O futebol passou por uma grande transformação ao longo das décadas, saindo de um período de forte encantamento nos anos 60 e 70, marcado pela inventividade, fantasia, ofensividade, habilidade e os devaneios individualistas. A partir dos anos 80, com a evolução científica, houve, progressivamente, uma grande valorização da estratégia, do planejamento, da disciplina tática e do jogo coletivo. O futebol se tornou mais previsível e mais defensivo. Um time esperava o outro para contra-atacar, e poucas grandes jogadas aconteciam. Com isso, diminuiu o número de gols. O futebol ficou mais amarrado e feio.
Nos últimos anos, no entanto, houve uma conciliação entre o prazer e o dever, entre a improvisação e o planejamento. Os grandes times e seleções europeias jogam um futebol mais intenso, de mais riscos e com muito mais gols. Em vez de marcar mais atrás para contra-atacar, as equipes pressionam para tentar recuperar a bola mais perto do outro gol. Por outro lado, correm mais riscos de deixar muitos espaços na defesa, ainda mais que os defensores também avançam na marcação.
Emoção e muitos gols na Europa
As partidas desta semana entre as grandes equipes na Liga dos Campeões foram espetaculares e com grande número de gols. A média na última rodada foi acima de quatro gols. O número poderia ter sido muito maior na vitória do PSG sobre o Barcelona por 4 a 2, pois os dois times tiveram muitas outras claras chances de marcar. Dois dos quatro gols do PSG foram marcados por meio-campistas (Vitinha e Fabián Ruiz). Os dois e João Neves formam um trio de meio-campistas que se alternam na marcação, na construção e na chegada ao ataque.
Bayern de Munique e Arsenal fizeram partida parecida no empate por 2 a 2. Um dos gols do Arsenal foi marcado pelo meio-campista Rice, que iniciou a jogada no próprio campo, tocou, recebeu, penetrou e fez um belíssimo gol. O centroavante Kane foi, como sempre, destaque no Bayern, jogando de uma área à outra.
Realidade distinta na Copa Libertadores
Enquanto isso, acontece outro futebol nas decisões da Copa Libertadores. O Palmeiras repetiu a estratégia do primeiro jogo. Marcou com nove jogadores recuados, perto da área, e nos pênaltis eliminou o Fluminense. Na outra semifinal, o Flamengo, no Maracanã, repetiu a má atuação da primeira partida e foi eliminado nos pênaltis pelo Estudiantes. Os dois jogos entre Palmeiras e Fluminense e os dois entre Flamengo e Estudiantes foram fracos.
O Fluminense, nos confrontos com Flamengo e Palmeiras, tem tido boas atuações, no mesmo nível ou até melhor do que o dos rivais, mesmo sem ter jogadores tão badalados. Na parada técnica do segundo tempo do segundo duelo com o Palmeiras, quando o jogo estava 0 a 0, o modesto e interino técnico Marcão disse aos jogadores para esquecer a estratégia e tentar com intensidade o gol. Ele não quis desprezar a tática. Apenas enfatizou que era o momento de transbordamento da alma para vencer o jogo. O Flu ganhou por 1 a 0 e só caiu nos pênaltis.
O futebol e o mundo incendiário em que vivemos atualmente passam por transformações que podem ser passageiras ou duradouras, permanentes, mesmo que não sejam eternas. É preciso separar as duas situações. Não é fácil. Elas se misturam. O mundo está confuso.
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