Empresa israelense é suspeita de rastrear usuários da Starlink com anúncios

Empresa de Israel é suspeita de rastrear clientes da Starlink por anúncios

Tecnologia

Uma companhia israelense batizada de Discover-Tech está sob suspeita de empregar propagandas digitais com o objetivo de localizar ou monitorar pessoas que utilizam o serviço de internet Starlink. A revelação veio à tona por meio de uma reportagem publicada por uma agência internacional de notícias, baseando-se em informações repassadas por seis fontes ligadas ao setor. Especialistas em segurança digital da TrendAI, divisão da Trend Micro, conectaram a firma a operações de publicidade consideradas anômalas.

O documento oficial da TrendAI, lançado publicamente em 15 de outubro, aponta o agente responsável sob a alcunha de Shadow-Earth-79. Durante a análise das amostras, constatou-se que o grupo vencia a maior parte dos leilões voltados para exibir publicidade a conexões da Starlink em 105 nações distintas, o que abrange o território brasileiro.

Como o sistema de anúncios atua no rastreamento?

A estratégia se aproveita da arquitetura padrão da publicidade online. Sempre que um indivíduo acessa uma página da web ou um software dotado de anúncios, plataformas automatizadas executam leilões instantâneos para definir qual conteúdo promocional aparecerá naquele espaço específico.

Para auxiliar os anunciantes na definição de lances, tais redes acabam compartilhando dados detalhados sobre a pessoa e seu respectivo aparelho. Dependendo da situação, o pacote informacional pode abranger o endereço de protocolo de internet, conhecido como IP, códigos de identificação publicitária, especificações técnicas do hardware e dados de geolocalização.

De acordo com apurações paralelas conduzidas pela Confiant, a Discover-Tech mesclava IPs, identificadores de publicidade e cookies — pequenos arquivos voltados para memorizar preferências de navegadores. A correlação desses elementos viabiliza a ligação entre múltiplos acessos e um único aparelho, gerando perfis detalhados de navegação.

Tal procedimento de captação de dados acontece no exato momento em que a publicidade é carregada, dispensando qualquer interação ou clique por parte do usuário. Além disso, a Confiant detectou a exibição de peças publicitárias da mesma empresa em ecossistemas digitais pertencentes a governos e órgãos públicos de alta sensibilidade. No tocante à Starlink, o foco recai estritamente sobre as conexões cujos IPs pertençam à provedora de satélite, embora a TrendAI ressalte que a localização baseada em endereços IP possui margem de erro.

O apelo das conexões via satélite

A tecnologia de internet espacial costuma ser adotada em territórios enfrentando conflitos armados, locais onde a infraestrutura de telecomunicações terrestre sofreu danos severos. Por esse motivo, mapear quem utiliza essas redes possui alto valor estratégico para missões de inteligência.

A TrendAI registrou movimentações intensas do operador em nações como Síria, Líbia, Iêmen e Sudão do Sul. Os analistas apontam que a forma como os espaços publicitários foram adquiridos e os recursos observados na estrutura tecnológica guardam compatibilidade com um sistema focado em vigilância e coleta de inteligência. A conclusão foi divulgada com um grau de confiabilidade que varia de moderado a alto.

Relação com programas espiões

Um levantamento conduzido pelo Citizen Lab, vinculado à Universidade de Toronto, conectou anúncios adquiridos pela Discover-Tech à disseminação de um software espião desenvolvido pela Candiru. Os ataques miraram a emissora Al Jazeera entre os anos de 2024 e 2025, atingindo ao menos 45 aparelhos pertencentes ao canal de notícias.

O método empregado é classificado como zero-click, ou seja, “sem clique”, bastando a simples renderização do anúncio para desencadear falhas de segurança e comprometer o sistema operacional do equipamento. Apesar da identificação desse vetor de ataque contra a Al Jazeera, os pesquisadores enfatizam que não há evidências concretas para afirmar que a mesma técnica tenha sido direcionada aos clientes da Starlink mencionados na investigação.

Conforme dados do Citizen Lab, o Google optou por banir a Discover-Tech de sua lista de fornecedores oficiais, cortando o acesso da companhia aos leilões de anúncios logo nos primeiros dias de outubro. Até o momento, os representantes da Discover-Tech, seu principal executivo e a SpaceX optaram por não se manifestar sobre o caso.

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