A exportação de soja do Brasil, maior produtor e exportador global da oleaginosa, pode cair 0,8% no próximo ano em relação a 2026, para 113 milhões de toneladas, mas a receita será recorde com impulso dos preços mais altos, estimou a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) nesta quinta-feira (22).
O recuo projetado no volume embarcado, divulgado enquanto produtores realizam a semeadura da nova safra, reflete um cenário de expansão mais forte no processamento interno. Paralelamente, espera-se uma alta mais modesta na produção, dinâmica que tende a restringir a disponibilidade do grão para mercados externos, a exemplo da China.
A entidade, que integra companhias como ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, Cofco e Louis Dreyfus Company, projetou o esmagamento de soja em um patamar recorde de 66 milhões de toneladas, o que representa um acréscimo de 3,8% frente a 2026.
Demanda interna e biodiesel
A previsão da exportação menor do Brasil está “possivelmente ligada a uma maior demanda interna” por soja, disse a entidade, apontando também para expectativas de aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel como indutor do maior processamento.
“O forte ritmo de esmagamento reflete a resposta ágil da nossa indústria à crescente demanda nacional por farelo, essencial para a produção de alimentos, e por óleo, fundamental para a fabricação de biocombustíveis e para as exportações”, afirmou o diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove, Daniel Furlan Amaral.
Ele complementou pontuando que “esse cenário consistente de alta no processamento nos prepara estrategicamente para continuar suprindo o país diante da expectativa do aumento da mistura obrigatória de biodiesel para B16, prevista para março”. Questionada, a Abiove afirmou que a estimativa do volume de processamento considera a possibilidade de um aumento de 1 ponto percentual na mistura de biodiesel, para 16% — o biocombustível é fabricado predominantemente a partir do óleo de soja.
Em contrapartida, a projeção aponta para uma elevação de apenas 0,7% na safra brasileira de soja, alcançando 181,6 milhões de toneladas, conforme dados da estatal Conab integrados pela Abiove em seu levantamento de oferta e demanda. O montante considera adversidades climáticas em um ciclo de El Niño, fenômeno que diminui o volume de chuvas no norte e eleva as temperaturas, somado a fatores econômicos que restringem a ampliação da área cultivada.
Ademais, a Abiove revisou para baixo em 1,1 milhão de toneladas a estimativa de exportação de soja do Brasil em 2026 na comparação com o prognóstico de setembro, situando-a em 113,9 milhões de toneladas, embora não tenha detalhado os motivos. O volume ainda representará um recorde em relação aos 108,18 milhões de toneladas contabilizados em 2025.
Recorde de receita na exportação
O aumento no processamento resultará em maior fabricação e embarque de farelo de soja, indicou a Abiove, projetando uma alta de 3,8% na produção da matéria-prima destinada à ração em 2027 ante 2026, totalizando 50,8 milhões de toneladas.
As vendas externas de farelo deverão alcançar um patamar histórico de 26,3 milhões de toneladas, registrando um incremento de 4% sobre 2026.
No tocante ao óleo de soja, a associação estimou um volume de 13,27 milhões de toneladas, avanço de 3,7% em relação a 2026, com mais da metade desse total — equivalente a 7,8 milhões de toneladas — direcionada à produção de biodiesel.
Por outro lado, a exportação de óleo de soja do Brasil, que tem na Índia um mercado relevante, deve recuar 2,6% em 2027, atingindo 1,9 milhão de toneladas, à medida que o setor de biodiesel absorva uma parcela maior da matéria-prima em função do eventual reajuste na mistura.
Mesmo com a retração esperada nos volumes de grãos exportados anualmente, a valorização das cotações internacionais compensará a baixa nos quantitativos de uma das atividades mais expressivas para a balança comercial brasileira.
A Abiove calcula que o faturamento com as exportações do complexo soja, abrangendo grão, farelo e óleo, poderá atingir o patamar recorde de US$ 69,3 bilhões em 2027, superando os US$ 60,3 bilhões previstos para 2026. A soja em grão responderá pela maior fatia dessa receita, somando US$ 56,5 bilhões.
O valor estimado para o complexo no próximo ano superará a marca histórica de 2023, quando o setor obteve uma receita total de US$ 67,3 bilhões.
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