Uma sepultura com aproximadamente 2.800 anos, situada no extremo sul da Sibéria, na Rússia, revelou a prova mais remota do consumo de cannabis com o objetivo de obter efeitos psicoativos — ou seja, a prática de usar a planta para ficar chapado. Especialistas localizaram sementes do vegetal entre os artefatos do túmulo, além de marcas da assinatura química da substância em fios de cabelo humano preservados no interior da tumba.
O espaço funcionava como a última morada de figuras de alto escalão da sociedade cita. Os citas formavam um grupo de tribos nômades de ascendência iraniana que controlaram as planícies da Eurásia entre os séculos 9 a.C. e 3 d.C. Embora não tenham deixado registros escritos, sítios arqueológicos como o de Tunnug 1, onde a sepultura foi localizada, fornecem dados sobre o modo de vida desse povo.
Esses túmulos integram um teso funerário, um pequeno morro artificial erguido para abrigar a elite. No local também repousam dezenas de cavalos sacrificados e alguns ossos humanos dispersos. Entre esses elementos, os arqueólogos acharam quase mil sementes de cannabis, cuja deposição é estimada por volta do ano 790 a.C.
As sementes eram minúsculas, parecidas com as da cannabis selvagem, diferindo das variedades modernas que passaram por seleção artificial. Apesar de ser comumente ligada a regiões mais quentes, a planta vegeta de maneira natural por toda a Ásia Central, indicando uma coleta local realizada pelos citas da época. Contudo, a mera presença das sementes nos túmulos não bastaria para confirmar o consumo da cannabis.
Como a ciência decifrou o uso antigo da maconha
Para avançar, os pesquisadores contavam com outra evidência: um fio de cabelo humano preservado, datado do mesmo período das sementes e recuperado em Tunnug 1. Diferentemente de outros tecidos, o cabelo resiste à degradação e acumula substâncias circulantes do corpo em cada fio durante seu crescimento, gerando um registro químico duradouro após o falecimento.
Por meio de análises químicas, o fio de cabelo revelou a resposta. A identificação de canabinol — composto gerado quando o THC, o princípio psicoativo da cannabis, sofre oxidação —, somada a vestígios do próprio THC, indica que o indivíduo consumidor experimentou efeitos psicoativos.
A forma exata como os citas ingeriram a substância permanece incerta, pois a cannabis pode ter sido fumada ou as sementes simplesmente engolidas. No entanto, uma constatação é definitiva: eles consumiram a planta. Os dados foram divulgados em uma quinta-feira (5) na revista Science.
A trajetória milenar da humanidade com a cannabis
A presença da cannabis gerou questionamentos, já que sementes vegetais raramente compõem sepultamentos elaborados, a menos que tenham relevância cultural. Isso levou os cientistas a deduzirem que o uso da cannabis se relacionava a rituais funerários ou práticas de sacrifício humano.
“Se você pretende sacrificar um ser humano, talvez seja mais fácil não ter tanta resistência. E a cannabis poderia ser usada para sedar as pessoas”, diz Gino Caspari, um dos arqueólogos envolvidos com a descoberta, à New Scientist. Até então, as evidências mais concretas e antigas do uso da cannabis como substância psicoativa consistiam em vestígios químicos achados em braseiros de madeira na China, datados de 2.500 anos atrás.
Vale ressaltar que isso se refere estritamente ao uso da planta com fins psicoativos. A humanidade possui uma longa história com a cannabis: pesquisas mostram que o cultivo agrícola ocorre há pelo menos 12 mil anos, desde a domesticação na China para a extração de óleo e fibra de cânhamo.
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