O avanço acelerado da inteligência artificial representa um risco sem precedentes para a sustentabilidade fiscal dos governos e para a estabilidade do mercado de trabalho global. O alerta foi emitido pela diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, que cobrou uma reformulação urgente das políticas educacionais e uma ação coordenada do poder público para preparar a sociedade para as transformações em curso.
“É um tsunami em câmera lenta, mas ainda assim um tsunami”, declarou a líder da instituição na segunda-feira (5), em sua primeira atividade nas reuniões anuais conjuntas do FMI e do Banco Mundial, realizadas em Bangkok.
Segundo Georgieva, a automação já começa a encolher a procura por profissionais ao assumir funções cotidianas e padronizadas. Em contrapartida, observa-se uma expansão de postos com remunerações baixas em áreas como a construção civil, cenário que, de acordo com ela, “não é motivo para comemorar”.
Riscos fiscais e aumento da desigualdade
A mudança profunda no perfil ocupacional traz desdobramentos preocupantes para os orçamentos nacionais. Georgieva advertiu que a tecnologia tende a transferir o peso econômico do fator trabalho para o capital. Como a tributação sobre a folha e a renda dos trabalhadores historicamente sustenta a arrecadação estatal, essa migração pode minar a capacidade financeira dos governos.
O diagnóstico se soma a uma série de apreensões sobre os reflexos da IA na economia internacional. Profissionais em início de carreira e jovens inseridos em setores vulneráveis à automação já enfrentam um ritmo mais lento de contratações. Além disso, há o temor de que o abismo social se aprofunde, uma vez que os ganhos gerados pela tecnologia permanecem restritos a poucas economias e a uma parcela seleta de trabalhadores, a despeito de uma onda maciça de investimentos globais.
“Hoje, não podemos imaginar exatamente como será o mundo do trabalho daqui a cinco anos”, afirmou a diretora. “Mas podemos agir com rigor e avaliar cuidadosamente o que está acontecendo, para então tirar lições e, acima de tudo, colocá-las em prática agora.”
Impacto positivo no crescimento
Apesar dos efeitos negativos imediatos sobre a mão de obra, a inteligência artificial também carrega potencial de estímulo macroeconômico. Cálculos do FMI apontam que a integração dessa ferramenta pode injetar até um ponto percentual no produto interno bruto de países desenvolvidos da Ásia.
Esse reforço no ritmo de expansão “é algo muito significativo”, ressaltou Georgieva, enfatizando que a produtividade trazida pelas novas ferramentas ajudará a “mais do que compensar” os entraves decorrentes do envelhecimento demográfico observado nas nações mais ricas do continente asiático.
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