Historiadora de formação, Ana Paula Tavares faz história em 2025 ao se tornar a primeira mulher angolana a receber o Prêmio Camões. Ela encontra poesia na diversidade e na igualdade das línguas portuguesas, nos documentos históricos e nas crônicas cotidianas. Em sua passagem pelo Brasil em julho para participar da Flip, ela discutiu literatura, oralidade e o direito à utopia, além de comentar seu livro de crônicas recentemente lançado no país, O sangue da buganvília — obra batizada em homenagem a uma planta que viu em locais onde “só havia o cheiro da morte”; no meio deles, “uma buganvília completamente em flor. Tão forte que chega a ser escandaloso”.
A união entre poesia, crônica e história
Questionada sobre como é a conversa entre a poeta, a cronista e a historiadora, ela explica que todos os caminhos se misturam. Quando comecei a fazer crônicas de forma sistemática, elas eram gravadas e transmitidas na rádio. Foi muito bom porque tenho uma grande dívida com a tradição das histórias contadas que passam de geração em geração. Sou uma mulher da escrita e fazer algo para ser ouvido me pareceu uma forma de entrar nesse universo.
A oralidade também fundamenta sua poesia, comparada a tabuinhas de memória para se repetir e resistir no tempo. Povos que não têm sua história fixada pela escrita desenvolveram estratégias para fazer isso: poemas, adágios, formas que em algumas línguas se chamam missosso: uma história contada que obedece a formas fixas. Ela compara a prática aos folhetos de cordel que encontrou em Paraty e a uma tradição de contação de histórias da família banto chamada de “desenhos na areia”.
Ameaça às línguas nativas em Angola
Enquanto o interesse pelas tradições orais cresce no Brasil, o mesmo não ocorre em Angola, segundo a autora. A modernização chega de uma forma violenta e não se compadece do trabalho de ourivesaria que é a delicadeza da tradição oral. Em Angola, há línguas correndo o risco sério de desaparecer. A língua portuguesa transformou-se na língua da modernidade, a que faz a guerra: os soldados tiveram que aprender palavras que os ensinassem a lidar com as formas modernas de matar. Depois da libertação, fala-se muito mais o português do que no tempo colonial. Poderia não ser um problema se outras línguas fossem ensinadas nas escolas aos mais jovens. As pessoas mais velhas estão a morrer, e com elas suas línguas. Pelo último censo, 69% dos angolanos têm menos de trinta anos. Esta geração não tem memória da guerra, do passado colonial e não tem acesso ao que havia antes desse passado.
Embora o Prêmio Camões e a poesia ajudem a chamar a atenção para diferentes modos de vida, ela demonstra cautela quanto ao impacto dessas premiações. A poesia é um lugar de encantamento e tenho tido boas surpresas. Jovens me leem, me escrevem e começam novos trabalhos a partir de um poema meu. É tudo o que eu desejava, mas duvido da eficácia. Passaram-se cinquenta anos da independência nacional, um período curto do ponto de vista do historiador. Essas sociedades resistiram muito tempo à violência do colonialismo; neste momento precisam resgatar suas formas de estar neste mundo. Se bem que, neste momento, o mundo inteiro está estranho.
O direito à utopia e o diálogo entre falantes
Diante de um tempo de perplexidade e de um capitalismo agressivo, a autora defende que as pessoas pensem em outras maneiras de viver para ultrapassar essa engrenagem fascista da ordem da violência, resgatando o direito à utopia. No entanto, ela aponta que os falantes da língua portuguesa ainda não conversam o bastante entre si, lamentando que muitas produções literárias de países lusófonos não circulem amplamente.
Em seu livro O sangue da buganvília, ela aborda o cotidiano angolano por meio de “makas”. Se me zango com minha vizinha, há uma “maka” entre nós duas. É uma palavra genérica do quimbundo para um conjunto de mal-entendidos. A expressão pode ser equiparada a “perrengue” no Brasil ou a conflito em Portugal. A vontade de aproximar coisas e palavras é uma das minhas motivações para escrever crônicas.
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