A era atual é marcada por mudanças velozes impulsionadas por inovações como a inteligência artificial. Num cenário em que os limites entre os universos físico e digital se fundem, surge o questionamento sobre como deve ser a instituição de ensino dos próximos anos.
Antes de idealizar esse modelo, é preciso analisar o cenário atual. O PISA 2025 traz um paradoxo alarmante: na OCDE ( Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os níveis de matemática e leitura atingiram os piores patamares da história do exame. Isso ocorre justamente no momento em que analisar dados, cruzar referências, diferenciar fatos de opiniões e exercer o pensamento crítico tornam-se competências indispensáveis. Além disso, o levantamento indica um rendimento menor em ciências entre os alunos que fazem uso de inteligência artificial em atividades escolares. Embora a tecnologia amplie o acesso ao conhecimento, suas vantagens não podem prejudicar a habilidade de raciocinar.
Os obstáculos vão muito além da esfera cognitiva. Ferramentas algorítmicas podem limitar horizontes, ao passo que falhas na proteção deixam os jovens mais expostos à desinformação e à violência. Argumentação crítica, responsabilidade, respeito, postura democrática e engajamento social podem ser resumidos em um único conceito: cidadania. A instituição de ensino de amanhã precisa ser voltada para a cidadania.
Conforme aponta o sociólogo Marcelo Burgos, cidadania vai muito além de dominar direitos e deveres. No ambiente escolar, ela precisa ser edificada dia após dia, permitindo que o aluno construa seu plano de vida e colabore com a sua comunidade.
A realidade brasileira e a desigualdade
No Brasil, metade dos jovens de 15 anos não atinge o patamar básico em leitura e ciências; em matemática, o índice chega a cerca de 7 em cada 10 estudantes. A desigualdade marca esses índices: os 25% mais ricos se aproximam da média registrada pela OCDE.
Caso aceitemos disparidades tão profundas, isso pode indicar também a fragilidade da nossa cidadania. Enquanto as instituições públicas lutam para assegurar o aprendizado básico, as redes de elite correm o risco de restringir o ensino aos interesses particulares das famílias, deixando o aspecto coletivo em segundo plano.
Essa vertente esquecida precisa retornar ao centro do debate pedagógico e da agenda coletiva. O setor privado pode refletir sobre formas de apoiar a rede pública. Na Suíça e Áustria, a qualificação profissional une sala de aula e vivência corporativa; já na Dinamarca, empregadores e empregados ajudam a desenhar os caminhos formativos. O setor produtivo não se limita a absorver talentos: ele atua na capacitação. Não há cidadania sem acesso a oportunidades, e nada disso anula ou substitui o papel do Estado e da escola pública.
O papel da filantropia e da sociedade
No âmbito da filantropia, 67% dos recursos são destinados à educação, de acordo com dados do GIFE 2025 ( Grupo de Institutos, Fundações e Empresas). Contudo, faltam ações estruturadas a partir do cotidiano escolar, que abranjam grade curricular, estrutura física, administração e métodos pedagógicos, escutando quem vivencia essa realidade. Tal esforço demanda entender o contexto dos alunos, estreitar vínculos, valorizar os docentes e o espaço escolar, assegurando assim condições adequadas de ensino e o fomento à cidadania.
A escola não é um mero detalhe. Ela integra o projeto de sociedade desejado, servindo como base da democracia e ferramenta essencial de mobilidade social. Para nos prepararmos para o amanhã, o ponto de partida deve ser a educação e a cidadania, exigindo um verdadeiro Plano Real para a área.
Nota da editoria: como sugestão musical aos leitores, a escolha foi “Rap da Felicidade”, composta por Kátia Cileia e Julinho Rasta, na voz de Cidinho & Doca.
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