A determinação de José Marques de Oliveira prova que a busca pelo conhecimento não tem limite de idade. Aos 79 anos, o ex-trabalhador do campo está na reta final para realizar a meta de sua vida: ser professor. Cursando Licenciatura em História, ele atua desde setembro como estagiário em uma unidade da rede pública de ensino em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina.
A experiência prática ocorre no Centro Educacional Municipal Professor Armando César Ghislandi, onde José cumpre a carga de 150 horas de estágio supervisionado. Na instituição, ele vivencia o cotidiano escolar, participa de atividades pedagógicas e observa atentamente a condução das turmas para assumir a regência em breve.
“Quando saiu meu estágio aqui, eu disse: ‘Meu Deus do céu, não acredito que deu tudo certo’. Eu pensava: ‘Será que sou eu mesmo?’. Parecia um sonho”, contou.
Superação e trajetória acadêmica
O caminho percorrido pelo futuro docente foi marcado por adversidades e muitas pausas. Tendo passado a infância no meio rural, onde o acesso à educação formal era restrito, José trabalhou na roça, atuou no comércio e comercializou livros. A mudança para Balneário Camboriú aconteceu em 1976 em busca de melhores condições de vida, mas a conclusão da educação básica só foi alcançada na fase adulta, em 2002.
Mais tarde, ingressou na faculdade de Direito, chegando até o quinto semestre antes de desistir por questões financeiras. Obstáculos pessoais como a enchente de 2008, o luto pela perda da ex-esposa, questões de saúde e os desdobramentos da pandemia também adiaram seus planos.
Vencendo o preconceito com tecnologia
Ao optar pelo retorno à universidade, José deparou-se com o etarismo daqueles que duvidavam da sua capacidade cognitiva. “Todo mundo dizia que eu não ia aprender, me discriminavam bastante: ‘Tu é louco da cabeça, tu não vai aprender’. Eu dizia: ‘Não vou? Eu vou aprender, sim. Por que não?’”, relembrou.
Contrariando as expectativas negativas, o universitário não apenas avança na graduação, como também se dedica a cursos de computação e Inteligência Artificial, integrando recursos digitais em suas pesquisas acadêmicas. O estudante defende que o estímulo constante ao cérebro amplia a habilidade de assimilar novidades e conserva a mente saudável.
Inspiração na sala de aula
No ambiente escolar, José é acompanhado de perto pelo docente Gabriel da Silva Montenegro, participando das aulas e do planejamento pedagógico. O tutor relata o impacto positivo do convívio com o estagiário: “É inspirador ver alguém que, mesmo com a vida feita, ainda tem interesse em aprender algo profundamente, a ponto de querer fazer uma faculdade”, afirmou.
O sentimento ecoa entre os adolescentes. O aluno do 9º ano, Iury Spuldaro, destacou que o exemplo do futuro professor demonstra que limites etários e dificuldades do passado não anulam o desejo de estudar.
Próximos passos após os 80
A formatura na graduação em História está prevista para 2027. Com o 80º aniversário se aproximando em janeiro, José assegura que o diploma da faculdade será apenas a primeira etapa.
“Eu não vejo a hora de terminar. É terminar e já fazer pós-graduação”, afirmou.
Certo de que ainda há muito caminho pela frente, ele arremata com otimismo: “Nunca é tarde para realizar sonhos”.
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