Documentos societários levantam dúvidas sobre quem é o real controlador de uma financeira do Piauí, a Pincred: se a empresária Francine Kallas ou o irmão dela, o também empresário da Cedro Mineração, Lucas Kallas.
Kallas manteve negócios com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e foi alvo de inquéritos e processos criminais. Em agosto, o Banco Central concedeu autorização para Francine assumir o controle acionário da Financeira Pintos (Pincred), mas o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) já havia autorizado o irmão dela, Lucas, a comprar a mesma financeira um ano e meio antes. As dúvidas sobre quem controla a financeira surgiram a partir de revisão de pedidos submetidos ao Banco Central e ao Cade de documentos societários da rede de empresas envolvida na operação.
Reputação ilibada, capacidade financeira para manter a operação e comprovação da origem lícita dos recursos são condições para a análise de compras, de fusões e da constituição de instituições financeiras feita pelo Banco Central. Portanto, conhecer a verdadeira identidade do dono da Pincred, se Lucas ou Francine, é importante para que o BC possa averiguar se o comprador da empresa atende aos critérios estabelecidos pelo órgão para esse tipo de transação, incluindo o de reputação ilibada. Segundo o levantamento, o que não está claro é se a análise do BC envolveu apenas Francine ou também seu irmão, Lucas.
Porém, nenhum dos dois tem condenação judicial até o momento, o que tornaria incerto o poder de o BC barrar a compra da financeira —mesmo que o controle fosse submetido em nome de Lucas. A diretriz da Procuradoria-Geral do Banco Central diz que alguém é considerado inidôneo apenas se tiver uma condenação judicial, algo que não ocorreu até o momento no caso de Kallas e de sua irmã. Até a publicação da reportagem, a autoridade monetária não havia se pronunciado.
A família Kallas e as investigações
Lucas Kallas foi um dos indiciados pela Polícia Federal na Operação Parcours, sob suspeita de integrar um esquema de extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, na região metropolitana de Belo Horizonte. Semanas após ser indiciado pela PF, Kallas anunciou sua saída da presidência do conselho de administração da Cedro Participações, grupo que tem como principal negócio a Cedro Mineração e participação em setores como agro, logística, imobiliário e saúde.
Francine também aparece nas investigações. Em uma troca de emails, segundo a PF, um executivo da Cedro pede a uma gestora que cadastre o endereço eletrônico dela em um fundo da Reag, gestora que administrava fundos usados, segundo o BC, em fraudes do Banco Master. A gestora também é acusada de ter hospedado recursos provenientes do crime em fundos sob sua gestão. Diálogos no WhatsApp de Vorcaro mostram que ele e Kallas viajaram juntos à Venezuela em outubro de 2023 para prospectar negócios na área de petróleo.
Também foram investidores da empresa de biotecnologia Biomm. O grupo de Kallas foi contratado para a construção de hospitais para a Oncoclínicas, da qual Vorcaro era sócio. Lucas Kallas também tomou um empréstimo de R$ 254,8 milhões junto ao Master em abril de 2024, que depois foi cedido ao Banco Voiter. Não está claro se o débito foi quitado, segundo o jornal. Diálogos de WhatsApp entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, mostram que o dono do Master tentou ceder esses empréstimos ao banco estatal. Costa diz, em mensagem, que a proposta foi barrada pelo compliance do BRB em decorrência das investigações criminais que corriam contra Lucas Kallas.
Em nota enviada, a assessoria de imprensa de Lucas e Francine Kallas diz que ambos são acionistas e integram o bloco de controle da Cedro Participações e que a aquisição do controle da financeira ocorreu sob requerimentos e justificativas elaboradas com base nos mesmos documentos apresentados ao Banco Central e ao Cade, “que aprovaram a operação sem ressalvas”, afirma. Sobre a Operação Parcours, a defesa de Lucas Kallas diz que “confia que sua inocência será reconhecida”, pois o “indiciamento se baseia em fatos antigos, arquivados pela Justiça.” A assessoria diz que o relatório da Polícia Federal sobre o caso “menciona fundos administrados pela Reag apenas como hipótese a ser eventualmente aprofundada”. Já em relação ao empréstimo junto ao Master, a assessoria afirma que ele foi feito de forma regular, foi quitado, que os recursos estão disponíveis e que o liquidante do banco foi notificado.
O Cade informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não foi formalmente notificado pelas partes sobre qualquer reestruturação societária. “Os efeitos concorrenciais da operação não alterariam caso o grupo econômico comprador permanecesse o mesmo”, diz.
As ligações de Lucas Kallas
O empresário Lucas Kallas tem uma rede de conexões extensa, que inclui ao menos três ministros do STF. No início do ano, Viviane Barci de Moraes, advogada e esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, assumira a defesa de Lucas Kallas em processo na Corte sobre extração ilegal de minério de ferro. Instituto educacional fundado pelo ministro do STF André Mendonça firmou um contrato de R$ 5,9 milhões com a holding Cedro Participações. Em setembro, o CEO do Iter, Victor Godoy, ex-ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro, disse que os recursos recebidos serviram para cobrir “custos operacionais e iniciais”. O empresário também contratou o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro do STF Luiz Fux, para defendê-lo de acusações de crime ambiental.
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