Artefatos arqueológicos são encontrados sob asfalto em área de antigo cemitério da Liberdade, em SP

Vestígios arqueológicos negros são achados sob o asfalto na Liberdade

Brasil

Vestígios arqueológicos potencialmente associados ao passado da população negra de São Paulo foram descobertos durante intervenções da prefeitura no bairro da Liberdade, situado na região central da capital paulista.

Os principais registros englobam um fragmento de osso humano e uma área com forte concentração de pedaços de cerâmica, vidro e osso bovino — indicando uma possível relação com rituais religiosos de matriz afro-brasileira, conforme apontado pela empresa A Lasca, contratada para prestar o acompanhamento especializado.

A localização dos itens aconteceu no contexto das intervenções da segunda etapa do programa Ruas Abertas, iniciativa direcionada a ampliar as áreas de circulação de pedestres em vias bastante movimentadas do bairro, que costuma receber milhares de visitantes aos fins de semana. Os materiais estavam encobertos por camadas de asfalto e paralelepípedo.

O antigo Cemitério dos Aflitos e os achados

Os objetos foram localizados a cerca de 30 centímetros abaixo do nível do solo, mesma profundidade na qual vestígios de sepultamentos foram achados nos arredores da Capela dos Aflitos em 2018.

O achado mais expressivo ocorreu dentro do perímetro do sítio arqueológico do antigo Cemitério dos Aflitos. O espaço serviu para o sepultamento de parte da população negra, indígena, indigente e pobre da capital entre 1775 e 1858.

O monitoramento arqueológico teve início no fim de maio, após o começo das intervenções em 2025. A exigência do acompanhamento havia sido apontada pelo Iphan em fevereiro daquele ano, com o envio do projeto de monitoramento pelo escritório contratado em novembro.

O primeiro ponto de destaque surgiu em junho, quando a equipe de arqueologia acompanhava a abertura de uma vala na rua dos Estudantes, próxima à esquina com a rua Galvão Bueno. A aproximadamente 35 centímetros de profundidade, os profissionais encontraram uma aglomeração de fragmentos de louça, vidro e osso bovino. Os artefatos foram catalogados e retirados, com exceção da parte óssea, que demandará uma escavação mais aprofundada. O trecho precisou ser isolado com lona plástica, areia, tapume de madeira, restos de materiais de construção e uma tela de proteção.

Um segundo caso ocorreu em 5 de outubro, com a localização de um fragmento de osso humano na rua Thomaz Gonzaga, perto da esquina com a rua Galvão Bueno. Um parecer técnico emitido por um especialista em bioarqueologia indicou que se trata possivelmente de um pedaço de fêmur, que foi devidamente registrado e encaminhado para análise.

Paralisações e impactos nas obras

Devido aos achados, trechos das intervenções precisaram ser paralisados de maneira temporária. Essa situação figura entre os motivos citados pela administração municipal para justificar o atraso na entrega, inicialmente prevista para o encerramento de 2025, somando-se ainda a divergências de informações referentes ao sistema de gás.

Em nota oficial, a gestão Ricardo Nunes (MDB) declarou que trabalha para atenuar os reflexos das obras, implementando sinalizações e desvios de tráfego. A prefeitura também ressaltou a finalização do trecho na rua Américo de Campos e na praça da Liberdade, além da manutenção dos serviços nas demais vias, com exceção da rua dos Estudantes, onde tudo permanece suspenso. Adicionalmente, a administração informou que o monitoramento arqueológico passará a contar com um especialista em bioarqueologia e diáspora africana, incluindo a participação de pessoas negras e indígenas.

Por meio de nota, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) pontuou que paralisações pontuais ocorrem sempre que vestígios arqueológicos vêm à tona, sendo tais itens recolhidos e direcionados para exames especializados.

Em setembro, com a identificação dos materiais, a associação Museu dos Aflitos encaminhou uma nota técnica ao Iphan, defendendo a adoção de novas providências. Entre as demandas estão a ampliação do perímetro do sítio arqueológico e a exigência de cuidados para impedir que intervenções menores — como as realizadas por empresas de telecomunicação — ocorram sem a devida supervisão especializada. Na visão da entidade, as novas descobertas demonstram que o subsolo da região guarda depósitos arqueológicos dotados de alta relevância científica e cultural.

O escopo do programa Ruas Abertas

A iniciativa Ruas Abertas compreende intervenções em cerca de 14 mil metros quadrados de vias de grande movimento no bairro, espaço marcado pela forte presença de comércios, restaurantes e pela praça da Liberdade. O contrato totaliza R$ 5 milhões.

Nesta fase atual, o objetivo é converter parte das ruas em vias compartilhadas, o que envolve o alargamento das calçadas, a diminuição de espaços destinados a veículos — tanto para estacionamento quanto para faixas de rolamento —, o nivelamento da pista com o passeio público e a substituição do asfalto por blocos intertravados, entre outras alterações. A prefeitura não divulgou um novo prazo para a conclusão dos trabalhos. A etapa inaugural do programa foi implementada em 2023, restringindo o trânsito de carros em algumas vias durante domingos e feriados, em modelo semelhante ao aplicado na avenida Paulista há mais de dez anos.

As descobertas recentes surgem em meio a um movimento crescente pela recuperação e exaltação da história multiétnica da Liberdade, que abrange desde a herança negra e indígena até a chegada de imigrantes europeus — a exemplo de portugueses, italianos, eslavos e espanhóis — e asiáticos, com forte predominância japonesa. Além da Liberdade, outros sítios arqueológicos localizados na área central da capital também revelam possíveis vestígios da memória negra paulistana. Recentemente, artefatos associados a um provável espaço de culto afro foram encontrados durante os trabalhos de escavação da estação 14 Bis-Saracura, integrante da linha 6-laranja do metrô.

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