As ações da Alphabet, controladora do Google, despencaram 13% nesta quinta-feira (29), provocando uma perda recorde de US$ 500 bilhões (R$ 2,67 trilhões) em seu valor de mercado. A forte queda ocorreu após a gigante tecnológica registrar consumo de receita no último trimestre e alertar que as buscas no “modo IA” estão ameaçando os lucros de sua principal divisão de publicidade.
O tombo repercutiu fortemente nos mercados financeiros, fazendo com que o índice Nasdaq, focado em empresas de tecnologia, recuasse 1,87% na sessão. Caso a baixa persista até o encerramento do pregão, esta será a segunda maior perda diária de valor de mercado na história de Wall Street, ficando atrás apenas da desvalorização de US$ 593 bilhões sofrida pela Nvidia em janeiro de 2025.
Impacto nos investimentos e no fluxo de caixa
O fluxo de caixa da empresa do Vale do Silício aprofundou sua situação negativa nos três meses encerrados em setembro, atingindo US$ 9,1 bilhões negativos (R$ 48,65 bilhões negativos). O cenário é reflexo da alta nos investimentos em inteligência artificial, que superaram a marca de US$ 50 bilhões (R$ 267,33 bilhões) no período.
O resultado superou as previsões de analistas e marcou apenas o segundo trimestre de fluxo de caixa negativo desde a abertura de capital do Google, em 2004. O momento coincide com a crescente cautela de investidores sobre a rentabilidade a longo prazo do atual boom de aportes em IA.
Especialistas do mercado também identificaram fragilidades na divisão de anúncios de busca. Embora a receita do setor tenha subido 12% em relação ao ano anterior, alcançando US$ 63,4 bilhões (R$ 338,97 bilhões), o número ficou abaixo da estimativa de US$ 64,9 bilhões, desacelerando em comparação ao ritmo de quase 20% registrado no início do ano.
Philipp Schindler, diretor de negócios do Google, reconheceu que as consultas feitas pelo “modo IA” — que entregam respostas conversacionais em vez de listas de links — estão avançando sobre as pesquisas tradicionais e gerando uma “menor monetização” por meio de anúncios.
“É nas buscas que está a preocupação”, disse David Wagner, chefe de renda variável da Aptus Capital Advisors. “Em um mercado preocupado com a possibilidade de chatbots de IA canibalizarem seu principal negócio, os investidores precisam vê-lo acelerando, e não desacelerando”, avaliou.
Escalada de despesas e dívidas
A guinada para o consumo de caixa decorre de despesas históricas de capital voltadas à inteligência artificial. No trimestre, os investimentos saltaram para US$ 51,3 bilhões (R$ 274,28 bilhões), frente aos US$ 44,9 bilhões reportados no trimestre anterior. A diretora financeira, Anat Ashkenazi, indicou que os gastos anuais podem chegar a US$ 205 bilhões, o que implicaria despesas de até US$ 73,1 bilhões apenas no quarto trimestre.
Para financiar essa expansão, a Alphabet acumulou dezenas de bilhões em dívidas e planeja captar cerca de US$ 85 bilhões em sua primeira oferta de ações em mais de duas décadas, revertendo anos de recompra de seus próprios papéis. O Google também assumiu compromissos superiores a US$ 1 trilhão (R$ 5,35 trilhões) em acordos de energia, equipamentos, arrendamentos e data centers.
Enquanto isso, concorrentes como a Microsoft obtiveram melhor recepção no mercado devido ao avanço da nuvem Azure. “Os mercados estão avaliando cuidadosamente a relação entre os investimentos de capital e o fluxo de caixa livre”, comentou Dec Mullarkey, diretor-geral da gestora de ativos SLC Management. “A Microsoft se destaca pela disciplina de caixa, ao mesmo tempo que entrega crescimento. O Google ficou aquém, e a expectativa é que o fluxo de caixa continue sendo um obstáculo ao longo do próximo ano.”
Desempenho financeiro e lucros
A receita total da Alphabet cresceu 25%, atingindo US$ 127,6 bilhões (R$ 682,23 bilhões) no trimestre, valor ligeiramente inferior às projeções da FactSet. O lucro líquido caiu 25%, para US$ 26,2 bilhões (R$ 140,08 bilhões), ficando distante dos US$ 37,3 bilhões aguardados por analistas. O resultado foi pressionado por variações no valor de investimentos da companhia, incluindo uma desvalorização de cerca de 4% na SpaceX, de Elon Musk, que gerou um prejuízo líquido de US$ 8,7 bilhões em participações acionárias.
O lucro operacional subiu 30%, para US$ 40,6 bilhões (R$ 217,07 bilhões), mas também ficou abaixo da expectativa de Wall Street, estipulada em US$ 43,2 bilhões. Ashkenazi destacou ainda que um desembolso de US$ 5,2 bilhões para quitar uma penalidade regulatória europeia aplicada em 2018 — após a derrota em recurso sobre práticas anticompetitivas do sistema Android — contribuiu para aprofundar o saldo negativo do fluxo de caixa.
Em contrapartida, a divisão de nuvem da Alphabet dobrou suas vendas para US$ 30,7 bilhões, impulsionada pela demanda por infraestrutura de IA e pela oferta de capacidade computacional a rivais, como a startup Anthropic. O presidente-executivo Sundar Pichai tem enfrentado críticas por suposta lentidão na adoção de inteligência artificial corporativa, mas destacou que os novos modelos Gemini — chamados Argon e Carbon — estreitaram a distância tecnológica em programação, finanças e segurança cibernética, posicionando a empresa para recuperar espaço de mercado.
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