O ritmo da economia chinesa aumentou durante o terceiro trimestre, impulsionado por uma expansão acelerada das exportações estimuladas pelo avanço da inteligência artificial, o que ajudou a compensar a retração nos investimentos e nos gastos do varejo.
O Produto Interno Bruto registrou alta de 4,5% nos três meses encerrados em setembro, em comparação com o mesmo período do ano anterior, superando a estimativa mediana de 4,4% apontada por especialistas consultados pela Bloomberg. O indicador ficou acima dos 4,3% reportados no trimestre anterior, patamar que havia sido um dos mais baixos dos últimos anos.
No acumulado dos primeiros nove meses do ano até setembro, a alta econômica atingiu 4,6%, conforme divulgado pelo Departamento Nacional de Estatísticas nesta segunda-feira (19), sustentada pelo dinamismo do primeiro trimestre. A meta oficial do governo chinês para o indicador ao longo do ano permanece fixada entre 4,5% e 5%.
“Isso provavelmente manterá a meta de crescimento do ano ao alcance”, afirmou Lynn Song, economista-chefe para a Grande China do ING.
Mao Shengyong, vice-diretor do NBS, pontuou que, embora o resultado do terceiro trimestre figure entre os menores patamares da China em décadas — desconsiderando a fase aguda da pandemia de Covid-19 —, ele ainda representa um dos desempenhos mais robustos entre as principais potências globais.
O dirigente pontuou que o resultado foi alcançado mesmo diante de um cenário internacional “complexo e em constante mudança” e de uma “demanda interna insuficiente”. “A base para um desempenho econômico estável e em melhora ainda precisa ser consolidada”, admitiu.
Crescimento em duas velocidades e atritos comerciais
A administração do país asiático gerencia atualmente uma economia dividida em dois ritmos distintos: enquanto o avanço da inteligência artificial, o setor manufatureiro e os investimentos em alta tecnologia alavancam as exportações, a prolongada crise imobiliária deprime o consumo interno. As vendas externas registraram alta de 36% no mês passado, em dólares, na base de comparação anual. Contudo, a ampliação acelerada do superávit comercial — com projeção de ultrapassar o patamar recorde de US$ 1,2 trilhão (R$ 6,09 trilhões) alcançado no ano anterior — vem provocando atritos comerciais, com destaque para a relação com a União Europeia.
Durante este mês, Pequim e Bruxelas chegaram a um entendimento para fixar uma cota voltada às importações de veículos híbridos fabricados na China para o mercado europeu, contornando um potencial conflito comercial de grandes proporções. Mesmo assim, analistas preveem que a UE adote novas barreiras de salvaguarda para blindar sua cadeia industrial e postos de trabalho frente à concorrência de produtos chineses mais baratos.
No setor industrial, a produção local manteve a trajetória de crescimento em setembro, avançando 5,5% frente ao mesmo período do ano passado, resultado em consonância com as projeções do mercado e superior aos 5,2% anotados em agosto.
Já o varejo, considerado um termômetro essencial para o consumo das famílias, apresentou alta de 1,1% no mês passado na comparação anual, superando o desempenho de 0,4% verificado em agosto e a expectativa consensual de analistas, que apontava para um incremento de 0,5%.
Segundo Song, do ING, o avanço nas vendas do varejo acima das estimativas decorreu, em parte, da alta na comercialização de “aparelhos de comunicação”, a exemplo de smartphones e outros eletrônicos contemplados por subsídios estatais.
Desafios no setor imobiliário e foco na oferta
Diante desse cenário, lideranças governamentais assumiram o compromisso de intensificar medidas para alavancar a demanda interna, visto que a crise no setor de imóveis, atualmente em seu quinto ano, comprometeu a confiança dos consumidores.
No recorte de setembro, os valores de moradias novas em 70 centros urbanos recuaram 0,14% frente ao mês imediatamente anterior, descontados os imóveis que contam com subsídio do Estado. O dado apontou uma leve recuperação em relação à queda de 0,17% reportada em agosto ante julho, de acordo com os registros oficiais do NBS.
“A principal mensagem macroeconômica é que a economia chinesa continua sendo impulsionada pelo lado da oferta e da produção”, comentou Yuhan Zhang, economista principal do Centro para a China do Conference Board.
“Isso sustenta o crescimento no curto prazo e a modernização industrial, enquanto esforços contínuos para fortalecer o consumo das famílias, a demanda por serviços e a confiança do consumidor tornariam a recuperação mais equilibrada e sustentável”, avaliou.
A especialista acrescentou que as estatísticas de investimentos revelam a dependência crescente da economia em relação ao conceito definido pelo governo como “novas forças produtivas”, com ênfase na atividade industrial avançada.
“A fabricação de equipamentos e as indústrias de alta tecnologia continuam fortes porque o sólido apoio da política industrial em nível central incentiva investimentos em setores estratégicos”, disse Zhang.
No acumulado dos nove primeiros meses de 2026, o indicador de investimento em ativos fixos apresentou retração de 7,2% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior, repetindo o recuo de 7,2% apurado até agosto, mas ficando marginalmente acima da previsão mediana do mercado, que projetava queda de 7,3%.
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