O desdobramento do primeiro turno da corrida presidencial acabou por antecipar as conversas nos bastidores a respeito do futuro ocupante da Procuradoria-Geral da República, cujo mandato de Paulo Gonet chega ao fim em dezembro de 2027. O tema já circulava entre os corredores do Ministério Público Federal desde que a Polícia Federal encontrou menções a Gonet em mensagens recuperadas do telefone de Daniel Vorcaro, ganhando força adicional após Flávio Bolsonaro superar Luiz Inácio Lula da Silva na primeira etapa do pleito.
Nas conversas recuperadas do dispositivo, o advogado Ciro Soares enviava ao ex-banqueiro registros fotográficos ao lado do chefe do MPF, além de textos atribuídos a ele. Sobre o episódio, o procurador-geral declarou ter conversado apenas uma vez com Vorcaro, de maneira “brevíssima e banal”, durante um evento realizado em 2024 e financiado pelo próprio ex-banqueiro.
A repercussão das mensagens resultou em um pedido de apuração formal examinado pelo Conselho Superior do Ministério Público Federal. Embora o colegiado tenha decidido arquivar a abertura da investigação por uma margem estreita de votos, a reunião gerou um clima de desconforto e atritos nos bastidores da instituição.
Nomes e perfis cotados para a sucessão
Nas últimas semanas, as equipes de campanha passaram a avaliar perfis de subprocuradores-gerais da República — a patente mais alta da carreira dentro do MPF — com potencial para assumir o cargo a partir de dezembro de 2027. O grupo político alinhado a Flávio Bolsonaro enxerga com bons olhos figuras com o perfil de Lindôra Araújo, que atuou como vice-procuradora-geral durante o segundo mandato de Augusto Aras, entre 2021 e 2023, funcionando como seu braço direito.
O próprio Augusto Aras, que chefiou a PGR por dois mandatos consecutivos após indicação de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2023, é considerado por colegas de farda como uma alternativa tida como segura para Flávio Bolsonaro. No entanto, em relação a Lindôra, um obstáculo etário impede sua indicação: ela completará 75 anos em dezembro do próximo ano, exatamente no mesmo mês em que o novo procurador-geral assumirá a função, o que exigirá sua aposentadoria compulsória.
Lindôra sempre manteve proximidade com o clã Bolsonaro, atuando ativamente para barrar investigações que miravam o ex-presidente e aliados próximos. Ela assumiu a linha de frente em frentes nas quais as diretrizes convergiam com o bolsonarismo. Suas manifestações públicas, contudo, atraíram duras críticas do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, além de integrantes da cúpula da CPI da Covid, que a rotularam de “testa de ferro” de Aras.
Por outro lado, Aras preenche os requisitos necessários para retornar ao comando da PGR: integra os quadros da carreira e tem 67 anos. Embora planejasse deixar o serviço público em 2024, ele optou por continuar vinculado ao Ministério Público. No mesmo período, passou a integrar os quadros de um escritório de advocacia. Como ingressou na carreira antes da promulgação da Constituição de 1988, a legislação permite o acúmulo dessas funções.
Procurado para comentar o cenário, Aras preferiu o silêncio. Pessoas próximas relatam que ele evita debater o tema e foca sua rotina na vida acadêmica, tendo sido aprovado recentemente como professor catedrático na Universidade de Brasília.
Cenário para um eventual governo Lula
No horizonte de uma possível gestão governada por Lula, o panorama de escolha é menos previsível, sem clareza sobre o perfil desejado ou se o atual mandatário optaria por reconduzir Gonet a um terceiro mandato. Um sucessor natural seria o atual vice-procurador-geral da República, Hindemburgo Chateaubriand.
Ainda assim, diversos subprocuradores manifestaram interesse no posto junto a Lula em 2023, ocasião em que Gonet acabou sendo o escolhido. A indicação do atual chefe do órgão contou com o forte apoio dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
Desgaste interno e a questão da lista tríplice
Mesmo com a decisão do Conselho Superior do MPF de barrar a investigação contra Gonet no âmbito do caso Master, o placar apertado de 5 votos contrários e 4 favoráveis gerou desgaste político interno para o procurador-geral. Durante a reunião de 25 de setembro, houve contestações à conduta de Gonet, com parte dos subprocuradores sustentando que ele deveria ter se declarado suspeito e se afastado do caso pelo simples fato de seu nome aparecer citado nos autos. No entanto, prevaleceu a tese de que os elementos apresentados eram insuficientes para comprovar qualquer proximidade ou favorecimento ao ex-banqueiro.
Independentemente do desfecho nas urnas, a Associação Nacional dos Procuradores da República planeja resgatar a formulação de listas tríplices para encaminhar ao chefe do Executivo com sugestões para a PGR. A entidade havia suspendido a prática em 2025, quando Lula optou antecipadamente por reconduzir Gonet para um segundo mandato. A cúpula da associação avaliava que o propósito da lista é oferecer três alternativas ao presidente, tornando desnecessário o envio de nomes após a escolha já ter sido feita, de modo a evitar constrangimentos.
Embora seja uma praxe histórica da categoria, a legislação brasileira não obriga o presidente da República a seguir a lista sugerida. Em 2023, Lula já havia rompido com a tradição ao escolher Gonet pela primeira vez, repetindo o gesto adotado anteriormente por Jair Bolsonaro ao indicar Aras, decisão que rendeu severas críticas por parte de parlamentares petistas. A discussão a respeito da elaboração da lista para o próximo ano deve ocorrer ainda no primeiro semestre, meses antes da conclusão do mandato de Gonet.
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