Fogo e desmatamento transformam amazônia em fonte de carbono para a atmosfera

Estudo revela que Amazônia emite mais carbono do que absorve

Brasil

A Amazônia, reconhecida como a maior floresta tropical do globo, liberou para a atmosfera uma média anual de 1,17 bilhão de toneladas a mais de dióxido de carbono (CO2) do que conseguiu absorver no período compreendido entre 2010 e 2024. O fator determinante para esse saldo negativo foram as queimadas, responsáveis pela emissão de cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO2 anualmente, marca que supera com folga a capacidade natural de retenção da mata, fixada em 300 milhões de toneladas por ano.

Os dados integram uma pesquisa veiculada em uma edição de uma quarta-feira (21) na Nature, conceituada revista científica internacional. O estudo contou com a liderança de especialistas vinculados ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e teve o suporte financeiro da Fapesp, além de outras organizações científicas do Brasil e do exterior.

A partir do exame de 15 anos de registros atmosféricos do principal gás estufa, o levantamento apontou a interferência humana como a causa fundamental dessa instabilidade ecológica. Por essa razão, a contenção drástica dos incêndios, somada ao desmatamento zero e a iniciativas de restauração florestal, mostra-se indispensável para afastar o risco de um ponto de não retorno na região — ou seja, o momento em que a mata ultrapassa o limite de autossustentação e regeneração, dando espaço a uma paisagem de vegetação distinta.

Impacto crítico e crise climática

O alerta ganha relevância acentuada diante do volume de focos de incêndio registrados na Amazônia, que já se aproximam do total contabilizado ao longo de 2025. O monitoramento do Inpe aponta mais de 41,3 mil ocorrências em um intervalo inferior a dez meses, com concentração de 58% apenas nos meses de setembro e outubro, em comparação aos 43,1 mil episódios de todo o ano anterior. A densa camada de fumaça invadiu cidades do Amazonas, com forte impacto sobre Manaus, a capital, provocando a suspensão de aulas, sobrecarga nos postos de saúde devido a crises respiratórias e o início de investigações sobre crimes ambientais motivados por ações propositivas.

“A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé”, diz a cientista do clima Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe e principal autora do artigo.

Além de mapear as origens das emissões, o estudo traz evidências sobre as transformações no clima regional ao longo de décadas. Com base em registros dos últimos 46 anos, os pesquisadores demonstram que o desmatamento e o processo de degradação provocaram uma queda de 8% na precipitação anual da Amazônia, índice que chega a 20% no período mais seco, entre agosto e outubro. No mesmo intervalo, a temperatura média anual registrou alta de 1,13°C, com acréscimo de 1,81°C durante a estação da seca.

Segundo Gatti, tais modificações fragilizam as condições necessárias para a sobrevivência da floresta úmida e estimulam um mecanismo de retroalimentação, no qual a perda vegetal reduz as chuvas e eleva os termômetros, abrindo caminho para novas queimadas e intensificando a degradação da vegetação remanescente. “É um estresse muito grande sobre a floresta que fica”, diz a pesquisadora.

O peso das atividades humanas

Para a conclusão, os especialistas confrontaram fases marcadas por diferentes contextos climáticos e graus de intervenção antrópica, dividindo os anos em três grupos distintos: anos chuvosos com baixa interferência humana (2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018); anos de menor estresse climático (de 2019 a 2022) acompanhados por elevação de 97% no desmatamento e de 25% nas queimadas; e anos marcados pelo calor e pela seca (2010, 2015, 2016, 2023 e 2024), sob influência de eventos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte, que impulsionaram as queimadas em 92%.

A constatação foi de que, nos grupos 2 e 3, a Amazônia operou, em média, como emissora líquida de CO2. O balanço de carbono, que contabiliza a totalidade dos fluxos de absorção e liberação de origem natural ou antrópica, registrou superávit de emissões.

No grupo 2, os volumes liberados superaram em quase quatro vezes os índices do grupo 1, atingindo uma média de aproximadamente 1,58 bilhão de toneladas de CO2 por ano. O pico foi observado no grupo 3, cujo balanço médio alcançou 1,8 bilhão de toneladas anuais de CO2.

O balanço de carbono regional sofre influência tanto de dinâmicas naturais quanto de fatores impulsionados pelo homem, a exemplo da queima de combustíveis fósseis. O principal mecanismo de remoção expressiva de CO2 da atmosfera é a fotossíntese realizada pelas plantas, processo vital para o desenvolvimento e a preservação da cobertura vegetal.

Em decorrência disso, as florestas atuam como grandes sumidouros de carbono, elemento que retorna à atmosfera quando a vegetação perece ou passa por decomposição lenta. Em contrapartida, os incêndios florestais promovem a liberação imediata e abrupta do CO2 armazenado na biomassa.

Nos três cenários avaliados, quando subtraídas as emissões originadas pelo fogo, a Amazônia apresentou patamares equivalentes entre absorção e liberação de CO2, mantendo a chamada “troca líquida de carbono” próxima da neutralidade. Desta forma, restou pouca ou nenhuma capacidade de retenção para compensar os gases estufa gerados pelas chamas, evidenciando o impacto determinante da ação humana no desequilíbrio.

“Não fosse a La Niña, as emissões nos anos do grupo 2 poderiam ter sido ainda piores. Com o fenômeno, a absorção de carbono da amazônia na estação chuvosa compensou 75% das emissões no período da seca”, explica Gatti.

Em oposição ao El Niño, a La Niña caracteriza-se pelo resfriamento das águas do Pacífico equatorial em patamares iguais ou superiores a 0,5°C abaixo da média histórica. O ciclo costuma se estender de 9 a 12 meses e se repete a cada período de 2 a 7 anos, gerando reflexos climáticos globais, com diminuição de chuvas na região Sul e incremento pluviométrico no Norte e Nordeste brasileiros.

Entre os anos de 2020 e 2023, após mais de duas décadas, o país registrou o fenômeno conhecido como “triplo mergulho” da La Niña, marcado pela manutenção do resfriamento anômalo do Pacífico ao longo de três verões consecutivos no hemisfério Sul.

Metodologia e próximos passos

O embasamento técnico decorre de dados obtidos entre 2010 e 2024 mediante campanhas de voo com aeronaves de pequeno porte, que mediram as concentrações de CO2 e monóxido de carbono (CO). As coletas ocorreram em quatro pontos geográficos estratégicos para cobrir a totalidade do território amazônico (nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste).

A análise cruzou as medições de carbono com estatísticas de desmatamento, incidência de fogo, volume de chuvas, temperatura atmosférica e indicadores térmicos da superfície oceânica.

O método, estruturado sobre o monitoramento do balanço de carbono iniciado em 2010, fundamentou também outros três estudos coordenados por Gatti veiculados na Nature nos anos de 2014, 2021 e 2023. As publicações mais recentes já apontavam a transição do bioma para a condição de emissor líquido, fenômeno verificado de maneira mais aguda em zonas com maior histórico de supressão vegetal.

Em paralelo, a literatura científica documenta a recorrência de secas severas e ondas de calor na Amazônia, a exemplo de levantamento que identificou acréscimo superior a 3°C nas máximas térmicas durante a estação seca, mesmo em áreas intocadas. Outro trabalho sugere que os extremos climáticos do último El Niño podem se consolidar como o “novo normal” nas florestas tropicais caso não ocorra uma contenção efetiva nas emissões de gases estufa.

“Vemos a floresta absorvendo cada vez menos carbono. Mas a pergunta é: isso está acontecendo porque a vegetação está fazendo menos fotossíntese ou sofrendo mais decomposição? Além disso, as ações humanas estão superando essa capacidade ou são todos os fatores juntos? Responder a essas questões é extremamente importante para saber se as árvores estão perdendo a condição de continuar vivendo naquele ambiente”, destaca Gatti.

Para avançar nessa frente de investigação, a equipe conduz desde 2022 uma nova etapa metodológica centrada na avaliação do sulfeto de carbonila (COS), composto químico análogo ao CO2. O COS atua como marcador atmosférico da atividade fotossintética, funcionando como um indicador molecular que assegura medições mais acuradas para esclarecer os questionamentos levantados pela pesquisadora.

A pesquisa contou com o respaldo da Fapesp por meio do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, além da concessão de bolsa à investigadora do Inpe Camilla Lima Cunha, coautora do artigo.

“Investimento contínuo em ciência é fundamental para compreender as transformações em curso na amazônia e identificar os fatores que comprometem sua capacidade de absorver carbono”, diz Cunha. “Esse conhecimento é essencial para aprofundar a compreensão sobre as mudanças ambientais, além de contribuir com subsídios para a tomada de decisões e a definição de estratégias de conservação da floresta.”

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