A decisão de trocar o apoio à democracia da Ucrânia por diesel russo coloca o presidente Donald Trump no capítulo da história reservado aos líderes que traíram os valores de sua própria nação para apaziguar um ditador. A postura evoca a figura de Neville Chamberlain (1869-1940), fazendo com que, no futuro, as fotos de ambos apareçam lado a lado em pesquisas sobre figuras vistas como traidoras dos princípios fundamentais de seus países. Enquanto Chamberlain tentava evitar uma guerra mundial, Trump busca evitar a perda de cadeiras no Congresso nas eleições de meio de mandato, sem maiores perspectivas de sucesso real.
O problema central não reside em laços com Vladimir Putin, mas na falta de apreço pela democracia em detrimento do dinheiro. Desesperado para conter a alta nos preços do diesel que prejudica o Partido Republicano, Trump fechou um acordo para importar o combustível da Rússia. A medida concede ao Kremlin lucros extraordinários para intensificar os bombardeios contra a Ucrânia, contribuindo pouco ou nada para aliviar o mercado interno americano. Além disso, assessores exigiram que Kiev interrompesse ataques a refinarias russas, sem impor o mesmo critério a Putin em relação à infraestrutura energética ucraniana.
A ruptura com a tradição diplomática americana é destacada por Michael Mandelbaum, professor emérito da Universidade Johns Hopkins. Segundo ele, os EUA sempre integraram a defesa de valores liberais à sua política externa, e nenhum presidente havia rompido totalmente com essa diretriz. Para os ucranianos que resistem há quase cinco anos, a mudança foi drástica. Vitali Sich, editor-chefe do jornal A Nova Voz da Ucrânia, resumiu a situação em mensagem enviada de Kiev: “Quando Donald Trump se tornou presidente, a Ucrânia perdeu um aliado.”
Sich apontou que, inicialmente visto como um suposto intermediário, o líder americano passou a adotar a retórica do Kremlin. “E agora ele está abertamente do lado do Kremlin, pressionando pela submissão da Ucrânia e chamando isso de acordo de paz”, disse Sich. “Se a Ucrânia ataca uma refinaria de petróleo na Rússia, sempre aparece uma publicação indignada do presidente dos EUA no Truth Social. Será que agora ele é o porta-voz do Kremlin?” Ele acrescentou: “Os russos estão nos matando como se estivéssemos em um estande de tiro. Da Casa Branca, não vem nenhuma manifestação de preocupação com isso, apenas com o diesel russo. É uma combinação de falência intelectual e moral afirmar que não queremos a paz. É claro que queremos a paz. Mas não queremos uma desistência embalada como paz.”
O contraste político interno também chama atenção. No passado, figuras como o senador republicano Tom Cotton pressionavam duramente o governo de Joe Biden por mais ajuda militar à Ucrânia. Em 16 de setembro de 2023, The Hill publicou que um grupo de senadores republicanos enviou uma carta ao então presidente instando o fornecimento imediato de mísseis. Na ocasião, Cotton argumentou que a demora “apenas prolongaria a guerra e custaria vidas”, contando com o apoio de Roger Wicker, Susan Collins e Lindsey Graham para o envio dos Sistemas de Mísseis Táticos do Exército MGM-140 (ATACMS).
Contudo, diante do acordo recente de Trump, um grupo bipartidário de 12 senadores enviou uma exigência para que o presidente revogasse a medida e cancelasse a autorização do Tesouro. Cotton, atual presidente do Comitê de Inteligência do Senado, optou por não assinar o documento. A manobra também recai sobre negociadores como Steve Witkoff e Jared Kushner, cujas atuações futuras e legados históricos também serão julgados pela conivência com a atual política externa.
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