Cerca de três em cada dez trabalhadores com carteira assinada no Brasil atuavam sob o regime de seis dias de serviço para um dia de folga. Em dezembro de 2025, o contingente na escala 6×1 atingia 14,8 milhões de pessoas, o que correspondia a 29,9% dos 49,5 milhões de vínculos formais ativos no país. O levantamento foi feito pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, a partir de dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
O tamanho dessa população laboral ganha destaque imediato com a promulgação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo Congresso Nacional nesta sexta-feira (16). A medida, considerada uma das principais bandeiras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na busca pela reeleição, determina a extinção da 6×1, embora certos segmentos possam manter regras especiais.
Para dimensionar o impacto, o volume de 14,8 milhões de contratados nessa modalidade supera a população de todo o estado do Paraná ou os habitantes da capital paulista, ambos com cerca de 11,9 milhões de pessoas.
Apesar da magnitude do número, Imaizumi ressalta que o mercado de trabalho nacional é ainda mais amplo, somando mais de 100 milhões de pessoas ocupadas. Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o país totalizava 103,5 milhões de trabalhadores até o trimestre encerrado em agosto, universo que abrange trabalhadores informais, autônomos, servidores públicos, empregadores e auxiliares familiares não remunerados.
Setores mais afetados e o peso no comércio
A aplicação da escala 6×1 apresenta disparidades expressivas a depender do segmento econômico, concentrando-se com mais força no setor de turismo. No fechamento de 2025, o regime englobava a maioria dos trabalhadores registrados no transporte aéreo (53,2%) e no ramo de alojamento (52%). No extremo oposto, a área de eletricidade e gás registrava apenas 11,8% nessa condição.
“Os efeitos são complexos e heterogêneos. É difícil conseguir homogeneizar uma situação que é bem diferente entre os setores”, afirma Imaizumi.
O economista detalha os reflexos práticos em atividades com alto grau de formalização: “Transporte aéreo, por exemplo, é um setor bastante formalizado. Provavelmente, terá mais emprego para compensar as horas trabalhadas a menos e, consequentemente, repasse para os preços. É mais emprego e mais inflação”, acrescenta.
No recorte por porte de empresa, as microempresas (34,5%) e os pequenos negócios (36,2%) apresentaram proporcionalmente mais contratos em regime 6×1 do que os estabelecimentos de médio e grande porte (32,9%). Entretanto, em termos numéricos absolutos, as médias e grandes companhias concentravam a maior fatia, somando 7,9 milhões de postos.
Regras de transição e redução de horas
Aprovada pelo parlamento, a PEC estabelece a adoção da escala 5×2, garantindo dois dias semanais de descanso remunerado aos empregados sem qualquer corte salarial. Além da reformulação dos dias úteis, o texto traz um plano gradual para a redução da carga horária máxima semanal, atualmente de 44 horas.
A transição começará a ter validade 60 dias após a promulgação e a publicação da nova emenda constitucional, momento em que o limite será fixado em 42 horas por semana. Decorridos 12 meses desse primeiro marco, o teto cairá em definitivo para 40 horas semanais.
Contrato versus realidade do mercado
Avaliar a extensão exata do impacto da nova regra na rotina laboral exige ponderar a distância entre o que consta formalmente nos contratos e a prática diária. Conforme os registros da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do MTE, 73,8% dos trabalhadores formais possuíam contratos prevendo entre 41 e 44 horas por semana em 2025.
Contudo, os levantamentos do IBGE referentes ao primeiro trimestre de 2026 apontaram que apenas 35,8% de fato cumpriam essa jornada nas empresas. O grupo mais expressivo, representando 39% do total, realizava jornadas efetivas de 31 a 40 horas.
“A mensagem principal é a discrepância entre o que está no contrato e o que está sendo efetivamente trabalhado”, diz Imaizumi. Diante desse cenário de horas reais menores no cotidiano, o especialista conclui: “Boa parte desses trabalhadores não trabalha, mesmo com o contrato, 44 horas. Então, os efeitos [do fim da 6×1] tendem a ser menores.”
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