A interseccionalidade — conceito que aborda os cruzamentos de marcadores sociais como raça, classe, gênero e deficiência — ganha destaque em um novo e-book gratuito voltado para a promoção de práticas pedagógicas inclusivas no Brasil. A publicação aborda os desafios enfrentados por estudantes que acumulam diferentes formas de opressão e traz orientações fundamentais para educadores que buscam combater a discriminação nas salas de aula.
Segundo dados de um relatório desenvolvido pela Minority Rights Group International em parceria com a Universidade de York e o Movimento Vidas Negras com Deficiência Importam, apenas 23,8% das pessoas pretas com deficiência com 25 anos ou mais concluíram o ensino básico no país, em contraste com 57,3% das pessoas sem deficiência. Além disso, o levantamento aponta que menos de 1% desse público consegue ingressar no ensino superior público brasileiro.
O que é a interseccionalidade na educação? “A luta anticapacitista e a luta antirracista se entrelaçam de forma complexa e profunda, especialmente no Brasil, um país marcado por discriminação, exclusão e fortes desigualdades sociais e econômicas”, aponta Marta Gil. Ela é coordenadora-executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas e coautora do e-book “Orientações de Acessibilidade Antirracista na Educação”, material desenvolvido pelo projeto SETA, uma aliança formada por movimentos sociais, organizações negras, quilombolas, indígenas e de pessoas com deficiência atuantes na educação.
O e-book destaca que “A educação escolar de pessoas negras com deficiência é marcada por capacitismo e racismo. Há falta de infraestrutura e de recursos de acessibilidade nas escolas, além da ausência de materiais didáticos adaptados. Isso cria um ambiente hostil, que contribui para a evasão escolar”.
Para auxiliar os professores, o guia aborda o Desenho Universal para a Aprendizagem, metodologias ativas, conceitos de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a diferença entre os modelos médico e social da deficiência. Sobre a interseccionalidade, Marta Gil reforça: “A perspectiva interseccional é um conceito antropológico que fala sobre o cruzamento de diferentes marcadores sociais — como gênero, raça, classe social, orientação sexual, idade e capacidade física — e a forma como a interação dessas identidades resulta em formas únicas de discriminação, opressão ou privilégio”.
Ela complementa detalhando os sistemas de opressão: “O racismo é um sistema de poder e dominação que organiza as estruturas sociais, políticas, culturais, educacionais e religiosas da sociedade. Esse sistema opera por meio da discriminação e do preconceito racial, estabelecendo relações de hierarquia e privilégio entre grupos raciais e/ou étnicos”. E acrescenta: “O capacitismo é um sistema de opressão que marginaliza e discrimina pessoas com deficiência, partindo da ideia de que pessoas sem deficiência são superiores ou mais ‘normais’”.
Superando barreiras e compreendendo conceitos O material também define o que são barreiras educacionais: “Barreiras educacionais são comportamentos capacitistas, racistas, estereótipos e discriminação. Elas trazem desafios que podem se constituir em barreiras, como olhares, palavras e/ou comportamentos de desvalorização, segregação, diminuição da capacidade ou negação de oportunidades.”
Em relação aos modelos teóricos, a especialista explica que “O modelo médico compreende a deficiência como uma condição que deve ser curada ou tratada; o seu foco está na limitação biológica do indivíduo. Portanto, defendia a ideia de que somente médicos, terapeutas ou instituições podiam falar sobre essa condição, pois detinham o saber profissional.” Por outro lado, “O modelo social começou a questionar essa perspectiva e impulsionou a luta por direitos civis e por mudanças políticas voltadas à inclusão e à acessibilidade. Esse movimento foi criado na década de 1970, liderado por pessoas com deficiência. Um exemplo foi a criação da Union of the Physically Impaired Against Segregation (União das Pessoas com Deficiência Física contra a Segregação, em tradução livre). Seu foco está nas barreiras impostas pela sociedade e na forma como esta exclui os corpos. Portanto, são as próprias pessoas com deficiência que devem ser ouvidas, para definir suas demandas e prioridades, juntamente com os profissionais da área da saúde.”
O e-book diferencia ainda autonomia e independência. Conforme esclarece a coautora, “Embora estes termos sejam considerados sinônimos, muitos profissionais definem ‘autonomia’ como a possibilidade de decisão, ou seja, mesmo que a pessoa não consiga realizar uma determinada ação, ela decide o que deseja e exprime sua vontade. Por exemplo, uma pessoa com tetraplegia provavelmente não consegue se vestir sozinha, mas tem autonomia para escolher a roupa que quer vestir. O termo ‘independência’ é utilizado para designar a possibilidade de optar e realizar uma ação. No exemplo acima, vestir-se sem auxílio.” O lema “Nada sobre nós, sem nós” resume a relevância de escutar ativamente esse público no ambiente escolar.
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