Existe um ditado popular entre brasileiros que se mudaram para Miami resumindo que viver nos Estados Unidos é bom, mas é ruim; e viver no Brasil é ruim, mas é bom. O conforto do exterior convive com a saudade do calor humano nacional. Acumulando mais de 40 anos na administração de empresas, é possível perceber que esse mesmo paradoxo se aplica diretamente aos negócios.
Abrir e manter um negócio no país traz diversos entraves. O cenário brasileiro envolve juros elevados, crédito de alto custo, insegurança jurídica, índices de violência e uma burocracia tributária comparada a um verdadeiro manicômio. As exigências ainda variam conforme a localidade. O Brasil possui 5.569 municípios, cada qual com autonomia para criar normativas próprias. Qualquer companhia que atue em âmbito nacional compreende que expandir uma filial para outro município significa lidar com legislações totalmente distintas.
A esse cenário soma-se a intensa judicialização das relações trabalhistas. Todos os anos, milhões de processos ingressam na Justiça do Trabalho. Embora boa parte reivindique direitos legítimos, o montante expressivo ilustra o tamanho dos riscos, conflitos e despesas que os gestores precisam administrar.
Não basta apenas comercializar bem, atender com excelência e gerenciar o fluxo de caixa. O empreendedor é obrigado a dominar licenças, fiscalizações e obrigações burocráticas que drenam recursos financeiros antes mesmo da primeira venda ser concretizada. Desse modo, a energia que deveria ser direcionada à inovação acaba desperdiçada na superação de barreiras institucionais.
O lado vantajoso das barreiras
Até o momento, apenas os aspectos negativos foram destacados. No entanto, o lado positivo é menos evidente: tais obstáculos também funcionam como um filtro que afasta rivais externos. Quando uma multinacional estrangeira analisa a possibilidade de ingressar no mercado brasileiro, ela pondera os riscos e muitas vezes conclui que o esforço não compensa.
Em contrapartida, quem já atua no país desenvolveu a habilidade de navegar por esse labirinto. Assim, aquilo que permanece como um grave problema estrutural também se transforma em uma forte vantagem competitiva.
Essa dualidade foi vivenciada na prática. No início dos anos 2000, durante a fundação da Petz, os grandes conglomerados americanos do segmento pet não contavam com a mesma força expressiva que possuíam nos Estados Unidos. Partindo da inauguração da primeira loja, houve espaço suficiente para o aprendizado, capacitação de equipes e desenvolvimento de competências.
Atualmente, marcas como Petz e Cobasi formam um grupo de proporção latino-americana, contando com uma operação omnicanal altamente sofisticada. Trata-se de um mérito dos fundadores, mas a pressão reduzida de concorrentes internacionais também viabilizou esse avanço.
Nos Estados Unidos, por sua vez, a lógica se inverte: o ambiente corporativo é bom, mas possui armadilhas. O cenário econômico é previsível, o financiamento é acessível e novos competidores surgem com facilidade. Consequentemente, conquistar consumidores e manter as margens de lucro exige inovação e reinvenção contínuas. No Brasil, o maior desafio costuma ser ingressar no mercado; lá fora, o desafio é manter a liderança diante de tantos concorrentes.
Impacto para a economia nacional
Apesar dos benefícios para quem já se firmou, seria um erro celebrar as barreiras do país. Embora protejam marcas estabelecidas, esses entraves bloqueiam investimentos externos, encarecem mercadorias e dificultam a jornada de quem tenta iniciar um negócio.
Embora não respondam sozinhas pelas desigualdades sociais, essas dificuldades ajudam a perpetuar um perfil econômico brasileiro de base larga com baixa renda e topo estreito de riqueza, distanciando-se da classe média ampla observada nos Estados Unidos.
O fator que impulsionou o crescimento de determinadas empresas não representa necessariamente o cenário ideal para a nação. O ambiente de negócios ideal seria aquele onde fosse mais simples empreender, mesmo que isso implicasse em maior concorrência pela preferência dos clientes.
No fim das contas, empreender no Brasil é ruim, mas pode ser bom para quem já venceu os obstáculos. O que não podemos aceitar é que o sucesso de quem chegou primeiro dependa das dificuldades de quem ainda tenta começar.
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