Uma nova onda de manifestações tomou conta da Argentina nesta quinta-feira (15), reunindo estudantes, docentes e representantes de instituições de ensino superior de todo o país. O objetivo da mobilização nacional é exigir o cumprimento imediato da Lei de Financiamento Universitário, aprovada pelo Congresso em agosto de 2025, que obriga a gestão de Javier Milei a reajustar orçamentos e remunerações com base na inflação oficial.
Apesar da legislação vigente e de uma decisão judicial que determinou a sua aplicação — contra a qual o governo já recorreu —, a Casa Rosada vem utilizando manobras políticas para adiar os repasses, sob o argumento de que os gastos colocariam em risco o superávit fiscal.
As reivindicações da comunidade acadêmica buscam conter o sucateamento acumulado desde o início do mandato de Milei, em dezembro de 2023. Entre as principais cobranças estão a recuperação salarial para compensar perdas de 33,4%, a reversão do corte orçamentário de 47,7% imposto às universidades e a revisão do valor das bolsas estudantis, reduzidas em 20%.
Mobilização e reflexos na comunidade brasileira
O desmonte atinge em cheio os cerca de 15 mil universitários brasileiros matriculados no país vizinho. Entre esse grupo, cresce o alerta sobre a intenção declarada por aliados da oposição no Brasil, como o senador Flávio Bolsonaro, de replicar medidas econômicas semelhantes em território nacional.
Referência no movimento de alunos brasileiros, Letícia Lopes, que cursa medicina na Universidade de Buenos Aires (UBA), destacou o empenho da categoria na resistência:
“Nós estamos articulando a presença de estudantes brasileiros, especialmente na área da saúde, para somar forças à mobilização em defesa da universidade pública. Sentimos as consequências dos ajustes do governo Milei e estamos acompanhando com muita preocupação esse debate no Brasil”, explica Letícia.
O impacto das medidas de austeridade sobre a rotina dos estudantes influenciou diretamente o cenário eleitoral no exterior. No primeiro turno do pleito presidencial brasileiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 66,1% da preferência em Buenos Aires, considerado o maior colégio eleitoral da América Latina fora do Brasil.
“Aqui nós estamos vendo as consequências do ajuste fiscal e do desfinanciamento das universidades: salários baixos, dificuldade para manter as atividades acadêmicas e os impactos na pesquisa científica. No Brasil, as propostas de ajuste fiscal que vêm sendo discutidas pela equipe de Flávio Bolsonaro, incluindo as possíveis mudanças no financiamento da educação e da saúde, nos despertam preocupações parecidas”, aponta Letícia.
Para a estudante, as causas dos dois países estão interligadas:
“Defender a universidade pública é defender o direito ao conhecimento, à ciência e a uma formação de qualidade, tanto na Argentina quanto no Brasil. Portanto, a defesa da educação pública argentina também é uma luta nossa”, conclui.
Pressão política e adesão sindical
O ato conta com o apoio de entidades sindicais de grande peso, como a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), além de movimentos sociais e organizações civis que também manifestam suporte a Lula. O envolvimento de diversos setores da sociedade reforça a expectativa de grande adesão popular, repetindo o padrão das quatro edições anteriores da marcha, que levaram mais de 1 milhão de cidadãos às ruas em todo o território nacional — metade deles apenas na capital.
O ponto focal dos protestos é a região do Congresso, onde deputados realizam uma sessão plenária voltada a projetos de financiamento para pessoas com deficiência e mutuários inadimplentes. Na pauta legislativa, os parlamentares também avaliam anular o megadecreto com o qual Milei governa desde o início da administração.
O texto revoga e modifica normas sobre leis trabalhistas, contratos de aluguel, convênios médicos, compra de terras por estrangeiros e regulação de estatais. O decreto já havia sido barrado pelo Senado em março de 2024 e, caso rejeitado pela Câmara, representará um golpe expressivo no Executivo.
Além dos estudantes, outros segmentos enfrentam o avanço da carestia econômica. Servidores públicos e aposentados estão entre os grupos mais afetados pelas medidas do governo, amargando prejuízos no poder de compra na casa de 36,5% frente à inflação.
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