O que realmente mobiliza os eleitores de Lula e Flávio nas redes sociais?

Redes sociais de Lula e Flávio são movidas a rejeição, diz especialista

Economia

A repulsa ao adversário tem exercido um papel mais relevante na mobilização política nas plataformas digitais do que o apoio direto aos próprios concorrentes. Essa é a conclusão de Renato Dolci, cientista político e diretor da Dados Timeless, que observa nas campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) uma participação organizada majoritariamente em torno de conceitos e instituições que seus simpatizantes rechaçam.

Em entrevista concedida nesta terça-feira (20), Dolci apontou que o monitoramento do ambiente digital revela distinções entre os temas que mobilizam os públicos progressistas e conservadores. Contudo, em ambas as vertentes, o embate com o rival figura como o núcleo principal das discussões.

“O que tem engajado mais as comunidades no digital não são os candidatos. O que engaja os seus blocos, na verdade, são ideias contrárias daquilo que eles odeiam”, afirmou.

Os temas que movimentam a internet

De acordo com o especialista, assuntos ligados ao fascismo e à liberdade de expressão figuram entre os principais motores de engajamento para os grupos alinhados à esquerda. No campo oposto, a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou protagonismo absoluto durante a primeira etapa do pleito.

“O primeiro turno foi 100% pautado em STF. O STF organizou muito mais os blocos da direita do que o próprio candidato”, disse.

Para Dolci, tal comportamento esclarece os motivos pelos quais a corrida presidencial entre Lula e Flávio permanece acirrada nas redes, mesmo nos momentos em que as equipes de campanha carecem de inovações programáticas significativas.

A participação ativa não se sustenta apenas na conexão com um plano de governo, mas também no medo de que o grupo rival assuma o poder e implemente diretrizes consideradas inaceitáveis por determinadas parcelas da sociedade.

“Eu voto muito mais por aquilo que eu odeio como ideia, ou que eu não considero que tenha capacidade de mudança, do que necessariamente qualquer ideia que eu seja muito extremista”, declarou o analista.

Barulho digital versus conversão de votos

Apesar do forte ativismo online, o especialista faz um importante alerta: a intensidade das publicações não reflete, necessariamente, o tamanho real do eleitorado. As conversas nas plataformas são impulsionadas por perfis altamente participativos, enquanto a maioria da população apenas consome o material sem intervir nos debates.

No segundo turno, por exemplo, a campanha petista registrou um salto expressivo na presença digital, superando o adversário em volume de interações graças à atuação de parlamentares, influenciadores e militantes organizados. No entanto, o avanço numérico não assegura a conquista de novos simpatizantes.

“A volumetria métrica no digital é muito mais barulho do que sinal de tendência”, pontuou.

Por fim, Dolci destaca que as bolhas políticas funcionam primariamente para consolidar certezas já existentes, tornando o desafio das campanhas focar na expansão das mensagens para além de seus redutos tradicionais.

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