O domínio territorial imposto por grupos armados transformou a rotina de milhões de brasileiros e colocou a segurança pública no topo das prioridades nacionais. Em bairros da capital fluminense, barricadas gerenciadas por jovens armados com fuzis automáticos de calibre restrito definem a circulação de pedestres e veículos, ilustrando a fragilidade da presença do poder público em diversas comunidades.
“Até poucos anos atrás, era possível andar livremente por esta rua, mas agora há três barricadas ao longo dela”, diz Braga, que mora na Penha, um complexo de mais de uma dezena de favelas na zona norte da cidade. “Se os garotos da barricada são mortos, outros ocupam o lugar deles. É um processo sem fim –e o Estado está, em grande parte, ausente.”
O avanço territorial e nacional do crime
De acordo com levantamento conjunto do Instituto Fogo Cruzado e da Universidade Federal Fluminense, grupos armados dominam ou exercem controle sobre 31% do território da cidade do Rio de Janeiro. Esse perímetro concentra mais de 40% da população carioca — totalizando quase 3 milhões de cidadãos. Desde o ano de 2008, a extensão dominada por essas organizações mais que dobrou.
A questão, contudo, extrapolou as fronteiras fluminenses. Informações do Ministério da Justiça apontam que o Comando Vermelho opera em 26 das 27 unidades federativas. Já o Primeiro Comando da Capital (PCC) também estende suas ramificações por 26 estados. Pesquisadores avaliam que as duas organizações já possuem um quadro de membros superior ao dos mais expressivos cartéis da Colômbia e do México, tendo sido enquadradas pelo governo dos Estados Unidos como organizações terroristas estrangeiras.
O reflexo dessa capilaridade alcança o cotidiano da sociedade. Números divulgados pelo instituto Latinobarómetro revelam que 26% dos cidadãos do país estão submetidos à chamada “governança criminal”, índice recorde em âmbito latino-americano.
Infiltração em esferas de poder
Além da ocupação geográfica, o poder financeiro e estrutural das organizações criminosas passou a atingir órgãos estatais. O cenário gerou investigações e prisões recentes, como a do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, detido sob acusação de colaborar com o Comando Vermelho. Anteriormente, a Polícia Federal prendeu o deputado estadual TH Joias, apontado por fornecer armas e aparatos antidrones para a mesma facção.
“É esse fenômeno que está me tirando o sono”, diz Robert Muggah, especialista em segurança do Instituto Igarapé, no Rio. “Temos uma situação em que redes criminosas estão se infiltrando nos órgãos políticos do Estado. […] O crime organizado está se espalhando como uma metástase do Rio e de São Paulo para o restante do Brasil, o que é algo fundamentalmente novo.”
Em audiência sobre o quadro estadual, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), destacou a ocorrência de uma “profunda infiltração no poder público do Rio”. A defesa de Bacellar afirma que “ele nunca teve qualquer contato com grupos criminosos”, declarando inocência. A defesa de TH Joias também nega envolvimento.
O debate eleitoral e propostas para a crise
A sensação de insegurança e de impunidade perante as organizações ilegais tornou-se motor central na corrida presidencial. Flávio Bolsonaro despontou em vantagem nas intenções de voto após vencer o primeiro turno, amparado por um discurso punitivista que sugere a construção de megapresídios para faccionados e ações policiais ostensivas. A abordagem encontra respaldo popular considerável no Rio de Janeiro, onde o candidato obteve 53% dos votos contra 39% do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Críticos e analistas acadêmicos, contudo, alertam para a ineficácia histórica de focar apenas no encarceramento em massa e no confronto letal. Entre 2015 e 2024, operações policiais vitimaram 11.550 pessoas no território fluminense, segundo dados oficiais, sem que isso contivesse a multiplicação de territórios controlados por narcotraficantes e milicianos.
“Colocar mais pessoas na prisão não vai resolver o problema e pode tornar essas organizações mais fortes”, diz Benjamin Lessing, da Universidade de Chicago.
Por outro lado, o governo de Lula enfrenta desgaste histórico na pasta da segurança, área tratada como calcanhar de aquiles da esquerda por priorizar majoritariamente medidas socioeconômicas. Em resposta às pressões do pleito, a gestão federal direcionou novas forças para rastrear lavagem de dinheiro das facções e adotou a mensagem de linha-dura: “Proteção para os trabalhadores, prisão para os criminosos.”
Para especialistas, o restabelecimento da ordem exige presença física permanente e aportes consistentes em serviços básicos, revertendo décadas de omissão estatal em áreas dominadas tanto pelo tráfico quanto pelas milícias.
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