Caso seja eleito presidente, Flávio Bolsonaro (PL) promete aumentar o uso da água para irrigação de lavouras, em especial no Matopiba. Polo agropecuário no encontro de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a região convive com a diminuição na vazão de rios e a extinção de nascentes associadas à atividade.
Em seu plano de governo, o filho mais velho de Jair Bolsonaro diz que vai “ampliar significativamente a área irrigada do país, que hoje aproveita apenas uma fração do seu enorme potencial”. Também afirma que simplificará o processo de autorização para extração de água (chamada de outorga) e “desenvolver polos de irrigação no Matopiba e no semiárido nordestino”.
A reportagem procurou a campanha do candidato do PL, por meio do WhatsApp, nesta terça (20) e quarta-feira (21) para obter mais informações sobre as propostas, mas não recebeu resposta.
Enquanto o semiárido é caracterizado pela irregularidade das chuvas e pelas altas temperaturas, resultando no constante risco de escassez hídrica, o cerrado — onde fica o Matopiba — abriga as nascentes de 8 das 12 bacias hidrográficas do Brasil. Estudos mostram, no entanto, que essa abundância vem sofrendo o impacto direto da expansão da irrigação voltada para a soja, o milho e o algodão.
Impactos no oeste da Bahia
Um artigo publicado em 2021 na revista científica Water foca o uso de água para irrigação na bacia do rio Corrente, no oeste da Bahia, coração do Matopiba. O oeste baiano destaca-se como uma das áreas brasileiras onde a agricultura mais depende da irrigação, realizada majoritariamente por meio de pivôs centrais — equipamentos que giram em torno de um eixo, conferindo o formato redondo característico às plantações.
Os dados da pesquisa revelam que as áreas irrigadas por pivô central na bacia saltaram de 240 para 43,6 mil hectares entre 1986 e 2018. No mesmo período, a vazão do rio Pratudão, um dos mais importantes da região, despencou 38%.
Os pesquisadores destacam que a captação de água ocorre nos planaltos, onde se concentram as grandes lavouras de soja, enquanto a falta d’água atinge os vales localizados rio abaixo, habitados por comunidades tradicionais. Isso mascara a relação direta entre o avanço do agronegócio e o esgotamento hídrico agravado pelas mudanças climáticas.
“No entanto, esses vales enfrentam escassez hídrica mesmo sendo pouco desmatados”, afirmam no artigo. “Nossos resultados mostram que a atividade agrícola, mais do que a mudança climática, pode ser a principal responsável pelas tendências de redução da vazão dos cursos d’água na região oeste da Bahia.”
Para Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e coautor do estudo, não existe margem para acelerar as autorizações de captação de água no país, medida defendida por Flávio Bolsonaro, sobretudo em locais semiáridos ou com longas temporadas de seca. “A outorga de irrigação já é muito simplificada, muito fácil de se obter e com critérios que não são monitorados após a concessão.”
Um levantamento publicado em fevereiro de 2023 no periódico IDS Bulletin analisou 835 outorgas concedidas pelo governo estadual no oeste baiano entre 2007 e 2022. As autorizações permitiram a retirada diária de 17 bilhões de litros de água das bacias dos rios Grande, Corrente e Carinhanha. O volume seria suficiente para abastecer sete vezes a população de todo o estado da Bahia todos os dias.
Até outubro de 2024, dados da Embrapa registraram 332,5 mil hectares irrigados por pivô central na região, configurando a maior concentração nacional.
Ação do Ministério Público e o sumiço dos rios
Em novembro passado, o MPF (Ministério Público Federal) ajuizou uma ação exigindo uma reformulação estrutural na gestão ambiental e hídrica no extremo sudoeste baiano. O objetivo é blindar o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, localizado na divisa com Minas Gerais, “devido ao desmatamento e à utilização excessiva dos recursos hídricos disponíveis”.
Segundo o órgão ministerial, a conversão do cerrado em lavouras de larga escala provocou uma queda de até 50% nas vazões de rios e veredas do parque. Fundamentais para manter o fluxo dos rios durante os períodos de estiagem, as veredas estão encolhendo rapidamente. O pedido do MPF inclui a suspensão imediata de novas outorgas de captação de água e de licenças de desmatamento no entorno da unidade de conservação.
Além da retirada direta de água, a substituição da vegetação nativa por monoculturas prejudica a capacidade do solo de reter umidade e recarregar os aquíferos subterrâneos. Um terceiro estudo, veiculado na Nature Communications em 2024, indicou que mais da metade dos rios do Brasil corre o risco de sofrer redução de fluxo devido ao “vazamento” de água em direção aos aquíferos. A conclusão decorre da análise de 17.972 poços nacionais, dos quais 55,4% apresentavam níveis de água abaixo da superfície dos rios próximos.
Na bacia do São Francisco, onde se insere o Matopiba, 61% dos rios avaliados demonstraram potencial de perda hídrica para o aquífero, cenário atribuído ao uso intensivo de águas subterrâneas para irrigação.
A situação da lagoa do Pratudão
Com 144 km de extensão, o Pratudão é um dos principais rios da bacia do rio Corrente e atravessa o município de Jaborandi (BA). Marcos Beltrão, nascido na região e integrante do Movimento Ambientalista Grande Sertão Veredas, testemunhou o secamento da lagoa do Pratudão em poucos anos. “Era uma nascente perene, tinha água sempre. A lagoa tinha mais de 50 hectares de lâmina d’água.”
Imagens de satélite capturadas em outubro de 2016 e outubro de 2026 evidenciam o sumiço da água paralelamente à proliferação de pivôs centrais nos arredores.
Entre 2023 e 2024, Beltrão integrou um mapeamento nas sub-bacias dos rios Corrente e Carinhanha coordenado pela Comissão Pastoral da Terra. As comunidades locais identificaram 3.050 trechos de águas secos — incluindo córregos, riachos, cabeceiras e nascentes —, totalizando 7.120 km de cursos d’água desaparecidos.
“Muitos de nós somos descendentes de retirantes —pessoas que fugiam da seca e encontraram aqui um oásis”, conta ele. “Agora, estou me sentindo um futuro retirante, porque, se continuar assim, é questão de tempo até os outros rios secarem. Eu me pergunto: para onde a gente vai?”
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