoroso, que deveria ser algo leve e bacana, quando o primeiro encontro já se transformou em estresse? Acabamos tendo de nos resguardar tanto que nos fechamos para outras relações. Inevitavelmente, isso nos leva a ficar mais sozinhas”, analisa.

Ela pondera que essa apreensão se apoia em fatos concretos: “Nem todos os homens são iguais, mas eles precisam entender que há algo muito sério acontecendo. Em 2025, registramos o recorde de décadas em feminicídios, com milhares de mulheres mortas por homens”, alerta. Conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país somou 1.571 feminicídios no ano passado, o maior patamar desde a tipificação do crime em 2015, com alta de 4% em relação aos 1.504 registros de 2024.

Perigo multiplicado para a comunidade LGBTQIA+

Os perigos não atingem unicamente mulheres heterossexuais, que lidam com frequência com táticas de manipulação como o love bombing (exagero de carinho para gerar dependência emocional) e estelionato. Entre pessoas com deficiência (PcDs), indivíduos negros e o público LGBTQIA+, os riscos ganham contornos de crimes de ódio e agressões severas.

A delegada Tatiana Bastos, da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, detalha o padrão criminoso identificado em investigações recentes: “Na delegacia de combate à intolerância, realizamos a Operação Moedor, focada em crimes cometidos no Grindr. Registramos casos de extorsão, o golpe do ‘Boa Noite Cinderela’, lesão corporal grave, invasão de residências e espancamentos. A vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ e o medo do estigma social fazem com que esses grupos virem alvos frequentes de criminosos que usam o anonimato digital”, pontua.

O pesquisador João Vitor Alcantara, de 26 anos, residente em Santo André (SP), também aplica suas próprias regras antes de sair com alguém: “O Instagram me dá a oportunidade de ver se aquela pessoa realmente existe e como é a vivência dela. Se alguém me passa apenas o WhatsApp, evito ir direto para a casa da pessoa. Para encontros casuais, exijo saber se ela tem amigos em comum ou uma rede de apoio. Se a pessoa tem um bom convívio com a comunidade, a tendência é ser tranquila. É a minha forma de traçar um perfil para me sentir seguro”.

Ele relata que um conhecido foi vítima de chantagem após ter momentos íntimos filmados sem autorização durante um encontro. “Ele pensou muitas vezes em não ir à polícia devido ao estigma de ser uma pessoa LGBT e por estar exposto em uma situação muito íntima. Nós o orientamos a buscar a delegacia presencialmente para detalhar a chantagem. Ele fez o Boletim de Ocorrência e conseguiu a proteção necessária, mas é o tipo de caso que assusta a todos nós”, afirma. Mesmo em locais públicos, a apreensão continua: “Existe uma ansiedade constante na comunidade. Durante o encontro em um local público, observo o ambiente antes de segurar a mão ou dar um beijo. Preciso avaliar se estou seguro e se o parceiro se sente confortável. Isso afeta a qualidade do encontro, porque deixa de ser apenas sobre nós dois e passa a ser sobre como a sociedade nos olha”, desabafa.

Cartilha de segurança: do digital ao presencial

Especialistas em direito digital e segurança pública reuniram medidas essenciais para prevenir incidentes graves:

Na fase virtual: – Atenção ao excesso de urgência e afeto: Golpistas usam declarações desmedidas logo no início. Encerre o papo se surgirem histórias dramáticas ou pedidos de auxílio financeiro. – Inverta as perguntas: Faça indagações sobre parentes, trabalho e rotina. Criminosos costumam desistir quando perdem a direção do diálogo. – Checagem de imagem e perfis: Empregue ferramentas como Google Lens para confirmar se as fotos pertencem à pessoa. Suspeite de perfis sem amigos em comum, sem interações reais ou sem rotina aparente. – Não abra links suspeitos: Links desconhecidos podem carregar programas espiões. Jamais informe detalhes como data de nascimento e endereço da empresa onde atua. – Evite envio de nudes: A criação não autorizada de mídias por Inteligência Artificial é penalizada pela legislação atual (art. 147-B do Código Penal e Lei 15.487/2026 no ECA), mas conter vazamentos em apps de mensagens é quase inviável.

No encontro pessoal: – Ambiente público: Dê preferência a shopping centers, restaurantes conhecidos e praças de alimentação movimentadas. – Autonomia no deslocamento: Não aceite caronas na ida ou na volta. Fuja de locais isolados, imóveis do pretendente ou hospedagens alugadas temporariamente. – Código de socorro: Envie a rota ao vivo para amigos e combine um sinal ou palavra-chave para avisar sobre emergências. Aprenda o Signal for Help (gesto com o polegar recolhido) para alertar atendentes. – Cuidado com o copo: Mantenha a bebida sempre à vista para evitar adulteração com substâncias dopantes. – Discrição em redes sociais: Nunca publique postagens em tempo real indicando seu paradeiro exato.

O debate sobre a consulta de antecedentes

Ferramentas digitais que vasculham a ficha de pretendentes a partir de contatos ou do Pix geram controvérsias legais. De acordo com a professora Rubia Ferrão: “Para a pessoa física que realiza a pesquisa para fins estritamente particulares e não comerciais, a LGPD não se aplica. Quando a consulta é feita por plataformas privadas, elas costumam se fundamentar no legítimo interesse para proteger a integridade de mulheres e vulneráveis”.

Contudo, a advogada Gisele Truzzi e a secretária de Políticas para a Mulher de São Paulo, Adriana Liporoni, destacam os limites dessas buscas: – Lacunas nas plataformas: Ferramentas particulares cobrem apenas sentenças definitivas (com trânsito em julgado). Inquéritos policiais em andamento e medidas protetivas não aparecem por correrem sob sigilo. – Direito ao esquecimento: O artigo 202 da Lei de Execução Penal estipula sigilo de registros após a extinção da pena, abrindo margem para reparações por danos morais caso haja exposição indevida. – Responsabilidade coletiva: Adriana Liporoni ressalta: “A preocupação das mulheres em consultar antecedentes é legítima, mas não podemos naturalizar a ideia de que a mulher deve assumir sozinha a responsabilidade pela sua segurança. A segurança pública é dever do Estado”.

Como buscar ajuda

Em ocorrências de crimes, registre provas com capturas de tela contendo o link completo do perfil ou o número de telefone envolvido, sem excluir as conversas.

Para atendimento imediato ou denúncias: – 190 (Polícia Militar): Em caso de risco iminente (em SP, o canal oferece o atendimento especializado Caixa Lilás). – Disque 180: Central nacional de acolhimento e suporte a mulheres. – Aplicativos públicos: Softwares como o “SP Mulher Segura” trazem Botão do Pânico para quem detém medidas judiciais protetivas e registro online de ocorrências. – Delegacias Especializadas: Unidades da Mulher ou de Crimes de Intolerância/Cibernéticos possibilitam pedidos emergenciais rápidos de intervenção policial.

O nome de Iara Rodrigues foi alterado a pedido da personagem para preservar sua privacidade.*

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