Em meio à crescente pressão da concorrência internacional, as montadoras da Europa precisam recalcular a rota e parar de tentar superar as fabricantes chinesas em sua própria especialidade. A avaliação contundente é de Mate Rimac, principal executivo da Bugatti, que afirma que a salvação das fabricantes do continente está no resgate da sofisticação clássica e do trabalho artesanal com matérias-primas de alta qualidade, e não na corrida desenfreada por painéis gigantescos e comandos sensíveis ao toque.
A ilusão digital e o exemplo da relojoaria
Ao analisar o acabamento histórico de veículos como o Rolls-Royce Silver Seraph e o Bentley Arnage, Rimac chamou a atenção para o emprego autêntico de madeira nobre e couro. Para o executivo, o setor automotivo desvirtuou seus projetos ao transformar cabines em mostruários de processamento eletrônico, ignorando que a digitalização maciça não eleva, por si só, o patamar de requinte de um automóvel.
Na prática, um display de 12 polegadas continua sendo o mesmo componente genérico, esteja ele instalado em um crossover familiar de 30 mil euros ou a bordo de um esportivo de luxo de 300 mil euros — com a ressalva de que o modelo mais barato muitas vezes exibe uma tela maior. Rimac sustenta que os europeus deveriam replicar a postura da indústria relojoeira da Suíça: abrir mão de brigar por custos com relógios comuns para focar em peças altamente exclusivas e margens substanciais.
Essa abordagem atende perfeitamente aos anseios de marcas de altíssimo padrão, como a própria Bugatti, além de Bentley, Rolls-Royce e as linhas mais exclusivas de BMW, Mercedes-Benz e Porsche, onde o consumidor está disposto a pagar valores exorbitantes por personalização e requinte manufaturado.
O impasse para os carros de volume
Embora a tese faça sentido no topo do mercado, ela não resolve a crise do setor automotivo como um todo. Montadoras com perfil generalista não têm como migrar suas operações para o modelo artesanal sem comprometer a sobrevivência financeira de suas fábricas.
O Grupo Volkswagen, por exemplo, é incapaz de converter o consagrado Golf em um produto de seis dígitos sem perder milhões de compradores pelo caminho. Do mesmo modo, a Renault não pode revestir cada unidade do Clio em couro nobre e fibra de carbono, assim como a Skoda não tem como vender o Octavia como se fosse um artigo de joalheria. O público que sustenta os grandes volumes de produção precisa de veículos práticos para o dia a dia da família e que caibam no orçamento.
A rápida resposta da indústria chinesa
Outro complicador ignorado por análises simplistas é que a indústria chinesa não se restringe a veículos populares recheados de telas. As fabricantes daquele país avançam rapidamente no segmento premium, oferecendo cabines sofisticadas, materiais agradáveis ao toque e motores avançados por preços altamente competitivos.
Diante dessa realidade, apenas eliminar visores táteis e adicionar acabamento manual não será suficiente para salvar todo o ecossistema europeu. Ainda assim, o alerta de Rimac expõe um dilema indispensável: para além de fichas técnicas infladas e velocidades de recarga, cada fabricante precisa redescobrir o real motivo pelo qual seus veículos ainda despertam o desejo do consumidor.
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