Para 70% dos americanos, Trump pode não reconhecer resultado da eleição se for derrotado

Pesquisa aponta que 70% dos americanos temem que Donald Trump rejeite derrota

Mundo

Sete em cada dez americanos dizem acreditar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não reconhecerá uma eventual derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro. É o que mostra uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (20) pelo jornal americano The Washington Post, em parceria com a emissora ABC News e o instituto Ipsos.

A desconfiança ultrapassa as divisões partidárias. Entre os democratas, 94% dizem duvidar que Trump reconhecerá uma eventual derrota republicana. O percentual chega a 77% entre independentes e a 36% entre os próprios republicanos. A pesquisa ouviu 2.545 americanos de 9 a 13 de outubro, com margem de erro de dois pontos.

Divulgado a duas semanas das eleições, elenque-se o levantamento a outra pesquisa com efeito negativo para o presidente. Segundo sondagem Reuters/Ipsos, Trump chegou ao mais baixo nível de aprovação de sua carreira política, com 31%.

Com risco de perder o exíguo controle que hoje tem sobre o Congresso, Trump percorre o país para mobilizar apoiadores. Embora não concorra diretamente, ele próprio faz a disputa nas urnas ser sobre ele. “Nesta eleição, peço a vocês que votem como se meu nome estivesse na cédula”, disse ele em comício no Kansas nesta segunda-feira (19).

Os americanos ouvidos pela pesquisa Washington Post-ABC-Ipsos desconfiam de Trump, mas não das eleições em si. Segundo o levantamento, 65% dizem confiar na contagem dos votos.

Outro levantamento divulgado nesta terça, pelo Pew Research Center, aponta que 87% dos eleitores americanos dizem acreditar que as eleições serão bem administradas em suas comunidades. A pesquisa ouviu 5.062 adultos, 3.917 eleitores registrados, de 28 de setembro a 4 de outubro. Entre apoiadores democratas, 64% confiam na contagem pelo correio, ante 88% em 2022; entre republicanos, são 42%, ante 37%.

As preocupações também variam de acordo com a preferência partidária. Quando questionados sobre seus principais receios em relação às eleições, 11% dos democratas mencionaram espontaneamente a possibilidade de interferência do governo Trump na administração do pleito, enquanto 10% citaram o risco de cidadãos com direito ao voto serem impedidos de participar. Entre os republicanos, 19% demonstraram preocupação com votos fraudulentos ou a participação de eleitores irregulares.

As suspeitas decorrem da ampliação que Trump já fez da atuação federal nas eleições e do histórico do presidente em contestar resultados desfavoráveis.

Em janeiro, Trump lamentou, em entrevista ao jornal The New York Times, não ter usado a Guarda Nacional para apreender máquinas usadas na apuração após a derrota para Joe Biden, em 2020. Depois, o FBI apreendeu cédulas e registros eleitorais no condado de Fulton, na Geórgia, local onde Trump pressionou autoridades locais para “encontrar votos” que viabilizassem sua vitória.

O presidente também defendeu que os republicanos assumissem o controle da votação em alguns locaiss e propôs “nacionalizar” as eleições, apesar de a Constituição atribuir aos estados a administração do processo eleitoral.

Em meio a essa tentativa, travou uma briga com o Congresso pela aprovação do Save America Act, projeto de lei que exige documento com foto e comprovante de cidadania para registro eleitoral, além de ampliar o compartilhamento de dados entre os estados e o governo federal. A proposta não foi aprovada, apesar das ameaças do presidente.

O governo Trump afirma que suas iniciativas buscam combater fraudes e assegurar que apenas pessoas com direito ao voto participem das eleições. Não há, no entanto, registros de fraudes significativas nesse sentido.

Aliados do presidente também defendem uma atuação mais ostensiva do governo federal durante a votação. Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca, afirmou em fevereiro que agentes do serviço de imigração (ICE) deveriam cercar os locais de votação em novembro. A Casa Branca afirmou posteriormente que não havia planos formalizados para empregar agentes de imigração dessa maneira.

O receio de interferência federal também levou um grupo de cerca de dez atuais e ex-integrantes da área de segurança nacional a orientar discretamente governadores, parlamentares e autoridades eleitorais de dez estados sobre como reagir a possíveis ações do governo Trump, segundo reportagem publicada nesta terça pelo Washington Post.

Entre os cenários discutidos estão o envio de militares ou agentes de imigração aos locais de votação e tentativas de anular resultados sob acusações de fraude. O grupo, que concentra esforços em regiões com disputas apertadas pelo controle do Congresso, afirma que suas preocupações se baseiam em declarações e iniciativas públicas do governo, não em informações sigilosas sobre planos concretos.

Para Richard Hasen, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Trump enfraqueceu a confiança no sistema ao insistir, sem evidências, que eleições são fraudadas. “Os apoiadores dele acreditam nisso, enquanto seus opositores enxergam essas declarações como um ataque à democracia, o que leva a uma erosão ainda maior da confiança”, afirma à Folha.

Hasen avalia que uma ampla vitória democrata na Câmara tornaria improvável uma interferência de Trump. “Se os democratas vencerem por uma ampla margem, não acho que haja nada que Trump possa fazer. O governo federal não tem nenhum papel na administração das eleições”, diz.

O cenário muda se Câmara ou Senado dependerem de poucas disputas apertadas. “Se a eleição for muito acirrada e o controle da Câmara ou do Senado depender de algumas disputas contestadas, temo que Trump tente interferir na contagem dos votos e na certificação dos resultados, como fez, sem sucesso, em 2020”, afirma.

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