Dia Mundial do Pão: uma paixão brasileira que atravessa gerações e movimenta bilhões de reais

Dia Mundial do Pão celebra tradição e mercado bilionário

Gastronomia

Item essencial na mesa da população, o pão vai muito além do café da manhã e consolida uma força monumental na economia nacional. Celebrado em 16 de outubro, o Dia Mundial do Pão homenageia um dos alimentos mais antigos da humanidade, que no Brasil movimenta centenas de bilhões de reais e molda a rotina de milhões de consumidores em diferentes formatos, do tradicional pão francês às criações de fermentação natural.

A data internacional foi criada no ano 2000 pela União Internacional de Padeiros e Confeiteiros, compartilhando o calendário com o Dia Mundial da Alimentação da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Muito antes da agricultura formal se consolidar, registros arqueológicos na Jordânia já indicavam produções de massas semelhantes a pães achatados há cerca de 14.400 anos, revelando que a junção de cereais moídos com água acompanha a evolução das civilizações há milênios.

O tamanho e a relevância do mercado nacional

No cenário nacional, os números refletem o hábito enraizado. Informações da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip) mostram que o segmento faturou R$ 164,12 bilhões em 2025, sendo responsável por gerar cerca de 2,76 milhões de postos de trabalho, entre diretos e indiretos. Conforme a entidade, aproximadamente 50 milhões de pessoas entram em padarias e confeitarias todos os dias no país.

Paralelamente, a Pesquisa Nacional da Panificação 2025, conduzida pela FIPAN a partir de dados da Euromonitor, aponta um consumo individual de 29,3 quilos de pão por ano entre os brasileiros. Sob uma metodologia própria, o levantamento registrou uma receita de R$ 178,1 bilhões para o setor geral de panificação em 2024.

Já no segmento de refeições fora do lar, os dados do levantamento CREST, realizado pelo Instituto Foodservice Brasil (IFB) em parceria com a WISE Sales, indicam que as vendas de pães somaram R$ 19,4 bilhões nos 12 meses acumulados até junho de 2026. O índice marcou um recuo de 21% em comparação com o ciclo anterior, acompanhado por uma retração de 25% nas transações, que totalizaram perto de 1,2 bilhão. O desjejum abrange 48% dos momentos de consumo, e a praticidade responde por 45% das decisões de compra.

O pão figura em 31% dos menus de estabelecimentos gastronômicos, sobressaindo-se em lanchonetes de hambúrguer, casas árabes, confeitarias e cafeterias. O tipo brioche desponta em 19% dos cardápios avaliados, à frente das versões artesanais (10%), do pão francês (4%), do australiano (2%) e do sírio (2%).

“O pão é um produto que consegue acompanhar mudanças no comportamento do consumidor justamente pela sua versatilidade”, afirma Ingrid Devisate, vice-presidente executiva do IFB.

Modelos de negócios e marcas em evidência

Essa versatilidade se traduz em modelos comerciais de sucesso por todo o país. Aberta em 2015, a rede Boulangerie Carioca une o conceito de bistrô, confeitaria e panificação clássica francesa adaptada ao paladar brasileiro. A marca oferece mais de 20 opções de lanches, desde o clássico croque monsieur — com molho bechamel, presunto e queijos mussarela e gruyère — até pães artesanais enriquecidos com iogurte, grãos funcionais ou cerveja preta com linguiça. Para o CEO Antônio Augusto Ribeiro de Souza, o diferencial é renovar as técnicas e receitas sem desrespeitar os métodos tradicionais.

Em São Paulo, a Na Fila do Pão apostou na fermentação natural para celebrar a data. No dia 16, a casa preparou uma ação promocional em que o cliente compra um produto de fermentação lenta e leva outro (Rústico, Baguete ou Forma), limitada a dois resgates por pessoa nas unidades físicas e no delivery. O padeiro Diêgo Penido, que iniciou o projeto assando massas em panelas de ferro na própria residência em 2020 após ser demitido, celebra o retorno: “Vendemos mais de 1.000 unidades em poucas horas e o estoque acabou antes do que esperávamos”.

A tradição do pão francês também mantém forças históricas. Fundada no ABC Paulista em 1953, a Padaria Brasileira chega aos 73 anos vendendo cerca de 300 mil pães franceses todo mês — média diária de 10 mil unidades. “Temos orgulho de preservar os clássicos da panificação e oferecer receitas especiais para diferentes paladares. Nosso compromisso é manter a qualidade em cada fornada, respeitando a história da Padaria Brasileira e acompanhando as preferências dos consumidores”, destaca Henrique Afonso Júnior, diretor-geral da empresa.

Outro marco paulistano é a Bella Paulista, em atividade ininterrupta desde 2002 na região da Avenida Paulista. Funcionando 24 horas em um espaço de 1.200 metros quadrados com capacidade para 200 pessoas sentadas, a megapadaria recebe entre 5 mil e 7 mil frequentadores ao dia. O espaço foi premiado como a Melhor Padaria do Brasil em 2024 pela revista Prazeres da Mesa e conquistou o título de Melhor Adega de Padaria no Melhores da Taça 2025.

Nas rodovias, o alimento também fideliza o público. A rede Frango Assado transformou seu pão de semolina em parada obrigatória para viajantes. Assada diretamente em fornos de lastro após períodos de fermentação que atingem 12 horas, a massa é servida na chapa, em sanduíches ou vendida em grande escala para viagem.

Aprenda a fazer em casa: receitas da chef Manu Buffara

Para incentivar a produção caseira, a renomada chef Manu Buffara compartilhou duas sugestões fáceis e saborosas:

Pão de banana com manteiga de amendoim Rendimento: 8 porções

Ingredientes: 2 bananas maduras grandes amassadas ½ xícara (chá) de manteiga de amendoim ¼ xícara (chá) de mel 1 ovo 1 colher (chá) de essência de baunilha 1 xícara (chá) de farinha de trigo 1 colher (chá) de bicarbonato de sódio 1 pitada de sal Manteiga ou óleo para untar Amendoim torrado picado a gosto

Modo de preparo: Preaqueça o forno a 180 °C e unte uma forma de pão. Misture as bananas, a manteiga de amendoim, o mel, o ovo e a baunilha até obter um creme homogêneo. Em outra tigela, combine a farinha, o bicarbonato e o sal. Incorpore os ingredientes secos aos úmidos, mexendo delicadamente. Despeje na forma e asse por 45 a 50 minutos, até dourar e passar no teste do palito. Deixe esfriar antes de desenformar e finalize com amendoim torrado, se desejar.

Pão pita Rendimento: 8 porções

Ingredientes: 1 xícara (chá) de água morna 2 colheres (chá) de fermento biológico seco 2 colheres (chá) de açúcar 2¾ xícaras (chá) de farinha de trigo 1 colher (chá) de sal 1 colher (sopa) de azeite (15 ml) Óleo para untar

Modo de preparo: Misture a água morna, o fermento e o açúcar e deixe descansar por dez minutos. Em uma tigela, combine a farinha e o sal, abra uma cavidade e acrescente a mistura de fermento e o azeite. Sove por aproximadamente dez minutos, até obter uma massa lisa e elástica. Transfira para uma tigela untada, cubra com pano úmido e deixe crescer por uma hora, ou até dobrar de volume.

Aqueça o forno a 230 °C, mantendo uma assadeira virada para baixo em seu interior. Divida a massa em oito porções, modele bolas e abra discos de aproximadamente 15 centímetros. Asse sobre a assadeira quente por três a cinco minutos, até inflarem e dourarem levemente. Retire e mantenha cobertos com pano úmido para conservar a maciez. É possível aromatizar a massa com za’atar, tomilho ou orégano, ou cortar em formato triangular para assar novamente até virar torrada crocante.

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